POLÍTICA
Tarifas americanas
O governo federal reuniu-se na tarde de quinta-feira (16), para apresentar seu posicionamento em resposta ao novo tarifaço anunciado pelo governo dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. A imposição de uma tarifa de 25% sobre importações brasileiras, confirmada pelas autoridades americanas na noite de quarta-feira, 15, deverá atingir aproximadamente 18% do que o país exporta para os Estados Unidos, conforme dados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic) durante a coletiva de imprensa. Trata-se de um novo golpe nas relações comerciais bilaterais, que já havia sofrido pressões tarifárias em 2025, demonstrando a persistência da estratégia protecionista da administração Trump.
Brasil Soberano
De acordo com o ministro da Fazenda, Dario Durigan, o governo já tem pronto o conjunto de medidas que comporá a nova rodada do programa Brasil Soberano, destinado a ampliar os auxílios às empresas dos setores atingidos pelo novo tarifaço. O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Márcio Elias Rosa, reforçou que “os setores que foram atingidos terão atendimento prioritário do governo federal, como foi nas edições anteriores do Brasil Soberano”. O programa, criado no ano passado para auxiliar empresas prejudicadas pelas tarifas de 2025, ganhará agora uma nova rodada voltada àquelas que voltam a ser prejudicadas pela nova política comercial americana.

Ceticismo do setor privado
Nem todos compartilham do otimismo governamental. José Ricardo Roriz Coelho, presidente da ABIPLAST (Associação Brasileira da Indústria do Plástico), um dos setores mais afetados pelo tarifaço, manifestou preocupações significativas sobre a efetividade das medidas anunciadas. Em entrevista televisiva, Roriz Coelho apontou que o programa de crédito e ajuda do governo, embora bem-intencionado, enfrenta limitações estruturais. “Isso principalmente vai prejudicar as empresas médias e que têm entre o mix de sua produção um volume muito grande de exportações para os Estados Unidos”, explicou.
Dificuldades imensuráveis
O executivo destacou que muitas empresas brasileiras definiram como estratégia exportar para o mercado americano, que representa um mercado de US$ 37 trilhões de dólares, mas no qual o Brasil representa apenas 1%. Essas empresas, segundo Roriz Coelho, enfrentarão dificuldades imensuráveis para reorientar suas exportações para outros mercados, especialmente considerando que: “O Brasil tem um custo de produção muito alto e, com essas tarifas, nós não vamos ter competitividade nem tempo para essas empresas alcançarem outros mercados”.
Politização do debate comercial
A questão da retaliação comercial através da Lei da Reciprocidade Econômica também gerou preocupações no setor privado. Quando questionado sobre o receio da politização do debate, Roriz Coelho foi direto: “Esse assunto está muito politizado. O próprio nome [do programa de socorro aos empresários] ‘Brasil Soberano’, por que esse nome? Adotar reciprocidade agora, quem vai perder ainda mais somos nós”. A crítica reflete uma tensão fundamental entre a resposta política do governo e as necessidades econômicas reais das empresas afetadas, sugerindo que medidas retaliativas, embora simbolicamente importantes, podem agravar ainda mais a situação das exportadoras brasileiras.
Lei da Reciprocidade em discussão
O governo já havia informado, em seu primeiro comunicado em resposta ao anúncio das tarifas, que acionará a Lei da Reciprocidade Econômica. Trata-se de um mecanismo legal novo, aprovado por unanimidade no Congresso Nacional no ano passado, que permite ao Executivo adotar uma série de medidas sobre países que considerar terem ferido as regras conjuntas ou internacionais de comércio. De acordo com os ministros, serão iniciadas discussões para decidir a melhor maneira de implementar essa lei. “Esta lei foi aprovada por unanimidade no Congresso Nacional no ano passado, e o governo, no momento adequado, saberá como implementá-la”, afirmou o vice-presidente Geraldo Alckmin. Durigan complementou: “Levaremos esse grupo de ministros ao presidente Lula para discutir a retomada do processo de reciprocidade, e o presidente Lula nos dará as orientações a respeito disso”. A decisão sobre quais medidas retaliativas serão adotadas permanece em aberto, sujeita às deliberações presidenciais.
Chanceler evita explicações sobre “risco de invasão” e será processado
O chanceler Mauro Vieira foi convocado para comparecer à Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados e não compareceu. Embora os ministros sejam obrigados a atender convocações sob pena de crime de responsabilidade, Vieira não se apresentou para explicar por que o Itamaraty, em resposta a um deputado, afirmou que a classificação de organizações criminosas — o PCC e o Comando Vermelho — como terroristas abriria a possibilidade de uma intervenção militar dos Estados Unidos no Brasil. A alegação levantou questões sobre a fundamentação jurídica e política dessa posição. Um assessor do Itamaraty informou que o chanceler estará à disposição entre 11 e 14 de agosto, mas a ausência já provocou reação dos deputados, que apresentaram uma queixa-crime à Procuradoria-Geral da República por crime de responsabilidade. A fuga de Vieira da convocação parlamentar alimenta suspeitas sobre a solidez dos argumentos que sustentam a posição do Itamaraty nessa questão sensível.

