A tecnologia pode representar um importante avanço na acessibilidade para milhões de brasileiros com deficiência auditiva. O estudante Gabriel Sales, da Universidade Federal Fluminense (UFF), desenvolveu um aplicativo baseado em inteligência artificial capaz de reconhecer a Língua Brasileira de Sinais (Libras) e traduzi-la instantaneamente para texto e áudio em português utilizando apenas a câmera de um celular ou computador. O projeto, chamado IA Libras, ganhou destaque internacional em julho de 2026 ao conquistar um prêmio no Swift Student Challenge, competição promovida anualmente pela Apple para estudantes desenvolvedores.
Uma ideia que nasceu dentro da universidade
A inspiração para o projeto surgiu durante a graduação em Estatística na UFF. Segundo Gabriel Sales, tudo começou após frequentar uma disciplina ministrada por uma professora surda. Ao conhecer as dificuldades enfrentadas por pessoas com deficiência auditiva para se comunicar em ambientes públicos, hospitais, escolas e repartições, o estudante decidiu utilizar seus conhecimentos em programação e inteligência artificial para desenvolver uma solução prática de inclusão social.
O desenvolvimento do aplicativo levou meses de estudos sobre visão computacional, aprendizado de máquina (Machine Learning) e reconhecimento de movimentos das mãos. A proposta era criar um sistema que pudesse dispensar equipamentos especiais, utilizando apenas dispositivos comuns que milhões de pessoas já possuem.
Como funciona o IA Libras
O aplicativo utiliza a câmera do smartphone ou do computador para captar os movimentos realizados pelo usuário em Libras.
Em seguida, algoritmos de visão computacional identificam a posição das mãos, braços e parte da expressão corporal. Esses dados são processados por modelos de inteligência artificial treinados para reconhecer sinais da Língua Brasileira de Sinais.
Após o reconhecimento, o sistema converte automaticamente os gestos em:
- texto em português;
- áudio sintetizado;
- recursos voltados ao aprendizado da própria Libras.
A tecnologia permite praticamente uma tradução em tempo real, reduzindo uma das maiores barreiras enfrentadas pela comunidade surda: a comunicação com pessoas que não conhecem Libras.
Reconhecimento da Apple
O projeto chamou atenção internacional ao vencer o Swift Student Challenge 2026, competição organizada pela Apple que premia estudantes com soluções tecnológicas inovadoras de impacto social.
A seleção reúne milhares de participantes do mundo inteiro, avaliando criatividade, inovação, qualidade técnica e benefício para a sociedade.
O reconhecimento colocou Gabriel Sales entre os jovens desenvolvedores brasileiros com maior projeção internacional na área de inteligência artificial aplicada à acessibilidade.
O desafio da tradução de Libras
Embora existam ferramentas conhecidas, como o VLibras, disponibilizado pelo Governo Federal, a tradução automática da Libras continua sendo um enorme desafio científico.
Diferentemente do português, Libras possui gramática própria, estrutura linguística independente e depende não apenas dos movimentos das mãos, mas também de expressões faciais, orientação corporal e contexto da comunicação.
Isso exige sistemas de IA muito mais sofisticados do que simples tradutores de texto.
A ciência por trás da tecnologia
O avanço do IA Libras acompanha uma tendência mundial de pesquisas sobre tradução automática de línguas de sinais.
Nos últimos anos, diversos estudos passaram a utilizar:
- redes neurais profundas;
- visão computacional;
- detecção de pontos corporais (landmarks);
- modelos de aprendizado profundo para reconhecimento de gestos.
Pesquisas publicadas em 2024 e 2025 demonstraram que novas arquiteturas de inteligência artificial conseguem elevar significativamente a precisão do reconhecimento da Libras, reduzindo a necessidade de enormes bancos de vídeos rotulados.
Em paralelo, instituições brasileiras também vêm desenvolvendo projetos semelhantes. Em abril de 2026, pesquisadores do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) apresentaram o TradiLibras, um aplicativo que combina IA, Python e visão computacional para traduzir sinais em tempo real. Outro projeto, o LibrasCam, divulgado em janeiro de 2026, utiliza OpenCV, MediaPipe, TensorFlow e Flutter para reconhecer gestos e convertê-los em texto com alta taxa de acerto em ambiente experimental.
Impacto social
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), milhões de brasileiros convivem com algum grau de deficiência auditiva. Apesar do reconhecimento oficial da Libras pela Lei nº 10.436, sancionada em 24 de abril de 2002, ainda existe escassez de intérpretes em serviços públicos e privados.
Ferramentas como o IA Libras podem ampliar significativamente a autonomia das pessoas surdas em situações cotidianas, como:
- consultas médicas;
- atendimento bancário;
- escolas e universidades;
- repartições públicas;
- comércio;
- serviços de emergência.
Embora a tecnologia ainda não substitua intérpretes humanos em contextos complexos, especialistas consideram que soluções baseadas em IA têm potencial para complementar esses profissionais e democratizar o acesso à comunicação.
Próximos passos
Gabriel Sales afirma que o objetivo é continuar aprimorando o aplicativo, ampliando o vocabulário reconhecido, aumentando a precisão da tradução e disponibilizando novos recursos de aprendizado para estudantes de Libras.
Com o avanço dos modelos de inteligência artificial e da visão computacional, projetos como o IA Libras indicam que a tecnologia poderá desempenhar um papel cada vez mais importante na redução das barreiras de comunicação e na promoção da inclusão social no Brasil.
Fonte: exame.com.br















