Em Jacundá, no sudeste do Pará, a morte não vem mais só das sombras da violência urbana – ela acelera em alta velocidade pelas ruas mal fiscalizadas, ceifando vidas com uma impunidade alarmante. Um levantamento recente do Datasus desnuda uma realidade brutal: no ano de 2025, nada menos que 23 pessoas foram dizimadas em acidentes de trânsito, um número que esmaga os 11 homicídios registrados no mesmo período. Isso não é mero acidente; é um atestado de falência total do sistema viário, onde o asfalto se transforma em matadouro público, superando até a criminalidade armada em letalidade.
A escalada é aterrorizante e inaceitável. De 13 óbitos em 2022 para 15 em 2023, 16 em 2024 e um salto criminoso de quase 44% para 23 em 2025 – uma progressão que grita por intervenção imediata, mas ecoa no vazio da inércia. Enquanto isso, o Departamento Municipal de Trânsito Urbano (DMTU) assiste de braços cruzados, com ações de fiscalização em queda livre nos últimos meses.
Resultado? Uma festa de irregularidades: menores pilotando veículos como se fossem brinquedos, manobras suicidas que desafiam a física e a lei, motoristas embriagados transformando ruas em pistas de roleta-russa, e uma infinidade de infrações que viram rotina impune.
Diante dessa bagunça assassina, o Ministério Público, no final de 2024, precisou intervir com uma recomendação que soa como um tapa na cara das autoridades locais: reorganize esse caos ou assuma a culpa pelo sangue derramado. Entre as demandas urgentes, destaca-se a realização de um novo concurso público para inflar o quadro de agentes – hoje, míseros 19 servidores tentam cobrir uma cidade que já contou com mais de 30 no passado.
É uma piada de mau gosto: como vigiar uma frota colossal com um punhado de gente?
Os dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) escancaram a raiz do problema: mais de 22 mil veículos circulam por Jacundá, com 69% sendo motocicletas e motonetas – verdadeiras armadilhas sobre duas rodas em vias precárias e mal sinalizadas. Não por acaso, os acidentes com motos dominam o terror: só em novembro de 2025, cinco vidas foram extintas em colisões desse tipo, um mês que resume o ano inteiro de descaso.
Essa predominância de motos não é coincidência; é consequência direta de uma infraestrutura deficiente e uma fiscalização fantasma, que permite que vulneráveis se tornem estatísticas.
Jacundá não pode mais tolerar essa carnificina viária como “normalidade”. É hora de as autoridades acordarem do torpor e agirem com rigor implacável, antes que mais famílias sejam destruídas por uma negligência que já ultrapassa o absurdo.
Do contrário, o próximo levantamento não será só de números – será um réquiem coletivo por uma cidade que se rendeu ao caos sobre rodas.















