O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), entrou, novamente, em rota de tensão com o Governo Lula e o bloco de oposição ao governo.
As ações recentes do senador amapaense, em sua segunda administração como presidente do Poder Legislativo, é o mais do mesmo.
A prioridade sou eu
Imprimindo um modo personalista de conduzir a política, Alcolumbre têm desenhado um cenário de crescente insatisfação e confronto com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de tempos em tempos, conforme as oportunidades do momento.
Medida Provisória do Redata
A caducidade da Medida Provisória (MP) que instituía o Redata, programa de incentivos fiscais para datacenters, ocasionou um alto preço ao país, em contraste com um claro recado de insatisfação que Davi Alcolumbre queria dar ao governo.
Recado ao governo
Essa ação foi uma resposta às ações da Polícia Federal nas investigações tanto do caso Master quanto de aplicação de recursos de emendas parlamentares. No Congresso, permeia a percepção de que o governo Lula “soltou a PF” em cima do Centrão, grupo político que inclui partidos como o União Brasil, sigla de Alcolumbre.
Nós contra eles
Tal movimento, segundo essa percepção, visa reforçar o discurso eleitoral do “nós contra eles” e a imagem de Lula no combate à corrupção, estratégia central para a reeleição em 2026.
Celular mudo
A tensão pré-caducidade da MP do Redata era evidente. O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, que atuava na pasta durante a viagem do ministro Fernando Haddad, não conseguiu contato com o presidente do Senado, mesmo após alertas da Câmara sobre a dificuldade na discussão da MP na Casa.
Alerta dado
Diante do impasse, às véspera da MP perder a validade, o presidente “Lula viajando da Silva”, foi aconselhado a telefonar diretamente para Alcolumbre, mas não se sabe se ele entrou pessoalmente no circuito, sublinhando o distanciamento existente com Alcolumbre. A MP havia sido aprovada na Câmara em um “esforço concentrado na madrugada de terça para quarta-feira” desta semana, mas a insatisfação de Alcolumbre já era conhecida. Diante da caducidade, o governo agora estuda alternativas, como a edição de um projeto de lei ou a inclusão do tema em outra MP, para restabelecer os incentivos aos datacenters. O setor está furioso com Alcolumbre. O eleitor do Amapá, e de resto, do Brasil, se soubesse disso, tem remédio eficaz para aplicar em outubro.
A decisão do presidente do Senado é devastadora: bilhões em investimentos dispensados, geração de zero emprego, demissões — e o pior: condenar o Brasil ao atraso num mundo dependente da revolução da Inteligência Artificial.
— Que pacote, hein!?
Resistência em instalar a CPMI do Banco Master
A resistência à instalação de Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) é notória. Alcolumbre tem sido uma figura central na resistência à instalação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar fraudes no Banco Master.
Evidências I
O presidente do Congresso tem evitado convocar sessões conjuntas para postergar a instalação da CPMI do Banco Master. Apesar de a oposição já ter reunido o mínimo de assinaturas necessárias, a formalização depende da leitura do requerimento em uma sessão conjunta do Congresso. Alcolumbre, estrategicamente, tem evitado reuniões com lideranças e a convocação de sessões que poderiam forçar a leitura.
Evidências II
A pressão sobre o senador é intensificada por sua ligação direta com o caso. Em 6 de dezembro de 2024, a Polícia Federal realizou uma operação contra a cúpula da Amapá Previdência (Amprev), investigando o investimento de R$ 400 milhões em letras financeiras do Banco Master em 2024. Entre os alvos, estava Jocildo Silva Lemos, presidente da Amprev, que foi indicado ao cargo por Alcolumbre. Esse investimento representaria 4,7% do patrimônio líquido da previdência estadual do Amapá, estado do senador.
Evidências III
Para manter o controle sobre a investigação ou esvaziá-la, Alcolumbre cogita a instalação de uma CPI exclusiva do Senado, o que lhe garantiria maior influência sobre a composição e os rumos dos trabalhos em comparação a uma comissão mista. Parlamentares acreditam que a instalação da CPMI ocorrerá apenas próximo ou após as eleições de 2026, considerando o cálculo político de danos em ano eleitoral. Alcolumbre já havia levado um drible anteriormente, quando a CPI do Crime Organizado aprovou requerimentos para incluir o caso Master, e é criticado por supostamente proteger o governo ao dificultar o avanço da CPMI do INSS. Nessa “missão”, ele faz um bate-bola com o colega, presidente da Câmara dos Deputados, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), que apresentou a desculpa esfarrapada que há outros requerimentos de pedido de instação de CPMI na frente da do Banco Master.
