A três meses das eleições, presidente ignora restrições legais que chama de “papagaiada desgraçada” e participa de 19 agendas em sete Estados, mas constrangimento no Rio Grande do Norte revela improviso na estratégia de reeleição
Brasília – A três meses da disputa por um novo mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) intensificou uma maratona de viagens e inaugurações de obras em sete Estados brasileiros, aproveitando os últimos dias antes da entrada em vigor das restrições legais que proíbem entregas oficiais durante o período de campanha (leia reportagem aqui).
Entre 19 de junho e 3 de julho, o presidente participou de 19 agendas políticas, visitando Minas Gerais, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Bahia, Ceará e Rio Grande do Norte, em uma estratégia que combina gestão pública com posicionamento eleitoral. O movimento gerou desconfiança nos eleitores uma vez que várias das obras são questionáveis: canteiro de obras de uma ponte na Bahia, e um túnel de água no nordeste que não passa água, são alguns dos micos.
O prazo estabelecido pela Lei das Eleições (Lei 9.504/1997) para que agentes públicos interessados em concorrer às eleições realizassem entregas de obras e serviços encerrou-se no sábado, 4 de julho.
Conhecido como “defeso eleitoral”, o período de restrições funciona de forma similar ao defeso da pesca, impedindo que o governo inaugure novas obras nos três meses que antecedem o primeiro turno das eleições.
Lula não escondeu sua irritação com a limitação legal, chamando as restrições de “papagaiada desgraçada” e afirmando que, embora não pudesse mais inaugurar, continuaria visitando obras em andamento.
Durante a maratona, o presidente anunciou investimentos de grande envergadura em infraestrutura, saúde, educação, habitação, agricultura e segurança pública. O pacote de entregas incluiu R$ 140 bilhões para a Nova Indústria Brasil, R$ 97,3 bilhões para o Plano Safra e R$ 600 milhões para a ferrovia Transnordestina.
As viagens-relâmpago cobriram cidades como Divinópolis, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Paracambi, Piraí, Três Lagoas, Ponta Porã, Campo Grande, Corumbá, Itajaí, Navegantes, Alagoinhas, Vera Cruz, Quixeramobim, Juazeiro do Norte e Luís Gomes.
Um dos momentos mais simbólicos da campanha ocorreu na sexta-feira (3), no Salão Nobre do Palácio do Planalto, durante cerimônia sobre o programa Brasil Sorridente. Lula, em seu papel de entrevistador, abordou um menino chamado Davi que estava na plateia.
Quando perguntado sobre o que fazia ali, o garoto aproveitou para fazer um pedido direto ao presidente: “Tem como você mandar pintar os muros de Salvador?”. Lula prontamente se dirigiu ao governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), e ao prefeito Bruno Reis (União Brasil), pedindo que ambos atendessem à solicitação da criança. O episódio ilustra bem a estratégia de campanha do presidente, que busca se posicionar como responsivo às demandas populares, especialmente as das crianças e dos mais pobres.
Naquela mesma sexta-feira, Lula acompanhou, diretamente do Planalto, uma série de inaugurações simultâneas em 12 cidades de sete Estados (São Paulo, Rio de Janeiro, Amazonas, Sergipe, Piauí, Alagoas e Pernambuco). Ministros como Guilherme Boulos (Secretaria-Geral) e Alexandre Padilha (Saúde), além do vice-presidente Geraldo Alckmin, apareceram nas cerimônias pelo telão, exibindo tudo ao vivo. A plateia, tanto no Salão Nobre quanto nas cidades beneficiadas, puxava o tradicional refrão da campanha petista: “Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula”, entremeado por “Lula, guerreiro do povo brasileiro”.
O túnel sem água e a frustração presidencial
No périplo pelo estados, micos esperavam o presidente. Um dos episódios mais constrangedores da maratona ocorreu na quinta-feira, (2), quando Lula inaugurou o Túnel Major Sales, parte do Ramal do Apodi da Transposição do Rio São Francisco para o Rio Grande do Norte.
A obra, com 6,5 quilômetros de extensão e capacidade para transportar até 20 metros cúbicos de água por segundo, estava completamente seca no momento da cerimônia. O presidente, que esperava presenciar a chegada das águas, ficou furioso com o ocorrido.
De acordo com informações divulgadas, um erro de cálculo da empresa responsável pela obra fez com que a água não chegasse a tempo. A previsão inicial era de que o fluxo hídrico chegasse ao meio-dia, mas acabou ocorrendo apenas à meia-noite.
Lula, que havia sobrevoado o local de helicóptero, reclamou publicamente durante o evento: “Cadê o dono da empresa que fez esse túnel?”. Durante seu discurso, instou o prefeito de Luís Gomes, Carlos Augusto de Penha, a chamar a população para aguardar a chegada das águas, afirmando que “essa água é uma benção para o povo do Nordeste”.
