Procedimento realizado em Osaka utiliza lâminas de células cardíacas produzidas a partir de células iPS e representa um novo passo da medicina regenerativa
Uma equipe médica no Japão realizou nesta terça-feira (29) uma cirurgia considerada um marco na medicina regenerativa: pela primeira vez, uma paciente recebeu, em uma aplicação clínica após a aprovação da terapia, uma lâmina de células do músculo cardíaco produzidas a partir de células-tronco pluripotentes induzidas, conhecidas como células iPS.
O procedimento foi realizado no Hospital Osaka Keisatsu, em Osaka, e teve como objetivo tratar um quadro grave de insuficiência cardíaca. Segundo a instituição, a cirurgia foi concluída com sucesso por volta do meio-dia e representa o primeiro procedimento desse tipo realizado após a inclusão da terapia no sistema público de seguro de saúde japonês.
A paciente é uma mulher na faixa dos 50 anos. De acordo com informações divulgadas pela empresa Cuorips, responsável pelo produto RiHEART, o procedimento durou aproximadamente 50 minutos e a paciente permanecia estável após a cirurgia.
Como funciona a nova terapia
O tratamento utiliza células iPS, uma tecnologia que permite reprogramar células humanas adultas para um estado semelhante ao das células-tronco, possibilitando posteriormente sua diferenciação em diferentes tipos celulares.
No caso do RiHEART, as células são transformadas em células musculares cardíacas e cultivadas em formato de lâminas. Durante a cirurgia, três dessas lâminas são colocadas diretamente sobre a superfície do coração.
A proposta é que as células transplantadas contribuam para a recuperação do tecido cardíaco. Segundo a empresa responsável pelo produto, a lâmina libera substâncias, como citocinas, que podem favorecer a melhora das condições do músculo cardíaco, com expectativa de redução dos sintomas e melhora da função do coração e da capacidade de realizar exercícios.
A terapia é destinada a pacientes com insuficiência cardíaca grave provocada por cardiomiopatia isquêmica — condição relacionada à redução do fluxo sanguíneo para o músculo cardíaco — quando os tratamentos convencionais não apresentam resultados suficientes.
Tratamento passou por estudos antes de chegar aos hospitais
Apesar de a cirurgia de setembro representar uma novidade mundial em termos de utilização clínica do produto aprovado, a tecnologia não surgiu de forma repentina.
Antes da aprovação, a terapia foi avaliada em um estudo clínico envolvendo oito pacientes com insuficiência cardíaca grave decorrente de cardiomiopatia isquêmica. O Ministério da Saúde japonês informa que o estudo foi aberto e sem grupo de controle.
Na avaliação principal, dois dos oito pacientes apresentaram melhora no indicador de função cardíaca utilizado como desfecho principal. O governo japonês também informou que outros parâmetros foram analisados, incluindo medidas relacionadas à estrutura do coração, sintomas e capacidade de exercício.
Esses resultados foram considerados no processo regulatório, mas a própria natureza da aprovação demonstra que ainda existe uma etapa de acompanhamento da eficácia e da segurança do tratamento.
Aprovação tem prazo e exige acompanhamento
O produto RiHEART recebeu aprovação no Japão em 6 de março de 2026. A autorização foi concedida de forma condicional e por prazo determinado de sete anos.
Isso significa que a terapia entrou em uso antes de uma avaliação definitiva de todos os seus resultados de longo prazo. O governo japonês estabeleceu como condição a realização de acompanhamento dos pacientes e a coleta de dados após a comercialização.
Entre os aspectos que precisam continuar sendo monitorados estão a evolução da função cardíaca, eventos clínicos, capacidade de exercício e possíveis complicações, incluindo o desenvolvimento de tumores.
O acompanhamento é particularmente importante porque as células iPS possuem características que permitem sua transformação em diferentes tipos celulares. Por isso, a segurança de longo prazo é uma das questões centrais no desenvolvimento de terapias baseadas nessa tecnologia.
Japão tenta transformar pesquisa em tratamento
A cirurgia também representa um avanço na tentativa de levar a tecnologia das células iPS dos laboratórios para a prática médica.
O próprio Ministério da Saúde japonês classificou a aprovação do RiHEART como parte da primeira implementação prática de produtos terapêuticos desenvolvidos a partir da tecnologia iPS. A tecnologia tem origem nas pesquisas do cientista japonês Shinya Yamanaka, vencedor do Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2012 por seu trabalho com células-tronco pluripotentes induzidas.
A diferença em relação a um transplante cardíaco convencional é significativa. Em vez de substituir o órgão doente por um coração proveniente de um doador, a estratégia busca recuperar ou melhorar a função do próprio coração do paciente.
Isso pode ter impacto especialmente relevante no Japão, onde a disponibilidade limitada de órgãos para transplante é um dos desafios enfrentados no tratamento da insuficiência cardíaca avançada. O Hospital Osaka Keisatsu aponta justamente a escassez de doadores como uma das razões pelas quais a nova abordagem é considerada uma possível alternativa terapêutica.
Um marco, mas ainda não uma cura definitiva
Apesar do entusiasmo provocado pela cirurgia, os resultados não significam que a medicina já tenha encontrado uma cura para a insuficiência cardíaca.
A terapia ainda está sendo acompanhada e a aprovação japonesa possui caráter condicional. Além disso, o estudo que serviu de base para a avaliação inicial envolveu apenas oito pacientes, o que limita a capacidade de determinar como o tratamento funcionará em uma população maior e durante períodos mais longos.
O próximo desafio será justamente ampliar a quantidade de pacientes acompanhados e verificar se os benefícios observados nos primeiros estudos permanecem ao longo do tempo.
Ainda assim, a cirurgia realizada em Osaka representa uma mudança importante: uma tecnologia desenvolvida a partir de células iPS deixou o campo predominantemente experimental e passou a ser utilizada em um tratamento autorizado para pacientes com doença cardíaca grave.
Se os resultados de segurança e eficácia forem confirmados nos próximos anos, a estratégia poderá abrir caminho para uma nova geração de tratamentos destinados não apenas a controlar os sintomas da insuficiência cardíaca, mas a tentar recuperar parte da função do próprio músculo cardíaco.
Fonte: oim.or.jp















