☞ Com 50% de desaprovação, governo enfrenta desafio de conter preços de itens essenciais que afetam renda das famílias
☞ IPCA em 5,23% reflete pressão persistente de alimentos e energia, principais críticas em pesquisa de opinião
☞ Pesquisa Ipsos-Ipec mostra que economia é área mais criticada; pressão sobre renda disponível das famílias intensifica-se
Brasília – A pressão inflacionária sobre alimentos, combustíveis e energia elétrica emerge como um dos principais desafios políticos do governo Lula em 2026, com potencial para impactar significativamente a aprovação presidencial. Dados recentes indicam que a inflação acumulada em 12 meses atingiu 5,23% em julho, ultrapassando o teto da meta de inflação estabelecida pelo Banco Central, enquanto pesquisas de opinião mostram deterioração na avaliação governamental, especialmente nas áreas de economia e segurança.
A pesquisa Ipsos-Ipec divulgada em junho de 2026 revelou que 50% dos brasileiros desaprovam a forma como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conduz o governo, enquanto a aprovação ficou em 44%. O levantamento aponta que as áreas mais criticadas são justamente gastos públicos e economia, domínios diretamente afetados pela dinâmica inflacionária dos últimos meses. A deterioração da aprovação ocorre em um contexto de pressão persistente sobre os preços de itens essenciais ao orçamento das famílias brasileiras.
O cenário inflacionário de 2026
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou variação de 0,26% em julho de 2026, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Embora o indicador mensal tenha desacelerado em relação aos meses anteriores, a inflação acumulada em 12 meses permanece elevada em 5,23%, refletindo pressões que se acumularam ao longo do ano. O Banco Central projeta que o IPCA acumulado em 12 meses chegue a 5,17% em agosto, mantendo-se acima do teto da meta de inflação de 4,5%.
A trajetória inflacionária de 2026 foi marcada por volatilidade. Em maio, o IPCA registrou alta de 0,58%, com a prévia do mês (IPCA-15) atingindo 0,62%, a maior para o período desde 2016. Naquele momento, o indicador furou o teto da meta pela primeira vez desde outubro de 2025. A desaceleração observada em junho e julho, com variações de 0,32% e 0,26% respectivamente, ofereceu algum alívio, mas não foi suficiente para reverter a percepção de pressão inflacionária entre consumidores.
Com base nos dados oficiais do governo a inflação acumulada desde janeiro de 2023 provam a estagnação da economia brasileira:
☛ 2023: 4,62% (IPCA anual)
☛ 2024: 4,83% (IPCA anual)
☛ 2025: 4,26% (IPCA anual)
☛ Janeiro a junho 2026: 3,36% (acumulado no ano).
Então candidato ao terceiro mandato à frente da Presidência, Lula (PT) prometeu há 1.417 dias que o brasileiro “voltaria a comer churrasquinho, picanha e cervejinha“. A afirmação do petista em entrevista ao Jornal Nacional da Globo, em 24 de agosto de 2022, virou mantra da campanha petista. Após quase 46 meses e 17 dias, todos os preços aumentaram; a cerveja, por exemplo, ficou entre 20% e 26% mais cara, em média, em mercados e bares, conforme levantamento realizado em Belo Horizonte em maio de 2026.
Inflação voltou com força
Domada há décadas, inclusive nos dois primeiros governos do cacique da esquerda, a inflação voltou com força total no terceiro governo do “protetor dos pobres”. A acumulada desde janeiro de 2023 até junho de 2026 significa que todos os produtos ficaram ao menos 21% mais caros. No mínimo. O IPCA de 2023 fechou em 4,62%, o de 2024 em 4,83%, o de 2025 em 4,26%, e o acumulado de janeiro a junho de 2026 chegou a 3,36%.
Picanha na mesa dos pobres é uma ofensa e aparece esporadicamente na mesa da classe média
Entre janeiro de 2024 e junho de 2026, a picanha acumulou 10,66% de alta; o contrafilé subiu 56,5% desde janeiro de 2020; acém registrou aumentos significativos; e músculo também pressionou o orçamento das famílias, segundo dados do IPCA-15 e do Farmnews.
