A falsidade das informações sobre o chamado “descobrimento” do Brasil, divulgadas até nas nossas escolas, surpreendeu os leitores de Ver-o-Fato, quando foi mostrada por este portal de notícias, no último mês de março.
Tais falsidades foram expostas nos estudos do historiador português Jorge Couto.
Os quais demonstraram que os chamados descobridores portugueses não chegaram ao Brasil, pela primeira vez, em 1.500.
Mas dois anos antes.
Não estavam sob o comando de Pedro Álvares Cabral.
Mas do grande navegador lusitano Duarte Pacheco Pereira.
E, o mais importante, para nós, amazônidas, não desembarcaram em Porto Seguro, na Bahia.
Mas na Ilha do Marajó.
A divulgação daqueles estudos por Ver-o-Fato, na verdade,deu sequência a um esforço de enfrentamento do desconhecimento do nosso passado, de amazônida, assim como de correção de falsidades sobre ele.
Um esforço que vem sendo mantido através de cursos, produção de livros e de matérias para veículos de comunicação jornalísticos.
Desde que a Faculdade de Engenharia Civil, da UFPa, criou um núcleo de memória dos construtores da Amazônia, nos anos de 1990.
Numa iniciativa surgida frente aos males que afetam a nossa cultura e a nossa educação provocados por mentiras sobre o passado da Amazônia.
Isto se torna claro, por exemplo, com a insistência com a qual a Amazônia é apresentada ao mundo somente como santuário ecológico.
Como se na região não vivessem milhões de seres humanos, há muitos séculos.
Numa distorção que gera talvez a mais grave consequência provocada pela aceitação de uma mentira sobre a região.
Pois a visão da Amazônia apenas como “a mais exuberante manifestação natural do planeta”, dispensa quem se arvora o direito de decidir sobre a região da obrigação de ouvir a sua população.
E,no entanto, na Amazônia vivem seres humanos há pelo menos dois mil anos.
Como demonstraram pesquisas realizadas já nos anos de 1800, pelo zoólogo suíço Emílio Goeldi.
A antiguidade milenar da presença humana na nossa região, recentemente, foi comprovada outra vez, por dois antropólogos Mariana Petry Cabral e João Darcy de Moura.
Eles pesquisam desde 2005o grupo humano que há mais de mil anos levantou uma impressionante estrutura composta de147 rochas, em Calçoene.
Trata-se de um pequeno município do Amapá, hoje com onze mil e quinhentos habitantes, surgido de antigo povoado, à margem do Rio Calçoene, durante o século XIX.
Naquele período, aquela região sofreu com uma intensa disputa com a França pela posse de seu território, provocada pela busca de ouro nela.
A374quilômetros dali,fica Macapá, onde,em1767,começou a construção da Fortaleza de São José de Macapá, uma das mais belas obras da engenharia-militar portuguesa no Brasil.
Parece certo que a estrutura de pedra se destinou a servir como observatório astronômico e como abrigo para festas e rituais.
Sua descoberta, como sítio arqueológico, comprovou a vigência de outro tipo de falsidade, a de antigas teorias – igualmente desrespeitosa com os amazônidas -, segundo a Revista Horizonte Geográfico, especializada em Meio Ambiente, Ciência e Cultura.
A revista se referiu à teoria segundo a qual, antes da chegada dos europeus, a Amazônia teria sido ocupada por grupos mais simples, pouco populosos e de pobre expressão cultural.
O que a estrutura de pedra mostrou ser insustentável.
De acordo com a revista, os construtores daquela estrutura de pedras pertenciam a uma das populações da Amazônia, cujas culturas surgiram por volta do século I e se extinguiram pouco depois do descobrimento do Brasil.
Essas culturas, disse ainda a publicação, nos anos de 1800, começaram a ser estudadas pelo arqueólogo Domingos Ferreira Penna, que descobriu um sítio arqueológico no Rio Maracá, a130quilômetros de Macapá, contendo urnas funerárias com formas humanas.
Nova prova da inconsistência daquela teoria.
Outra publicação, a Revista Planeta,qualificou a estrutura levantada em Calçoene como “um dos monumentos mais importantes da Arqueologia do País”.
A estrutura de pedras, escreveram jornalistas da revista, numa matéria publicada em setembro de 2010, se constitui numa descoberta que vem despertando o interesse de cientistas de todo o mundo.