Bolsonaro e a “Carta aos brasileiros”
A pré-campanha de Flávio Bolsonaro continua gerando controvérsias. Na quarta-feira (15), duas bombas explodiram no cenário político: a primeira foi uma fotografia em que aparecem Flávio Bolsonaro e o “Cabra da Peste” de Daniel Vorcaro, o “aprendiz de mafioso do Banco Master”. A imagem, divulgada por um site de esquerda (ICL Notícias), gerou especulações sobre sua autenticidade, mas passou por um detector de inteligência artificial sem indicar manipulação. Flávio alegou não conhecer o suicida e afirmou que tira fotos com todo mundo. A segunda e mais grave foi a manifestação entregue ao ministro Alexandre de Moraes pela defesa de Jair Bolsonaro, em resposta à ordem de explicar a desobediência às restrições de não se manifestar por redes sociais.
Defesa de Bolsonaro em contradição
A defesa de Bolsonaro, da qual Flávio faz parte como advogado, apresentou uma explicação que beira o incompreensível. Segundo a manifestação, “o peticionário [Jair Messias Bolsonaro] jamais soube que a carta seria publicizada. Tampouco houve qualquer orientação, ajuste ou combinação prévia acerca da utilização de redes sociais para esse fim”. Bolsonaro teria escrito uma mensagem intitulada “Carta aos brasileiros”, mas, conforme a defesa, não era para sair em rede social — era apenas para entregar ao filho. A lógica dessa argumentação é paradoxal: uma “Carta aos brasileiros” que não era para chegar aos brasileiros. Flávio foi punido com a proibição de visitar o pai por 90 dias, enquanto a defesa praticamente admite que ele fez exatamente o que não era para ter feito. O absurdo da situação reside no fato de que a própria defesa de Bolsonaro — e não Alexandre de Moraes — está confirmando a violação das cautelares impostas. Essa contradição interna enfraquece significativamente a posição jurídica de Bolsonaro e expõe as fragilidades da estratégia de defesa adotada.
Direita em desvantagem política
Fica evidente, até este momento, que a Direita enfrenta dificuldades consideráveis em sua estratégia política. As contradições internas, as explicações implausíveis e a falta de coesão nas narrativas públicas sugerem que a oposição ao governo Lula está fragmentada e vulnerável. A pré-campanha de Flávio Bolsonaro, em particular, parece estar acumulando desgastes que dificilmente serão revertidos antes do pleito eleitoral.
Lulinha e o inquérito do INSS
A defesa de Fabio Luis Lula da Silva, filho do presidente e conhecido como “Lulinha”, acionou a Polícia Federal e tenta arquivar inquérito por “falta de justa causa” antes das eleições. A ação ocorre após a Polícia Federal concluir o primeiro inquérito do caso INSS, que indiciou 48 pessoas. A PF apura, em outro inquérito, se Lulinha foi sócio oculto do empresário Antônio Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”. Marco Aurélio Carvalho, advogado de Lulinha e um dos líderes do Grupo Prerrogativas, afirmou: “Esperamos, enfim, que a PF reúna toda a equipe necessária para investigar e encerrar esse assunto o quanto antes. No caso de Fabio, acho que vão arquivar em breve. Ele não tem relação direta ou indireta com absolutamente nenhum malfeito do INSS. Coloquei Fabio à disposição da PF e do STF para ser ouvido e não o chamaram”.
Cronograma de investigação e preocupações políticas
No início do mês, a defesa do filho do presidente solicitou uma reunião com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, para alegar falta de justa causa no inquérito e pedir o arquivamento do caso. O encontro ainda não ocorreu por falta de agenda, em razão de uma viagem internacional do diretor. A Polícia Federal indicou ao ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal, que só terá condições de compilar, cruzar e analisar dados de evidências dos sigilos de Lulinha e materiais apreendidos na Operação Sem Desconto no ano que vem. A prioridade foi dada às apurações de investigados que estão presos ou sob medidas restritivas. Como Lulinha responde ao processo em liberdade e sem restrições judiciais, ficará para o final da fila. Esse período, porém, causa preocupação ao grupo do presidente Lula. A percepção política entre os petistas é de que manter o inquérito em passos lentos é prejudicial para a campanha eleitoral, pois alimenta as dúvidas sobre o filho do presidente e dá munição à oposição. A situação ilustra a tensão entre a lógica processual e a lógica eleitoral, com potencial para impactar a dinâmica política nos meses que antecedem o pleito.
Bombando
Dois vídeos de adversário da Esquerda estão bombando nas redes socais.
O primeiro, do deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), relator da CPMI do INSS, usou suas redes sociais para mandar um recado ao presidente Lula. Veja:
O segundo, a “Voz da Esquerda” declara, anuncia, augura como ninguém. Da série: “Eu Prometo!”, o VT foi publicado por internauta que não simpatiza com o mandatário do país. Confira:
Férias
Deputados e senadores de férias a partir de hoje. Só voltam em agosto, na segunda-feira, 3/8.
Val-André Mutran é repórter especial para o Portal Ver-o-Fato e está sediado em Brasília.
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