Origem dos cortes
O preço nominal da arroba do bezerro passou dos R$ 500 pela primeira vez na história, em março de 2026. A alta anterior havia sido registrada em 2021, durante a pandemia de covid-19.
Se faz de leso e esquece as promessas
“O povo tem que voltar a comer um churrasquinho, a comer uma picanha e tomar uma cervejinha”, disse Lula em 2022. Em 2026, não disse nada.

Alimentos: o principal vilão
A alimentação emergiu como o principal vetor de pressão inflacionária em 2026. Em maio, o grupo de alimentação e bebidas respondeu por 0,29 ponto percentual da alta de 0,58% do IPCA, representando aproximadamente metade do aumento total do índice naquele mês. A alta de alimentação em maio foi a maior para o período desde 2015, segundo dados do Valor Econômico.
Produtos como batata, tomate e feijão registraram aumentos significativos, refletindo tanto fatores climáticos quanto pressões de custos internacionais. O Ministério da Fazenda projetou que a inflação dos alimentos ganharia força em 2026, uma avaliação que se confirmou ao longo dos primeiros meses do ano.
A volatilidade de preços de alimentos é particularmente sensível para o governo, uma vez que esses itens representam parcela substancial do orçamento das famílias de menor renda, grupos que historicamente constituem base eleitoral importante.

Energia elétrica e combustíveis
A energia elétrica também exerceu pressão significativa sobre a inflação em 2026. Em maio, a conta de luz contribuiu para a alta do IPCA, refletindo aumentos tarifários que afetaram diretamente o custo de vida das famílias. Projeções indicavam que as tarifas residenciais de energia deveriam subir, em média, 5,4% em 2026, segundo dados divulgados no início do ano.
Os combustíveis apresentaram dinâmica distinta. Em maio, os preços de combustíveis caíram 1,95%, com recuos em gasolina e diesel, ajudando a conter a inflação geral a peso de subsídios de bilhões sobre o Tesouro Nacional, com o governo arrastando os Estados e o Distrito Federal para o déficit das contas, sob o argumento de “proteger o brasileiro da Guerra EUA-Israel x Irã.
Essa queda nos preços, portanto, é artificial e terá que ser paga em data próxima, mas ofereceu alguma mitigação aos efeitos inflacionários de alimentos e energia, não o suficiente para reverter a percepção de pressão sobre o custo de vida. A volatilidade dos combustíveis, frequentemente associada a fatores geopolíticos e variações cambiais, permanece como fator de risco para a inflação futura.
Impacto na renda disponível e consumo
A persistência da inflação acima da meta afeta diretamente a renda disponível das famílias brasileiras. Quando preços de itens essenciais como alimentos, energia e combustíveis aumentam acima da inflação geral, as famílias são forçadas a realocar seus orçamentos, reduzindo gastos em outros setores ou poupança. Esse efeito é particularmente severo para famílias de baixa renda, que dedicam proporção maior de seus orçamentos a esses itens.
O impacto na renda real das famílias tende a refletir-se em pesquisas de aprovação governamental. Quando consumidores percebem que seu poder de compra está sendo erodido, tendem a avaliar negativamente a gestão econômica do governo, independentemente de outras políticas ou realizações. A pesquisa Ipsos-Ipec de junho, que mostrou 50% de desaprovação, reflete esse cenário de pressão sobre o orçamento familiar.
O ano de 2026 é marcado por eleições gerais, tornando a questão da inflação particularmente sensível politicamente. Governos enfrentam desafios ao tentar controlar inflação de alimentos e energia, uma vez que esses setores envolvem fatores que escapam ao controle direto da política monetária ou fiscal, como condições climáticas, preços internacionais de commodities e dinâmicas de oferta e demanda globais.
O governo Lula tem buscado implementar medidas para conter a inflação, incluindo políticas de controle de preços e estímulos à produção agrícola. No entanto, a efetividade dessas medidas é limitada quando fatores externos exercem pressão significativa.
