Procurador-geral alega que ordem de Mendonça excedeu competência do magistrado e questiona validade do documento que expõe relação com Vorcaro
Brasília – A Procuradoria-Geral da República (PGR) pediu a nulidade do relatório da Polícia Federal que revelou conversas entre o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e o ministro do STF Alexandre de Moraes. O pedido, atribuído ao procurador-geral Paulo Gonet, foi divulgado há pouco, por volta da 19:30 desta terça-feira (1º de setembro de 2026), no mesmo dia em que o ministro André Mendonça, relator do caso Master, deu 72 horas para a PF produzir um levantamento sobre todas as menções a Gonet, Moraes e ao diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, no material apreendido na investigação.
O argumento central da PGR é processual. Segundo o entendimento manifestado, a ordem de Mendonça para que a PF identificasse o destinatário de mensagens de Vorcaro, sem pedido do Ministério Público ou da própria Polícia Federal, não seria válida por “exceder os limites de competência do magistrado”. O relatório teve o sigilo retirado pelo relator e reúne conversas e registros encontrados no telefone do banqueiro.
O episódio ocorre em meio a tensões no STF em torno do caso Master, uma das maiores investigações da PF nos últimos anos. O Banco Master foi liquidado em novembro de 2025, por suspeitas de fraudes bilionárias, momento em que Vorcaro foi preso pela primeira vez.
Após período em prisão domiciliar, voltou a ser detido preventivamente em março de 2026, por ordem de Mendonça. A prisão já havia gerado descompasso entre a cúpula da PGR e o relator, cuja relação com a direção da PF também acumula estranhamentos. O cenário é sensível porque, no entendimento de ministros do STF, é necessária autorização do plenário para investigar um integrante da própria Corte.
O relatório da PF
O documento descreve relação próxima entre Vorcaro e Moraes. Em uma conversa, o banqueiro teria falado com o ministro sobre a Operação Compliance Zero às vésperas de ser preso, quando ainda havia sigilo sobre as diligências. “Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra”, teria dito Vorcaro.
As mensagens também apontam para um contrato de R$ 131 milhões do escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, firmado com Vorcaro. Segundo a PF, Moraes teria editado o contrato. O contato teria sido intermediado pelo ex-deputado Fábio Faria, que teria dito que Moraes iria “montar um negócio bacana”. O relatório registra ainda que Vorcaro teria dado ingressos VIP para filhos de Moraes.
Há também registros de relação entre Vorcaro e Gonet. Um diálogo de março de 2025 revela um pedido para que o banqueiro bancasse viagem do filho do procurador-geral, Pedro Gonet, para Londres. O advogado Ciro Soares, ex-defensor do Master, chegou a enviar fotografia ao lado de Gonet e afirmou que o chefe da PGR queria falar com o banqueiro. A PF, contudo, não atribui conduta criminosa a Gonet no relatório.
Divergências institucionais
O pedido de nulidade se soma a divergências entre a PGR e o relator. Em mensagem de 30 de outubro de 2025, Vorcaro relatou que o Banco Central sofria pressão da PF e do Ministério Público. “É importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem que aí vai tudo pro saco”, escreveu. Para a PF, “Andrei” e “Paulo” seriam referências a Rodrigues e Gonet, e “G”, ao presidente do BC, Gabriel Galípolo.
Mendonça aguarda a posição da PGR antes de decidir se inclui Moraes na investigação. O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, enxerga nas ordens de Mendonça possível abuso de autoridade, classificando o pedido à PF como ilegal. A divergência central é saber se o relatório configura investigação nova sobre Moraes, o que definiria a necessidade de autorização do plenário.
Contrapontos
O conteúdo divulgado documenta os pedidos de Vorcaro, mas não comprova que Moraes, Gonet ou Andrei tenham adotado providências para beneficiá-lo. A verificação de conduta ilícita depende de apuração adicional. A defesa de Vorcaro já tratava o pedido de nulidade como “plano B” caso a delação fosse rejeitada. A primeira proposta de colaboração foi recusada pela PF em 20 de maio, e uma segunda não prosperou.
O pedido de nulidade insere-se em disputa institucional acirrada em torno do caso Master, envolvendo STF, PF e Ministério Público. O desfecho dependerá da manifestação da PGR e da decisão do relator sobre a inclusão de Moraes, além de possíveis deliberações do plenário. O caso permanece em atualização, e as informações divulgadas não são suficientes para estabelecer ilícito por parte das autoridades citadas.














