Com mais de 3 milhões de inscritos no YouTube e conhecido nas redes sociais por prometer o cuidado “do corpo, da mente e da alma” por meio da medicina chinesa, Peter Liu teve seu nome envolvido em uma grave denúncia trabalhista. Uma decisão do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de Campinas, no interior de São Paulo, aponta que o sucesso digital do influenciador foi sustentado, por décadas, por trabalho análogo à escravidão.
Segundo a condenação, uma empregada doméstica viveu por cerca de 30 anos em condições degradantes, sem salário regular, registro em carteira ou autonomia, enquanto realizava tarefas domésticas, cuidava da família e trabalhava na clínica de medicina chinesa ligada aos Liu.
Em resposta à imprensa, Peter Liu alegou não ter contato com a vítima há mais de 20 anos e afirmou que ela seria funcionária exclusiva de sua ex-esposa. No entanto, fotos anexadas ao processo mostram o influenciador ao lado da funcionária, da filha e do genro em uma sorveteria em São José do Rio Preto (SP), em 2018, o que contradiz a versão apresentada pela defesa.
A mulher, natural de Belo Jardim (PE), é semianalfabeta e começou a trabalhar com a família ainda jovem, inicialmente como babá. Após os primeiros meses, deixou de receber salário e passou a viver integralmente sob a dependência da família, que prometia regularizar sua situação trabalhista — o que nunca ocorreu.
Jornada exaustiva e condições degradantes
De acordo com a denúncia, a empregada trabalhava das 7h às 22h, dormia em locais improvisados, inclusive na maca do consultório, e era obrigada a atender pacientes da clínica, além de exercer funções domésticas e administrativas. Ao longo de décadas, o único dinheiro que recebia eram trocados de compras feitas para a família.
Há ainda relatos de ameaças de morte, xingamentos xenofóbicos, ausência de atendimento médico após acidentes e restrições à liberdade, caracterizando trabalho análogo à escravidão.
Condenação e recursos
A família Liu foi condenada a pagar R$ 400 mil de indenização, valor que a defesa da vítima considera insuficiente diante dos danos morais e psicológicos causados. O juiz também determinou o envio do caso ao Ministério Público do Trabalho (MPT), Ministério Público Federal (MPF) e Polícia Federal.
A defesa de Peter Liu afirma que o processo seria fruto de uma “trama armada” e diz confiar na reversão da decisão em instâncias superiores.
O caso reacende o debate sobre exploração trabalhista, uso indevido de relações de confiança e a contradição entre a imagem pública de influenciadores digitais e práticas reveladas pela Justiça. Com informações de Metrópoles.