Vinte e quatro horas depois, ainda inconformado, Lula tentou explicar o ocorrido para eleitores que estavam no Planalto. “Eu fui inaugurar o último trecho da transposição do São Francisco. Fui lá pensando que eu ia esperar a água chegar, ia tomar um banho na água. Mas a empresa fez o cálculo errado. Ao invés de a água chegar ao meio-dia, chegou à meia-noite”, relatou.
O presidente incumbiu o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, de redobrar os esforços para divulgar “a maior obra de infraestrutura hídrica” da América Latina, reconhecendo a necessidade de gerenciar a narrativa sobre o incidente.
“Depois nós vamos colocar na televisão um vídeo das pessoas esperando a água atravessar o túnel para levar água de um Estado para outro Estado”, avisou Lula, sinalizando uma estratégia de comunicação para transformar o constrangimento inicial em uma narrativa positiva sobre a obra.
Se cumprir a promessa, Lula será enquadrado nos rigores da Lei das Eleições (Lei 9.504/1997). Na fala: “Depois nós vamos colocar na televisão…”, provavelmente será durante a campanha política, que será autorizada apenas em 6 de agosto do ano da eleição (ou no primeiro dia útil após essa data).

A Ponte de Itaparica e as críticas da oposição
Outro destaque da maratona foi o anúncio da Ponte Itaparica, que ligará a capital baiana à Ilha de Itaparica, ao custo de R$ 11,6 bilhões. Lula anunciou a obra na quarta-feira (1/7), afirmando: “Finalmente, saiu a Ponte Itaparica”. No entanto, o ex-prefeito de Salvador e adversário político do governador Jerônimo Rodrigues, ACM Neto (União Brasil-BA), aproveitou o ato para criticar o PT.
“Mas saiu onde? Saiu para quem?”, provocou Neto. “Eles prometem isso há 20 anos! Eu espero, sinceramente, que o presidente não esteja vivendo na Jerolândia, que é o mundo paralelo de Jerônimo Rodrigues”. A crítica reflete a disputa política na Bahia, onde o PT busca consolidar sua hegemonia eleitoral contra a oposição de centro-direita.
Comparação com Getúlio Vargas e o discurso populista
Nos discursos proferidos durante a maratona, Lula se comparou a Getúlio Vargas, o “pai dos pobres”, buscando evocar a memória de um presidente que marcou a história brasileira pela sua capacidade de mobilização das massas e implementação de políticas sociais. Embora nunca cite nominalmente o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), seu principal desafiante nas eleições de 2026, as críticas do presidente deixam claras suas intenções.
Durante uma cerimônia, Lula também fez um gesto obsceno em direção aos críticos, afirmando “Aqui para eles” com o dedo do meio para cima ao discursar sobre o programa Brasil Sorridente.
O gesto foi interpretado como uma resposta àqueles que questionam a capacidade do governo de entregar políticas públicas para os mais pobres. “Aqui nesse governo vocês percebem que não é só mulher que está com a bola toda. Aqui também as crianças reivindicam”, insistiu o presidente, reforçando sua narrativa de inclusão e responsividade às demandas populares.
A realidade está distante da narrativa do palanque
A maratona de Lula ocorre em um contexto de disputa acirrada pela reeleição. Apesar de ter perdido votos no Nordeste em comparação com eleições anteriores, o presidente ainda mantém a região como seu maior reduto eleitoral. A estratégia de intensificar inaugurações e anúncios de investimentos busca consolidar esse apoio e neutralizar críticas sobre a gestão econômica e a segurança pública.
Um auxiliar do presidente, afirmou que todos no Planalto esperam “uma guerra pela frente” nas eleições. Para evitar o “mal maior”, será preciso “combinar o jogo com o outro Davi”, em referência ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que controla a agenda legislativa e pode ser crucial para a aprovação de projetos de interesse do governo, como o fim da escala 6×1, antes do período eleitoral.
A maratona de Lula representa uma estratégia clássica de campanha presidencial, combinando a entrega de obras e serviços públicos com um discurso populista que busca reforçar a imagem do presidente como defensor dos pobres e das crianças. Ao mesmo tempo, o incidente do túnel sem água e as críticas da oposição revelam as vulnerabilidades dessa estratégia, mostrando que nem sempre as obras saem conforme o planejado e que a oposição está atenta para explorar qualquer falha na execução dos projetos governamentais.
A corrida contra o relógio imposta pelo defeso eleitoral evidencia a pressão política sob a qual o governo opera nos meses finais antes da eleição. Enquanto Lula busca consolidar sua narrativa de gestor que entrega resultados, a realidade das obras — com atrasos, erros de execução e promessas ainda não cumpridas — continua a alimentar o ceticismo de parte do eleitorado.
O resultado dessa disputa será decidido nas urnas em outubro de 2026, mas a maratona de julho deixa claro que o presidente está disposto a mobilizar todos os recursos disponíveis para assegurar sua permanência no poder.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















