Aos 19 anos, ele já teve seis tipos de câncer; entenda síndrome que desativa o freio das células e favorece o surgimento de tumores
Síndrome de Li-Fraumeni afeta 1 em cada 300 brasileiros no Sul e Sudeste e eleva o risco de câncer em múltiplos órgãos; vigilância constante e diagnóstico precoce são as principais formas de tratamento.
Luis Adolpho Moraes tem 19 anos e seis diagnósticos de câncer registrados em seu prontuário médico. O primeiro surgiu quando ele tinha apenas três anos, identificado como um cisto rígido na parte interna da coxa. Ao longo da infância e da adolescência, outros tumores apareceram em sequência: dois tumores ósseos, um sarcoma na coxa, uma metástase no pulmão e, mais recentemente, um adenocarcinoma no intestino.
A recorrência de tumores em idades tão precoces levou os médicos a investigarem a possibilidade de uma predisposição genética. Ainda na infância, um teste confirmou a suspeita: Luis é portador da síndrome de Li-Fraumeni, uma condição classificada como rara em grande parte do mundo, mas que aumenta de forma expressiva o risco de desenvolvimento de câncer ao longo da vida.
No Brasil, especialmente nas regiões Sul e Sudeste, a síndrome deixou de ser considerada rara. Pesquisas identificaram uma variante específica do gene TP53 que faz com que 1 em cada 300 pessoas dessas regiões carregue uma alteração genética capaz de comprometer a principal proteína de defesa do DNA. Trata-se da maior prevalência documentada da síndrome em todo o mundo.
Primeiros diagnósticos

O primeiro tumor de Luis apareceu aos três anos: um rabdomiossarcoma, tipo de câncer que se origina em células musculares e é mais comum na infância. A lesão exigiu tratamento imediato, com quimioterapia, radioterapia e acompanhamento intensivo. Durante meses, ele alternou consultas, internações e deslocamentos frequentes entre Registro e São Paulo.
Quatro anos depois, aos sete anos, um novo tumor foi diagnosticado. Desta vez, tratava-se de um osteossarcoma, câncer ósseo que costuma acometer ossos como fêmur, tíbia e úmero e é considerado um dos tumores mais característicos de síndromes de predisposição genética. O tratamento incluiu cirurgias para retirada da área afetada, reconstrução óssea com enxertos e internações prolongadas.
A combinação de dois tumores agressivos, de tipos distintos e em idades tão próximas, chamou a atenção da equipe médica. Em geral, esse padrão sugere um risco hereditário aumentado e leva à investigação de doenças que predispõem ao câncer desde a infância.
Mutação no “guardião do genoma”
Após o segundo tumor, a equipe solicitou um teste genético detalhado. O resultado confirmou a suspeita de mutação no TP53, gene responsável pela produção da proteína p53, conhecida na literatura científica como “o guardião do genoma”.
A oncogeneticista do Hospital Sírio-Libanês Maria Isabel Achatz, uma das principais referências em síndrome de Li-Fraumeni no Brasil, explica que o TP53 funciona como uma espécie de instrução biológica. Quando está íntegro, a célula produz corretamente a proteína p53, que atua como um freio: identifica danos no DNA, interrompe a multiplicação celular e ativa mecanismos de reparo.
Quando o gene TP53 está alterado, a proteína p53 deixa de cumprir essa função. Sem esse controle, células com erros genéticos continuam se dividindo, o que aumenta a probabilidade de formação de tumores em diferentes tecidos, muitas vezes de forma precoce e repetida, como ocorre na síndrome de Li-Fraumeni.
No caso de Luis, a mutação não está presente nem na mãe nem no pai. Ela surgiu pela primeira vez nele, situação que ocorre em cerca de 20% dos pacientes.
A síndrome no Brasil: por que somos o país com mais casos?
No Brasil, a síndrome de Li-Fraumeni apresenta características particulares. Pesquisas coordenadas por Maria Isabel Achatz identificaram, no início dos anos 2000, uma variante específica do gene TP53, conhecida como c.1010G>A, encontrada repetidamente em famílias do Sul e Sudeste. Era sempre a mesma mutação, no mesmo ponto do gene, transmitida ao longo de gerações.
Estudos posteriores mostraram que se trata de uma mutação fundadora, surgida em um ancestral comum há cerca de 300 anos e disseminada ao longo das antigas rotas tropeiras. Atualmente, essa mutação está presente em cidades do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, além de regiões de São Paulo e Minas Gerais.
Com isso, a prevalência da síndrome nessas regiões atingiu números inéditos: 1 em cada 300 indivíduos, proporção muito superior à observada em outros países. Isso significa que o Brasil concentra a maior população de pessoas com predisposição para Li-Fraumeni no mundo, embora a maioria não saiba que carrega a mutação.
