A Embaixada dos Estados Unidos no Brasil protagonizou nesta quinta-feira (7) um novo episódio da crescente tensão diplomática entre os dois países. Em uma publicação nas redes sociais, o órgão oficial dos EUA divulgou uma ameaça direta a apoiadores do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmando que “estão avisados” aqueles que “apoiam ou facilitam” as decisões do magistrado — não apenas no Judiciário, mas também “em outras esferas”.
A publicação da embaixada foi uma tradução e endosso explícito de uma mensagem anterior de Darren Beattie, subsecretário de Diplomacia Pública do Departamento de Estado dos EUA, que criticava duramente a atuação de Moraes e conclamava outros juízes a não seguirem o seu exemplo. Beattie compartilhou uma nota oficial do governo norte-americano criticando a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), determinada por Moraes na última segunda-feira (4), após violação de medidas cautelares impostas pelo STF.
“Os flagrantes abusos de direitos humanos cometidos por Moraes lhe renderam uma sanção Global Magnitsky do presidente Trump”, escreveu Beattie, referindo-se à inclusão de Moraes na lista de sanções da Lei Magnitsky.
A sanção impede o ministro de entrar nos Estados Unidos, bloqueia eventuais bens sob jurisdição americana e restringe seu acesso a serviços de empresas daquele país — tratamento normalmente reservado a ditadores, criminosos de guerra ou violadores sistemáticos dos direitos humanos. Além de Moraes, outros sete ministros do STF também tiveram seus vistos americanos revogados, conforme apurou o jornal O Estado de S. Paulo.
Para completar a ofensiva, o governo norte-americano impôs um tarifaço de 50% sobre determinados produtos brasileiros, como forma de exercer pressão econômica direta sobre o país.
Reação brasileira: nova reprimenda diplomática
A resposta do governo Lula não tardou. O Ministério das Relações Exteriores já articula nova convocação formal do encarregado de negócios dos EUA no Brasil, Gabriel Escobar, que chefia a missão diplomática americana no país. A chancelaria brasileira avalia a recente manifestação como mais um caso de interferência indevida em assuntos internos do Brasil, violando claramente o artigo 41 da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, que proíbe representantes estrangeiros de se imiscuírem nas questões domésticas dos países onde atuam.
Segundo apurou O Estado de S. Paulo, o Itamaraty entende que, embora a embaixada americana em Brasília atue sob ordens diretas de Washington, as publicações em redes sociais configuram uma escalada sem precedentes e exigem uma reação firme. O novo protesto oficial será o quarto desde a chegada de Gabriel Escobar, em janeiro de 2025. As três convocações anteriores trataram de temas como deportações, ingerências políticas e a carta de Donald Trump anunciando o tarifaço.
Até o momento, Escobar nunca foi recebido pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. Nas ocasiões anteriores, ouviu as queixas da embaixadora Maria Luiza Escorel, secretária da pasta para Europa e América do Norte. Nesta quinta-feira, Escobar se reuniu com o vice-presidente e ministro da Indústria, Geraldo Alckmin, em encontro considerado protocolar, mas esvaziado politicamente diante da crise diplomática.
Risco de crise institucional
A ofensiva norte-americana tem sido vista por analistas como uma tentativa explícita de desestabilização institucional, com apoio a setores bolsonaristas e ataques frontais ao Supremo Tribunal Federal. A inclusão de Alexandre de Moraes na Lei Magnitsky, feita ainda no final da gestão de Donald Trump, revela que a pressão não é um movimento isolado, mas parte de uma estratégia geopolítica mais ampla.
Fontes do governo brasileiro afirmam que o Planalto considera a retórica dos EUA “inaceitável” e que o Brasil não aceitará ser coagido por meio de ameaças públicas ou tarifas econômicas punitivas. A resposta diplomática, segundo o Itamaraty, será conduzida dentro dos protocolos internacionais, mas com firmeza.
A crise expõe os limites da diplomacia entre o governo Lula e os EUA, sobretudo diante de uma possível nova gestão Trump em Washington. A ingerência em questões judiciais internas, como o caso de Alexandre de Moraes e o processo contra Jair Bolsonaro, tem potencial para colocar em xeque os canais de diálogo e o próprio respeito à soberania brasileira.















