Aliados do presidente brasileiro expressam preocupação com a postura ideológica em meio a tensões e negociações comerciais cruciais com Washington
Brasília – A possibilidade de um ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela é considerada altamente provável por fontes diplomáticas americanas em Washington. O presidente Donald Trump, segundo essas fontes, estaria priorizando uma operação de grande impacto global contra o narcotráfico, e não necessariamente uma mudança de regime. Este cenário de crescente tensão no Caribe se desenrola em meio aos preparativos para a Cúpula de Chefes de Estado da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) e da União Europeia (UE) em Santa Marta, na Colômbia, onde o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva pretende manifestar uma “solidariedade regional” à Venezuela – leia-se o ditador Nicolas Maduro -, uma postura que levanta preocupações entre seus aliados sobre o impacto nas relações com Washington e nas negociações de tarifas.
O pano de fundo para a iminente ação militar americana é a presença do porta-aviões USS Gerald R. Ford, o maior e mais moderno da Marinha dos EUA, em deslocamento rumo ao Caribe. Fontes diplomáticas americanas justificam a alta probabilidade de um ataque apontando que “ninguém movimenta o porta-aviões USS Gerald R. Ford […], sem uma razão militar importante”, e que seria difícil para Trump justificar o custo de tal movimentação sem um resultado significativo. A chegada do grupo de ataque do Ford ao Caribe é esperada nos próximos dias, após ter passado pelo Estreito de Gibraltar.
A estratégia americana, conforme descrito pelas fontes, seria um ataque “certeiro, que dê uma imagem vitoriosa ao mundo em matéria de combate ao narcotráfico”, cumprindo uma promessa de campanha de Trump aos americanos.

Aposta arriscada
A principal preocupação do presidente americano não seria a queda do regime venezuelano, mas sim demonstrar combate às “bases de onde sai a droga que mata cidadãos americanos, como ele costuma dizer”. O governo Trump sustenta a narrativa de que drogas como o fentanil chegam ao mercado americano a partir de países como México, Venezuela e Colômbia.
Especula-se que os alvos seriam “laboratórios de drogas, aviões que transportam drogas ou alguma instalação vinculada ao narcotráfico”. A intenção seria um ataque rápido, de “entrar e sair, não quer ficar na Venezuela numa guerra que pode terminar sendo um desastre”, à semelhança do ataque americano ao Irã que atingiu instalações nucleares.
As implicações de um eventual ataque são complexas e preocupantes para a região. Uma fonte expressou claramente que: “Se Trump atacar e o regime não cair, a oposição será aniquilada. Haverá um clima de caos, violência, fortalecimento de guerrilhas como o Exército de Liberação Nacional (ELN), e enfraquecimento da oposição, que passará a ser mais perseguida”. Além disso, “a Colômbia de Gustavo Petro também sofrerá consequências negativas” nesse cenário.
Neste contexto, a Cúpula CELAC-UE, agendada para domingo (9) e segunda-feira (10) em Santa Marta, na Colômbia, ganha contornos de urgência. O presidente Lula expressou a intenção de levar à mesa o momento de atritos entre Venezuela e Estados Unidos.
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que Lula manifestaria uma “solidariedade regional” ao país vizinho. Celso Amorim, assessor especial da Presidência, reforça a relevância do tema para o Brasil: “Nós temos que defender a América do Sul. Nós vivemos aqui. O Brasil tem fronteiras com dez países da América do Sul. Então, é diferente. […] Nós estamos discutindo uma coisa que é na nossa fronteira, praticamente. É natural”.
No entanto, a posição de Lula gera apreensão entre seus aliados. A avaliação é que “um discurso ideológico em defesa da Venezuela pode colocar em risco as negociações com o presidente norte-americano Donald Trump sobre a revisão de tarifas de 50% impostas ao Brasil”. As tratativas para reverter essas tarifas têm se atado a questões comerciais, e críticas enfáticas aos EUA ou defesas abertas à Venezuela poderiam “abalar a relação ainda frágil do Brasil com Donald Trump”.
Há uma expectativa de que o ministro Mauro Vieira se encontre com o Secretário de Estado americano, Marco Rubio, em reunião do G7 no Canadá para dar continuidade a esses esforços. Além disso, a defesa da Venezuela contraria o posicionamento de governos como Argentina, Uruguai, Chile, Paraguai e Equador, que devem enviar representantes de segundo escalão à cúpula, postura cobrada de Lula por empresários aliados e algumas lideranças política que não querem publicidade.
A percepção em Washington é que “o Brasil perdeu liderança na região e que o presidente Lula não conseguiu reverter essa situação”, e que os governos de esquerda latino-americanos pouco fizeram para mudar a situação venezuelana.
A presença militar americana no Caribe tem aumentado significativamente, com ataques a embarcações por suposto tráfico de drogas e ao menos 60 mortes nos últimos meses, ações criticadas pelo escritório de Direitos Humanos das Nações Unidas. O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, interpreta essas ações como tentativas de desestabilização e busca apoio da Rússia.

A situação divide os líderes participantes da cúpula. O anfitrião, presidente colombiano Gustavo Petro, também está em meio a uma troca de acusações com o governo Trump, tendo sido sancionado pela Casa Branca sob a acusação de facilitar a atuação de cartéis.
Petro, por sua vez, afirma que “forças externas à paz nas Américas” procuram o fracasso da cúpula. Muitos chefes de Estado veem a participação na cúpula como um risco para suas relações diplomáticas com Washington, preferindo manter distância, a ponto de a presença da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, não ser mais esperada.
A conjuntura regional aponta para uma escalada de tensões entre os Estados Unidos e a Venezuela, com implicações significativas para a América Latina e para a diplomacia entre o Brasil e os EUA. A Cúpula CELAC-UE, embora focada em comércio e combate ao crime organizado transnacional, torna-se um palco delicado onde a diplomacia regional tenta equilibrar a defesa da soberania e a manutenção de relações estratégicas com Washington. Este cenário evidencia as profundas divisões regionais e os riscos políticos e econômicos envolvidos para os países latino-americanos.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