Sequência de diagnósticos e tratamentos
Aos 12 anos, Luis enfrentou o terceiro tumor, um sarcoma agressivo no fêmur direito. Não havia margem de segurança para preservação do membro, e a equipe propôs a amputação da perna acima do joelho. A mãe se desesperou, mas o menino respondeu com objetividade: “Prefiro perder a perna do que perder tempo de vida.”
Após a cirurgia, passou meses em reabilitação até se adaptar à prótese. O período não interrompeu sua rotina escolar nem sua disposição para recuperar a mobilidade.
Um ano depois, aos 13, surgiu um novo diagnóstico: um tumor ósseo no joelho esquerdo. As biópsias e análises iniciais não conseguiram definir com precisão o tipo de câncer, situação comum em pacientes com síndrome de Li-Fraumeni, cujos tumores podem apresentar comportamento atípico. Diante do risco, a equipe optou por tratar a lesão como um osteossarcoma.
Pouco tempo depois, uma metástase foi identificada no pulmão. A lesão foi removida por cirurgia, e os médicos decidiram não indicar quimioterapia adicional para evitar exposição desnecessária, já que alguns quimioterápicos podem aumentar o risco de novos tumores em pacientes com TP53 alterado.
O oncologista do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, Stephen Stefani, explica que o equilíbrio terapêutico nesses casos é delicado. Pacientes com Li-Fraumeni precisam de intervenções rápidas, mas também de cautela, pois cada exposição à radiação ou a determinados agentes quimioterápicos pode, paradoxalmente, estimular o surgimento de novos tumores.
No fim de 2023, durante uma colonoscopia de rotina, exame obrigatório no protocolo de Li-Fraumeni, um pólipo suspeito foi detectado no intestino. A biópsia confirmou o sexto diagnóstico: um adenocarcinoma em estágio inicial. Luis passou por cirurgia e retomou o protocolo de rastreamento.
Vida na síndrome: acompanhar para antecipar
O acompanhamento de pessoas com síndrome de Li-Fraumeni é contínuo e estruturado. O protocolo mais utilizado é o Protocolo de Toronto, que inclui ressonância magnética de corpo inteiro a cada seis meses, ultrassonografias direcionadas, exames específicos para mama, abdome, cérebro e tireoide, exames de sangue periódicos e consultas regulares com equipes de genética e oncologia.
Aos 19 anos, ele já teve seis tipos de câncer; entenda síndrome que desativa o freio das células e favorece o surgimento de tumores
Síndrome de Li-Fraumeni afeta 1 em cada 300 brasileiros no Sul e Sudeste e eleva o risco de câncer em múltiplos órgãos; vigilância constante e diagnóstico precoce são as principais formas de tratamento.
A vida sob vigilância permanente
A síndrome de Li-Fraumeni não tem cura. O manejo da doença depende da capacidade de identificar tumores muito cedo, antes mesmo do surgimento de sintomas. Por isso, o acompanhamento não é opcional e envolve vigilância estruturada, com exames de imagem periódicos e avaliações clínicas regulares.
Para os especialistas ouvidos pela reportagem, esse monitoramento é o principal fator capaz de alterar o prognóstico, já que a falha no gene TP53 aumenta o risco de novos tumores ao longo de toda a vida.
A síndrome também tem implicações familiares. Em geral, quando um dos pais carrega a mutação, cada filho tem 50% de chance de herdá-la, pois basta uma única cópia alterada do gene para que o risco se manifeste. Em cerca de 20% dos casos, no entanto, a alteração surge pela primeira vez no indivíduo, por um erro espontâneo na formação embrionária, as chamadas mutações de novo, como aconteceu com Luis. Testes genéticos confirmaram que ele é o primeiro da família com Li-Fraumeni.
Rastreamento insuficiente e diagnósticos tardios
No Brasil, a alta prevalência da síndrome não se traduz em vigilância adequada. A maior parte dos pacientes só recebe o diagnóstico após desenvolver múltiplos tumores, quando a doença já avançou e procedimentos mais invasivos se tornam inevitáveis.
Um estudo publicado no The Lancet Regional Health – Americas reforça essa lacuna. A pesquisa analisou mil portadores da mutação TP53 p.R337H, comum no Sul e Sudeste, e comparou dois cenários: acompanhamento estruturado pelo Protocolo de Toronto e ausência de vigilância.
O rastreamento ativo, que inclui ressonância de corpo inteiro, exames direcionados e consultas periódicas, aumentou a sobrevida média em três a quatro anos e mostrou ser custo-efetivo para o Sistema Único de Saúde. O trabalho também confirma que os tumores associados à síndrome surgem cedo, apresentam alta taxa de repetição e que a detecção precoce altera de forma significativa o desfecho clínico.
Apesar disso, médicos afirmam que grande parte dos brasileiros com mutações no TP53 permanece sem diagnóstico e sem acesso ao acompanhamento regular recomendado. Eles reforçam que ampliar o acesso ao teste genético e implementar protocolos de vigilância contínua são passos essenciais para reduzir diagnósticos tardios e evitar tratamentos mais agressivos.















