Vacina brasileira ‘treina’ o sistema imune contra a nicotina
Brasília – O Laboratório Cristália anunciou nesta quinta-feira (27) os primeiros resultados de uma pesquisa para desenvolver uma vacina contra a dependência de nicotina, com investimento de até R$ 150 milhões e o objetivo de interromper o ciclo químico que mantém o fumante preso ao cigarro.
Em fase inicial de desenvolvimento, a chamada Early Discovery, o projeto conduzido com cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) demonstrou, em testes com roedores, capacidade de impedir a adicção, segundo a farmacêutica, que ainda precisa vencer estudos pré-clínicos, testes em humanos e o crivo da Anvisa antes de qualquer uso clínico. A aposta ocorre sob o peso da própria história recente da companhia, marcada pela polilaminina, substância apelidada de “molécula de Deus” que gerou onda de judicialização e expôs a distância entre anúncios científicos e aplicação real.
A estratégia do imunizante é estimular o sistema imunológico a reconhecer e capturar a nicotina ainda na corrente sanguínea, impedindo que ela alcance o cérebro e produza a sensação de prazer associada ao vício. Como a molécula da nicotina é pequena demais para, isolada, despertar resposta imunológica, ela é acoplada a uma estrutura reconhecida pelas células de defesa, e esse complexo passa a gerar anticorpos neutralizantes capazes de se ligar à substância.
Quando o fumante traga, o conjunto formado por anticorpo e nicotina torna-se grande demais para atravessar a barreira hematoencefálica, de modo que o cigarro perde o efeito prazeroso. Por atuar apenas no sangue, a abordagem evitaria efeitos colaterais neuropsiquiátricos comuns em medicamentos que agem no sistema nervoso, segundo o laboratório, que ressalta que a molécula não tem efeito psicotrópico.
A concepção partiu de Ogari Pacheco, fundador e presidente do conselho diretivo do Cristália. “O tabaco é um dos piores vícios. Mata aos poucos, em função de diversas doenças graves, como câncer, infarto e AVC. Mas é muito difícil abandonar o hábito e não ter recaídas”, afirmou o executivo.
Segundo ele, a vacina foi desenhada para atuar como aliada dos tratamentos tradicionais, sobretudo na fase de manutenção da abstinência, uma vez que “é justamente a recaída que a vacina do Cristália pretende prevenir”, já que a nicotina ativa receptores nicotínicos de acetilcolina no cérebro, favorece a liberação de dopamina e reforça o consumo compulsivo.
Os resultados apresentados restringem-se a animais. Os antígenos sintéticos, produzidos pela planta Farmoquímica Oncológica do complexo industrial de Itapira (SP), mostraram-se eficazes em induzir a geração de anticorpos específicos, e, em modelo experimental de desafio, a candidata vacinal demonstrou capacidade de impedir a dependência química.
Em colaboração com a UFRJ, o estudo avaliou roedores fêmeas com dependência estabelecida por injeções de nicotina, e, após um esquema de três doses, os animais apresentaram melhora significativa em alterações comportamentais de abstinência, como ansiedade e hiperexcitabilidade.
Gisele Zapata-Sudo, médica da UFRJ responsável por essa etapa, confirmou que a vacina gerou anticorpos específicos e reduziu a chegada de nicotina ao cérebro, o que chancela o avanço do projeto para os estudos de toxicidade. Os dados quantitativos de eficácia, porém, permanecem sob sigilo em razão do processo de patente.
O laboratório reconhece que o percurso é longo. “O desenvolvimento depende da conclusão de estudos pré-clínicos de eficácia e segurança, desenvolvimento farmacotécnico e analítico, aumento de escala e estudos clínicos em humanos antes de um eventual pedido de registro à Anvisa”, ponderou a companhia.
O projeto nasceu em maio de 2024, a partir de uma plataforma anti-drogas estruturada pela empresa, e o pedido de patente deve ser depositado em cerca de um mês, com a publicação científica dos resultados prevista apenas depois, o que limita, por ora, a verificação independente dos dados.
Rogério Almeida, vice-presidente de pesquisa e inovação do laboratório, classificou a iniciativa como “inovação radical” e “proposta de risco”, já que a molécula totalmente sintética foi desenhada para superar o principal obstáculo das tentativas anteriores, que é a incapacidade de gerar resposta imune forte e consistente na maioria dos pacientes.
O histórico pesa contra a promessa. Nas últimas décadas, quatro grandes candidatas internacionais, NicVAX, NicQb, Niccine e TA-NIC, fracassaram em demonstrar eficácia clínica para a população fumante.
A NicVAX não atingiu seus objetivos em dois estudos de fase 3, embora os ensaios tenham revelado uma prova de conceito, já que os 30% de pacientes com maiores níveis de anticorpos alcançaram 24,6% de abstinência contínua, contra 12% no grupo placebo.
Padrão semelhante apareceu na fase 2 da NicQb, em que o terço com melhor resposta imune chegou a 56,6% de abstinência, ante 31,3% dos que receberam placebo.
A Pfizer, por sua vez, chegou a testar uma vacina contra a nicotina em 275 voluntários no Canadá, em estudo iniciado em 2012, sem previsão de conclusão. No Brasil, o tratamento da dependência segue amparado no Programa Nacional de Controle do Tabagismo (PNCT), do SUS, que combina abordagem cognitivo-comportamental, conforme diretrizes do Inca, com terapias de reposição de nicotina, adesivos e gomas, além do antidepressivo bupropiona.
O tom de cautela vem da própria experiência do Cristália com a polilaminina. A proteína desenvolvida pela UFRJ para lesões na medula espinhal, apelidada de “molécula de Deus” nas redes sociais, gerou uma onda de judicialização por pacientes baseados em expectativas descoladas da realidade científica.
No início de agosto de 2026, os resultados do primeiro teste em humanos foram publicados na revista Spinal Cord, e os próprios autores reconheceram limitações, já que o estudo-piloto não teve grupo controle e serviu apenas para avaliar viabilidade e segurança.
Tatiana Sampaio, pesquisadora líder do projeto na UFRJ, chegou a admitir que a versão preliminar do estudo foi publicada com gráficos trocados e dados mal apresentados, e o ensaio formal de fase 1, autorizado pela Anvisa em janeiro, contará com apenas cinco voluntários. A experiência serve de alerta para a vacina antitabagismo, uma vez que resultados iniciais, ainda que promissores, não garantem desfecho clínico.
Especialistas consultados mantêm a expectativa contida. Renato Kfouri, infectologista e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), avalia que a ciência avançou no conhecimento dos agentes infecciosos, mas o grande desafio segue sendo o controle de doenças não infecciosas, como a dependência química.
Já Jaqueline Issa, cardiologista e diretora do programa de tratamento do tabagismo do Incor, ressalta que, como a vacina atua no bloqueio da nicotina, ela poderia ser mais atraente na prevenção de recaídas, uma vez que mais da metade das pessoas que param de fumar acaba voltando ao vício, o que reforçaria o papel do imunizante como ferramenta complementar às políticas públicas de controle do tabaco.
Entre a promessa anunciada e a prateleira das farmácias, a vacina antitabagismo do Cristália precisa vencer anos de testes, o sigilo de seus próprios dados e a desconfiança deixada por décadas de tentativas frustradas, e é justamente a trajetória da polilaminina, da euforia à judicialização, que impõe ao laboratório, à ciência e às autoridades sanitárias o desafio de tratar resultados iniciais como esperança legítima, mas nunca como certeza.
Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.














