Audiência na Câmara revela tensão entre necessidade de estabilidade do sistema e impacto financeiro, enquanto Brasil investe R$ 64,5 bilhões em leilões e expande modelo de custeio para todos os usuários
Brasília – O governo defendeu nesta semana a contratação de usinas termelétricas como estratégia essencial para garantir a segurança do suprimento elétrico e sustentar o crescimento econômico, durante audiência pública na Câmara dos Deputados conduzida pelo presidente da Comissão de Minas e Energia, deputado Joaquim Passarinho (PL-PA). O Leilão de Reserva de Capacidade (LRCap) de 2026, porém, gerou profundas divisões entre parlamentares, que questionaram os elevados custos associados às termelétricas e seu impacto nas contas de energia dos consumidores. Resumindo: prepare o bolso, brevemente, vem aumento da conta luz.
O governo argumenta que a contratação de 19 gigawatts (GW) de capacidade térmica é fundamental para manter a estabilidade do sistema elétrico brasileiro. Segundo o diretor de Planejamento do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Alexandre Zucarato, sem essa contratação a probabilidade de corte de energia aumentaria significativamente até 2030.
A justificativa técnica reside na necessidade de “reserva de capacidade” que permita compensar a variabilidade das fontes renováveis intermitentes, como energia eólica e solar, que cresceram exponencialmente nos últimos anos.
Desde as “pedaladas” de Dilma Rousseff que quase levaram o setor energético à falência, um modo maroto e sem transparência foi adotado pelo governo, embutindo tarifas na conta de luz que ninguém sabe decifrar. É justamente nessa patifaria governamental que os consumidores estão pagando a conta herdada da “presidenta” petista.
O Brasil consolidou sua posição como mercado lucrativo para energias renováveis, com parques eólicos mais que dobrando sua geração em cinco anos. Contudo, essa expansão das fontes intermitentes criou um desafio operacional que o governo busca resolver através das termelétricas.
A estratégia prevê que essas usinas funcionem como “colchão” de segurança, entrando em operação rapidamente quando houver queda na geração das fontes renováveis devido a variações climáticas.
Na audiência pública, Gustavo Ataíde (no telão): estratégia mantém a segurança do sistema elétrico
Evair Vieira de Melo: medida encarece a conta de luz e gera inflação
Thiago Prado: encargo será redistribuído entre todos os usuários do sistema
Zucarato: sem essa contratação, a probabilidade de corte de energia aumentaria até 2030. Fotos @ Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados
As críticas parlamentares, porém, concentraram-se no impacto financeiro dessa política. O deputado Evair Vieira de Melo (Republicanos-ES) argumentou que a medida encarece significativamente a conta de luz dos consumidores e contribui para a inflação.
A preocupação reflete uma tensão fundamental na política energética brasileira entre segurança de suprimento e custos para o consumidor final.
Um ponto técnico crucial debatido durante a audiência foi a redistribuição dos custos de operação do sistema. O presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Thiago Prado, esclareceu que o encargo será redistribuído entre todos os usuários do sistema elétrico, não apenas entre os consumidores cativos (residências e pequenos negócios).
Essa mudança representa uma alteração significativa no modelo de custeio, expandindo a responsabilidade financeira para grandes indústrias e autoprodutores de energia.
O governo também anunciou a realização de um leilão de armazenamento de energia em baterias para 2026, buscando diversificar as soluções de flexibilidade do sistema.
Essa iniciativa reflete o reconhecimento de que a transição energética requer não apenas fontes geradoras, mas também tecnologias de armazenamento que permitam maior controle sobre a intermitência das renováveis.
Os leilões de energia no Brasil, instituídos pela Lei 10.848/2004, completaram duas décadas como instrumentos centrais da política energética nacional.
Ao longo desse período, o modelo de leilões promoveu a expansão e diversificação da matriz elétrica, permitindo a incorporação de múltiplas fontes de geração.
O maior leilão de energia da história brasileira, realizado em março de 2026, movimentou R$ 64,5 bilhões em investimentos, superando o recorde anterior de 2009 com a hidrelétrica de Belo Monte (11 GW).
A audiência na Câmara evidencia que o debate sobre a segurança energética versus custos para o consumidor permanece central na agenda política brasileira.
Enquanto o governo sustenta que a contratação de termelétricas é imprescindível para evitar apagões, deputados questionam se existem alternativas menos onerosas para atingir o mesmo objetivo de estabilidade do sistema.
O resultado dessa discussão pode definir os rumos da política energética nacional nos próximos anos, impactando tanto a segurança de suprimento quanto as contas de energia de milhões de brasileiros.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.



















