Peça de 30 segundos cita rachadinha, homenagem a miliciano e caso Banco Master, reforçada por jingle de forró, enquanto o presidente terá mais tempo de horário eleitoral que o senador no primeiro turno
Brasília – A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à reeleição abriu nesta sexta-feira (28) a propaganda eleitoral gratuita na televisão com ataques diretos ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário do petista na disputa pelo Palácio do Planalto, apresentando-o sob estética de ficha policial, com som de sirenes e acusações que reúnem o caso das rachadinhas, a homenagem ao líder de um grupo de matadores de aluguel do Rio de Janeiro e o escândalo do Banco Master. A estreia, que também recorre a um jingle de forró adaptado do sucesso “Osmarzinho”, marca o início de um horário eleitoral em que Lula terá a maior presença na televisão, com 433 inserções contra 339 do adversário.
Estreia com estética de ficha policial
A primeira inserção, de 30 segundos, apresenta o senador sob uma estética de ficha policial e, em um dos trechos, a campanha petista o classifica como “o pior dos Bolsonaros”. Na sequência, o vídeo lista episódios que, segundo a legenda, marcam a trajetória de Flávio. “Iniciou carreira como funcionário fantasma de um gabinete em Brasília. Denunciado por lavagem de dinheiro e organização criminosa no escândalo da rachadinha. Homenageou o líder do maior grupo de matadores de aluguel do Rio de Janeiro. Foi flagrado pela Polícia Federal pedindo R$ 134 milhões no escândalo do Banco Master. Não dá para confiar nesse sujeito”, é o que afirma a peça.
As acusações mencionadas no vídeo remetem a investigações públicas e amplamente noticiadas. O Ministério Público do Rio de Janeiro concluiu em 2020 a investigação do caso das rachadinhas e denunciou Flávio, juntamente com o ex-assessor Fabrício Queiroz e outras 15 pessoas, pelos crimes de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa, apontando o senador como líder do esquema. A Folha de S. Paulo noticiou em março deste ano que o caso foi encerrado com perguntas ainda sem resposta.
Sobre a homenagem citada na propaganda, Flávio concedeu a Medalha Tiradentes, a mais alta comenda do estado do Rio de Janeiro, a Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão do Bope apontado pelas investigações como integrante do chamado Escritório do Crime e do grupo conhecido como matadores de aluguel. A mãe do miliciano, Raimunda Veras Magalhães, que trabalhou como assessora do senador na Assembleia Legislativa fluminense, foi denunciada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro em março de 2026 por suspeita de lavagem de dinheiro.
No caso do Banco Master, o banqueiro Daniel Vorcaro foi preso no âmbito da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que investiga uma fraude bilionária e levou o Banco Central a decretar, em novembro de 2025, a liquidação extrajudicial da instituição. Em maio deste ano, o The Intercept Brasil revelou áudios nos quais Flávio aparece cobrando R$ 134 milhões de Vorcaro para financiar um filme biográfico sobre o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. A BBC News Brasil apurou que ao menos R$ 61 milhões teriam sido repassados ao projeto, valor que também é citado no jingle petista.
Jingle de forró reativa episódio com Vorcaro
Além da peça principal, a campanha de Lula recorreu a uma adaptação do hit conhecido como “Osmarzinho”, que já circulava nas redes sociais antes do início oficial da propaganda. Em ritmo de forró, o jingle reaproveita a melodia de uma peça criada para uma campanha de 2016 contra um candidato chamado Osmarzinho, no Piauí. A letra questiona “Quem pediu para o Daniel Vorcaro R$ 61 milhões para fazer o filme do pai? Foi o Flávio Bolsonaro”. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, a canção viralizou nas plataformas digitais e ainda menciona a compra de uma mansão. Procurada, a campanha de Flávio não respondeu às acusações.
Vantagem numérica de Lula no horário eleitoral
Por enquanto, os ataques contra Flávio estão concentrados nas inserções curtas exibidas durante a programação das emissoras. A divisão do espaço eleitoral dá a Lula a maior presença na televisão durante o primeiro turno, pois ao longo dos 35 dias de propaganda a campanha do presidente terá direito a 433 inserções, enquanto Flávio Bolsonaro contará com 339, Ronaldo Caiado (PSD) com 159 e Augusto Cury (Avante) com 47.
O horário eleitoral com programas mais longos começa neste sábado (29), no rádio e na televisão, e novamente Lula terá a maior duração, com 5 minutos e 31 segundos no primeiro programa, contra 4 minutos e 20 segundos de Flávio, 2 minutos e 2 segundos de Caiado e 35 segundos de Cury. A distribuição do tempo considera o tamanho das coligações e a representação dos partidos, de modo que os demais candidatos à Presidência, entre eles Renan Santos (Missão), que pontua em algumas pesquisas, não terão direito ao horário eleitoral gratuito, pois suas legendas não atingiram a cláusula de desempenho na eleição anterior.
Disputa polarizada e estratégias de rejeição
A estreia ocorre em um cenário de disputa polarizada. Pesquisas Quaest divulgadas na semana mostram Lula e Flávio Bolsonaro liderando as intenções de voto na maior parte dos estados, com vantagem petista mais ampla no Maranhão, onde o presidente marca 58% contra 20% do senador, liderança bolsonarista em Roraima e Caiado à frente em Goiás. Levantamento PoderData de 27 de agosto aponta Lula com 38% das intenções de voto no primeiro turno, seguido por Flávio, e pesquisas anteriores, como a divulgada pelo jornal O Tempo, indicam empate técnico entre os dois em eventual segundo turno.
Segundo a CNN Brasil, ambos os candidatos usam a estreia na TV para reduzir a rejeição, pois a campanha de Lula trabalha com a ideia de que o presidente precisa de mais tempo para concluir entregas iniciadas no mandato, enquanto Flávio busca sustentar a imagem de uma candidatura moderada diante dos episódios apontados nas investigações. Na primeira semana de campanha nas redes sociais, o senador também concentrou ataques diretos ao presidente, o que indica que o confronto deve dominar a agenda dos dois lados ao longo dos 35 dias de horário eleitoral.
Ao abrir a propaganda eleitoral com a trajetória investigada de Flávio Bolsonaro e o reforço do jingle contra o senador, a campanha de Lula sinaliza que o horário eleitoral será palco de um confronto direto e diário, no qual a vantagem numérica do presidente na televisão e a estratégia bolsonarista de blindar a imagem moderada definirão, em meio a um cenário de empate técnico nas pesquisas, os rumos de uma eleição que permanece indefinida até o fim do primeiro turno.
Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.














