Ex-presidente, que cumpre pena de 27 anos na “Papudinha”, foi transferido pelo Samu para o Hospital DF Star com vômitos e calafrios
Brasília – O ex-presidente da República, Jair Bolsonaro (PL), foi transferido em caráter de urgência para o Hospital DF Star, em Brasília, na manhã desta sexta-feira (13). A internação ocorreu após Bolsonaro apresentar um quadro de vômitos intensos e calafrios durante a madrugada.
O episódio médico acontece enquanto ele cumpre a pena de 27 anos e três meses de prisão nas instalações do 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal — local conhecido como “Papudinha”, situado no Complexo Penitenciário da Papuda —, e reacende o debate técnico e jurídico sobre suas condições de saúde no cárcere.
A notícia da crise clínica foi divulgada inicialmente pelo filho do ex-presidente, o senador e pré-candidato à presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Por meio de suas redes sociais, o parlamentar informou ter sido notificado por autoridades sobre a situação.
“Acabo de receber a notícia de que meu pai, Jair Bolsonaro, está a caminho do hospital, mais uma vez… Informações preliminares de que acordou com calafrios e vomitou bastante. Peço orações que não seja nada grave”, declarou o senador.
Crise na madrugada
O agravamento do quadro de saúde ocorreu ainda durante a madrugada. Segundo os registros, Bolsonaro foi prontamente atendido pela equipe médica de plantão da unidade prisional, que tomou a decisão clínica de transferi-lo para um ambiente hospitalar. O transporte foi realizado por uma ambulância do Serviço de Atendimento Médico de Urgência (Samu), e o ex-presidente deu entrada no Hospital DF Star por volta das 8h50.
A obtenção de informações oficiais sobre o estado clínico detalhado do paciente tem esbarrado em limitações burocráticas e legais. A Secretaria de Saúde do Distrito Federal declinou fornecer dados sobre o atendimento prestado pela equipe de plantão, justificando sua posição na legislação referente ao Sigilo de Prontuário de pacientes da rede pública.
Paralelamente, a Secretaria de Administração Penitenciária do DF (Seape-DF) explicou que não dispõe de informações por não ter jurisdição sobre a unidade do 19º Batalhão, espaço de responsabilidade exclusiva da Polícia Militar. A defesa de Jair Bolsonaro, ainda não havia retornado até as atualizações iniciais deste caso.
O contexto jurídico e o embate sobre a prisão domiciliar
A hospitalização repentina traz implicações diretas aos recentes debates judiciais travados em torno da prisão de Bolsonaro, iniciada em 15 de janeiro. Na semana passada, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, por unanimidade, negar um pedido de conversão da detenção para prisão domiciliar com fins humanitários.
O ministro Alexandre de Moraes, relator do caso, pautou o entendimento da Corte ao declarar a inexistência de “requisitos excepcionais” que justificassem a concessão do benefício.
Em seu voto, Moraes foi categórico ao afirmar que o ex-presidente cometeu “reiterados descumprimentos das medidas cautelares durante toda a ação penal”. O magistrado também destacou que uma “dolosa e ostensiva tentativa de fuga com destruição de aparelho de monitoramento eletrônico” atuava como fator impeditivo primário para a cessação do regime em estabelecimento prisional.
Houve, durante a tramitação deste pedido, uma clara divergência pericial. Os advogados de Bolsonaro embasaram a solicitação em laudos de assistentes técnicos, os quais alertavam para o risco de quedas e de agravamento severo de suas condições físicas e psicológicas.
Em contrapartida, a perícia conduzida pela Polícia Federal (PF) concluiu que o ex-presidente possuía condições plenas de cumprir a pena no batalhão e não necessitava de cuidados em nível hospitalar naquele momento específico.
Apesar da negativa técnica, o próprio relatório da PF admitiu a gravidade subjacente da saúde de Bolsonaro. O laudo o classificou como um paciente de quadro de “alta complexidade”, diagnosticado com “múltiplas doenças crônicas e comorbidades” abrangendo as áreas cardiovascular, respiratória, metabólica, nutricional e psiquiátrica.
Família continua luta em buscas da prisão domiciliar
A transferência na manhã desta sexta-feira adiciona uma nova e tangível urgência médica ao cenário de detenção do ex-presidente. Jair Bolsonaro acumula um longo histórico de vulnerabilidades sistêmicas desde 2018, quando sofreu um atentado à faca em Juiz de Fora (MG).
O ataque gerou perfurações intestinais e hemorragias profundas que resultaram em múltiplas intervenções cirúrgicas, uso de colostomia e a formação de aderências no abdômen, causando repetidos quadros de obstrução intestinal e hérnias nos últimos anos.
Diante da atual internação via Samu, as previsões dos peritos da defesa sobre o agravamento das condições físicas de Bolsonaro ganham um elemento de materialidade.
O episódio testará o delicado equilíbrio institucional entre a firmeza do Supremo Tribunal Federal na manutenção das sanções impostas e a responsabilidade do Estado em garantir a integridade física e o suporte de alta complexidade exigido pelo histórico clínico do detento. A família estuda com os advogados impetrar novo pedido para a obtenção da prisão domiciliar por razões de saúde do ex-presidente.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