A comunicação sobre essas limitações tem se mostrado desafiadora, com consumidores frequentemente atribuindo ao governo responsabilidade por aumentos de preços que refletem dinâmicas mais amplas.
O Banco Central projeta que a inflação acumulada em 12 meses desça para 4,83% em setembro de 2026, sugerindo que a pressão inflacionária pode estar começando a arrefecer. Essas projeções, no entanto, dependem de fatores externos que permanecem incertos, incluindo a evolução de preços internacionais de alimentos e energia, além de possíveis choques cambiais.
Economistas consultados apontam que alimentos e serviços continuam sendo focos de risco para a inflação em 2026. A perspectiva de retomada da alta de preços dos alimentos, que foi um dos principais fatores para que a inflação de 2025 ficasse em 4,26% e abaixo do teto da meta, representa desafio contínuo para o governo.
Governo está ficando sem margem de manobra
A inflação de alimentos, combustíveis e energia elétrica representa desafio político significativo para o governo Lula em 2026, agravado por uma situação fiscal cada vez mais restritiva.
A deterioração da aprovação presidencial, com 50% de desaprovação segundo a pesquisa Ipsos-Ipec de junho, reflete em parte o impacto dessa pressão inflacionária sobre o orçamento das famílias brasileiras.
Enquanto o Banco Central trabalha para trazer a inflação de volta à meta, o governo enfrenta o desafio de comunicar as limitações de sua capacidade de controlar fatores externos que impulsionam preços de itens essenciais.
A margem de manobra fiscal do governo, porém, está se estreitando perigosamente. A dívida pública bruta atingiu 81,1% do PIB em maio de 2026, segundo dados do Trading Economics, e o Fundo Monetário Internacional projeta que esse indicador chegue a 96,5% do PIB em 2026 e ultrapasse 100% do PIB em 2027.
O Ministério do Planejamento prevê que a dívida pública acelerará para 86% do PIB em 2027, representando uma alta de quase 12 pontos percentuais durante o terceiro mandato de Lula. Essa trajetória de endividamento crescente reduz significativamente a capacidade do governo de investir em políticas públicas ou oferecer alívio fiscal às famílias afetadas pela inflação.
O déficit fiscal permanece como foco de preocupação. Embora o governo tenha registrado superávit de R$ 25,2 bilhões em abril de 2026, acima das projeções do mercado, a mediana das expectativas dos economistas aponta para um déficit primário de 0,50% do PIB em 2026, conforme o relatório Focus de julho. Essa situação coloca o governo em uma encruzilhada: a necessidade de controlar gastos para evitar uma desordem fiscal conflita com a pressão política por medidas que aliviem o impacto da inflação sobre o custo de vida.
Uma possível desordem fiscal representaria risco grave para a economia brasileira. O endividamento elevado já compromete o crescimento econômico, segundo levantamento do Banco Mundial, ao reduzir a capacidade de investimento privado e aumentar a pressão sobre as taxas de juros.
Se a dívida pública continuar em trajetória de crescimento acelerado, o governo pode enfrentar dificuldades para refinanciar suas obrigações, levando a um aumento substancial dos custos de financiamento e, consequentemente, a uma espiral de juros mais altos que alimentaria ainda mais a inflação.
A dinâmica entre inflação, aprovação governamental e restrição fiscal tende a intensificar-se conforme as eleições se aproximam, tornando a questão econômica central no debate político dos próximos meses.
A capacidade do governo de demonstrar progresso no controle da inflação, particularmente em alimentos e energia, sem comprometer a sustentabilidade das contas públicas, pode ser determinante para sua performance eleitoral e para a sustentação de sua base de apoio político.
O desafio é ainda maior porque qualquer medida expansionista para aliviar a inflação de curto prazo pode agravar os desequilíbrios fiscais de longo prazo, criando um dilema político sem soluções fáceis.
O temor geral é que Lula despreze todos os alertas, mande os números para a lata do lixo e repita Dilma Roussef que, após reeleita enfiou o país na maior crise financeira de sua história.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















