Conglomerado dono da Vitamedic e da Coca-Cola em Goiás é apontado como comprador da marca de cosméticos
Brasília – No último sábado (29/8), o mercado de mídia e negócios foi movimentado por uma informação de grande repercussão. O colunista Flávio Ricco, de um Portal de fofocas, divulgou que o Grupo Silvio Santos teria concluído a venda da Jequiti Cosméticos para o Grupo José Alves, um dos maiores conglomerados empresariais de Goiás, em uma operação avaliada em aproximadamente R$ 536 milhões. A notícia, no entanto, encontrou imediata resposta oficial, já que o Grupo Silvio Santos emitiu comunicado desmentindo a transação e reafirmando o controle da empresa de cosméticos.
O episódio ilustra um descompasso entre a informação de mercado e a posição oficial da companhia. Enquanto fontes do mercado, citadas pelo colunista, asseguravam o avanço das tratativas, a assessoria do grupo afirmou textualmente que “a Jequiti Cosméticos não foi vendida” e que “a operação da companhia permanece em seu curso habitual”. Até a conclusão desta reportagem, nenhuma das empresas havia anunciado oficialmente a conclusão do negócio.
A transação corporativa privada, não tem envolvimento direto de órgãos do governo ou políticas públicas, uma vez que o mercado de varejo brasileiro passa por uma das maiores crises de endividamento de empresas da história. Para compreender o negócio da Jequiti, é necessário situar o papel da empresa dentro do grupo Silvio Santos e do setor em que atua.
A empresa foi criada há 20 anos, em 6 de outubro de 2006, no auge da estratégia de diversificação do Grupo Silvio Santos, e ganhou projeção nacional principalmente pela exposição em programas e comerciais do SBT, emissora do mesmo conglomerado. A marca esteve ligada ao game show Roda a Roda entre 2008 e 2017 e, novamente, de 2021 a 2024, além de ter sido promovida em abril deste ano no Jequiti Live Show de Ofertas.
O setor de cosméticos, perfumaria e cuidados pessoais, no qual a Jequiti atua por meio de uma rede de consultores de venda direta, é sensível ao comportamento do consumidor. Produtos de beleza costumam ser considerados itens não essenciais no orçamento familiar, o que os torna mais vulneráveis a cortes em cenários de aperto financeiro. A pressão sobre a renda disponível das famílias, em contexto de custo de vida elevado, costuma afetar diretamente o desempenho de empresas desse segmento. É nesse cenário que se explica, em parte, a situação financeira relatada pela imprensa.

A situação financeira e o histórico de negociações
Segundo as informações divulgadas pelo colunista, a Jequiti vinha enfrentando dificuldades financeiras e operando no vermelho nos últimos anos. A busca por um comprador não seria recente, já que a família Abravanel vinha tentando negociar a marca há alguns anos, e o próprio Silvio Santos teria participado diretamente de algumas dessas tentativas nos últimos anos de vida do apresentador, que morreu em 2024.
O histórico de negociações não é inédito. Em 2024, a Jequiti chegou a manter conversas para uma possível venda à farmacêutica Cimed, com proposta que, segundo registros de mercado, chegou a envolver valores em torno de R$ 450 milhões pela totalidade da empresa. No entanto, o acordo não avançou e foi encerrado sem consenso. A fracasso daquele negócio, e a retomada de tratativas com outro grupo, reforça o diagnóstico de que a companhia estaria sendo ativamente colocada à venda pelo conglomerado.
O comprador apontado e o desmentido oficial
O Grupo José Alves, apontado como comprador, é um conglomerado familiar criado em 1962 e com origem em Goiás, que atua em diferentes frentes da economia. Seu principal negócio é a Refrescos Bandeirantes, fabricante e distribuidora de produtos Coca-Cola em Goiás e Tocantins. O portfólio reúne também marcas como Água Mineral Crystal, Rembal, Vitamedic, Alfa Educação e 3T Systems, com operações em áreas que incluem bebidas, saúde, educação, tecnologia, imóveis e indústria. Caso a aquisição se confirme, a Jequiti passaria a integrar um grupo com raízes goianas e atuação diversificada no mercado nacional.
A despeito das informações sobre o avanço das tratativas, a posição oficial é categórica. Em nota enviada a veículos da imprensa, o Grupo Silvio Santos afirmou que a Jequiti Cosméticos não foi vendida e que a operação segue sob sua gestão. A assessoria reforçou que a empresa permanece sob o controle do grupo. Essa divergência entre a fonte de mercado e a fonte oficial é o ponto central— e, por rigor jornalístico, não é possível, até o momento, atribuir como fato consumado o que ainda é tratado como negociação em curso.
Duas narrativas
O episódio revela um embate entre duas narrativas. De um lado, o colunista e fontes do mercado sustentam que a venda estaria próxima de ser concluída, com valores e condições considerados satisfatórios pelo Grupo Silvio Santos. De outro, o comunicado oficial nega a transação e mantém a companhia sob gestão do grupo. Não há, até esta edição, documento público, registro de mudança societária ou anúncio de fechamento do negócio que permita confirmar a transferência de controle.
É importante destacar que desmentidos oficiais em negociações sensíveis não são incomuns no mercado, seja para preservar sigilo durante tratativas, seja para evitar especulação antes da assinatura de contratos.
Também não é raro que informações de colunistas antecipem operações que só depois são confirmadas pelas empresas. Por outro lado, a ausência de confirmação oficial e a manifestação expressa de desmentido impõem cautela. A rigor, o que se tem é uma negociação reportada, não uma venda concluída e anunciada.
Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.