Impasse na sabatina de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal
Outra trincheira de Alcolumbre é a demora em agendar a sabatina de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF). Os motivos do atraso são multifacetados: houve uma “falta de formalização oficial”, com o governo demorando a enviar a mensagem presidencial formal ao Senado, mesmo após a publicação da indicação no Diário Oficial da União em novembro de 2025.
Preciosismo regimental
Quando um presidente de um Poder quer enrolar, é comum apelar para preciosismos regimentais. Davi Alcolumbre classificou essa omissão como uma “interferência grave” do Executivo na marcação da data —e, por isso, cancelou a sabatina.
Messias caça os votos
O indicado, Jorge Messias, aproveita e articula apoio, já que precisa de, no mínimo, 41 votos no plenário. A resistência política também é significativa, pois Alcolumbre e outros senadores preferiam a indicação do senador Rodrigo Pacheco para a vaga, o que gerou desgaste na relação entre os poderes. Atualmente, Messias tem se dedicado a reuniões com senadores de oposição e da bancada evangélica na tentativa de destravar sua aprovação.
A polêmica da redistribuição de cadeiras na Câmara
Davi Alcolumbre também protagoniza uma controvérsia em torno da redistribuição das cadeiras na Câmara dos Deputados. Ele solicitou ao STF que a “mudança no número de deputados federais (ampliação para 531 vagas) seja aplicada apenas a partir de 2030”, evitando alterações na composição política para as eleições de 2026.
Prejuízo ao Pará
Esta ação prejudica o Estado do Pará, que, se a legislação fosse cumprida, teria o direito de aumentar suas atuais 17 cadeiras de deputado federal para 21 vagas nas eleições gerais de 2026, com base nos dados do Censo 2022 do IBGE. A manobra de Alcolumbre e a decisão do ministro Luiz Fux, do STF, são criticadas por “aviltar” a legislação.
Conflito técnico e político
O conflito técnico e político reside na lei que estabelece a proporcionalidade do número de deputados à população de cada estado. Com o Censo 2022 revelando mudanças significativas – crescimento em estados como Santa Catarina, Mato Grosso e Pará, e estagnação ou encolhimento em outros, como Rio de Janeiro e Alagoas – a composição da Câmara deveria ser alterada para 2026. A decisão do STF determinou que o Congresso aprovasse uma lei para essa atualização, ou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) definiria os novos números. O próprio estado de Alcolumbre, o Amapá, corre o risco de perder representatividade ou de não ganhar novas vagas em um cenário de redistribuição rígida, o que alteraria seu equilíbrio de forças regional.
Adiamento selou a esperança dos paraenses
Alcolumbre defende o adiamento para 2030 por suposta estabilidade dos atuais mandatos e para evitar que estados percam verbas e influência política imediata, uma conversa fiada que prejudica, e muito, o Pará. Ele argumenta que mudanças agora gerariam um “caos federativo”, mas críticos apontam que a manobra visa proteger aliados que teriam dificuldade de se reeleger em estados que perderão cadeiras.
Nada de ampliações
A ampliação do número de vagas para 531 foi discutida como uma alternativa para evitar que qualquer estado perdesse deputados, mas isso geraria um custo bilionário aos cofres públicos. A resistência de Alcolumbre é vista como uma estratégia de preservação do poder regional e de blindagem de sua base aliada no Norte e Nordeste, regiões que tendem a perder espaço para o Sul e Centro-Oeste com a nova demografia.
A decisão na mão do eleitor
O conjunto de ações de Davi Alcolumbre, abrangendo desde a caducidade de medidas provisórias e o engessamento de investigações parlamentares até a influência em nomeações para o STF e na redistribuição de poder na Câmara, desenha um perfil de um líder político que exerce sua posição para defender interesses específicos e moldar o cenário político futuro.
Seus movimentos geram atritos significativos com o Executivo e demonstram uma capacidade de manobra que repercute diretamente nas relações entre os poderes, nas políticas públicas e, inegavelmente, nas projeções para o pleito de 2026.
A complexidade dos impasses sublinha a volatilidade do tabuleiro político nacional, com reflexos diretos na governabilidade e nas dinâmicas eleitorais vindouras.
Cabe ao eleitor endossar ou demitir seus representados, que trabalham para si e estão se lixando para a possibilidade de melhoria de vida da população brasileira.
Val-André Mutran é repórter especial para o Portal Ver-o-Fato e está sediado em Brasília.
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