Embora já desde1950 fosse conhecida pelos arqueólogos norte-americanos Betty Meggers e Clifford Evans.
Estes cientistas, no entanto, acrescentaram aqueles jornalistas, supunham que as chamadas sociedades complexas da Amazônia fossem oriundas dos Andes.
No entanto, as pesquisas atuais mostraram que a construção é algo nosso.
Segundo os jornalistas, embora sem possuir nenhum dos sofisticados instrumentos astronômicos atuais, o povo que há cerca de mil anos vivia na região de Calçoene estava muito à frente do seu tempo, em termos de conhecimentos de Astronomia.
Aquele povo, eles escreveram, estudava o céu sempre que surgisse a necessidade de se respeitar um ciclo temporal, provavelmente, para detectar a época certa para o plantio e a colheita, para festas comemorativas, etc.
Numa entrevista que conseguiram com Mariana Cabral, a antropóloga deu outras informações sobre a estrutura de pedra de Calçoene.
Ela afirmou que seus blocos de pedra foram talhados ali, mas provieram, em estado bruto,de outro lugar.
Situado a cinco quilômetros daquela área, onde foram encontradas cicatrizes em uma pedreira.
As quais geraram a certeza de ter sido aquele o lugar de onde foram retiradas a maioria das pedras da estrutura.
Escreveram os jornalistas:
“Devem ter sido necessários muitos dias e algumas centenas de homens para carregar as pedras até aquele lugar, entalhar a superfície dura, dar-lhe a forma correta, ajustar os encaixes e pôr cada pedra em seu lugar”.
Um empreendimento, eles concluíram, do qual, certamente, todo aquele grupo humano participou.
Mariana e João Darcy também forneceram informações sobre a estrutura de Calçoene ao responsável pelo blog Arqueologia Americana, o historiador Dalton Delfini Maziero.
Afirmaram que é novidade deste sítio arqueológico é a sua durabilidade, isto é, a construção de uma estrutura na qual a observação astronômica deixou de ser um momento efêmero.
Os antropólogos explicaram que, portanto, mesmo quando algum fenômeno não estava acontecendo, era possível olhar para este bloco de rocha e saber qual a inclinação do Sol durante o solstício de dezembro.
Para o historiador Dalton, os antropólogos disseram que classificam o conjunto completo da estrutura de pedra como “bastante impressionante”.
Disseram ainda que chamou a atenção deles o comprimento dos blocos e a sua pouca espessura, em comparação com suas larguras e comprimentos, o que se tornou indicativo de conhecimento de técnicas cuidadosas para a extração dos blocos dos afloramentos naturais.
Outros indícios fizeram os dois pesquisadores pensar na emergência de sociedades complexas na área, entre os quais, as descobertas de cerâmicas elaboradas, enterramentos humanos elaborados e sítios arqueológicos com mais de um quilômetro de extensão.
Dez anos depois destas entrevistas concedidas pelos dois antropólogos, a estrutura de pedra de Calçoene já tinha se tornada bastante conhecida por publicações especializadas.
Quando surgiu um apelido para aquela estrutura de pedra,em janeiro de 2020, no título de uma matéria da revista Aventuras na História:
“Stonehenge brasileiro: O místico sítio Calçoene, no Amapá”.
No texto assinado pelo jornalista André Nogueira veio a explicação daquele apelido:
“As suas óbvias semelhanças com a enigmática obra paleolítica da Inglaterra”.
Segundo André,o observatório astronômico indígena impressiona por possuir 127 monólitos naquele raio de 30 metros da Amazônia.
E, por nele, terem sido erguidas e talhadas, há mais de 2000 anos, pedras de mais de 4 metros.
Cuja disposição na área, faz com que as elas apontem para os principais astros do céu amazônico, no solstício de inverno do hemisfério norte, permitindo, assim, que a sombra do Sol, ao meio-dia, fique na posição exata do centro da sua estrutura.
*Oswaldo Coimbra é escritor e jornalista
English into translation (tradução para o inglês)
People have lived in the Amazon for millennia, and this cannot be ignored
The falsity of the information about the so-called “discovery” of Brazil — information that is still taught even in our schools — surprised Ver-o-Fato’s readers when it was revealed by this news portal last March.
Such falsehoods were exposed in studies by the Portuguese historian Jorge Couto.
These studies demonstrated that the so-called Portuguese discoverers did not arrive in Brazil for the first time in 1500.
But two years earlier.
They were not under the command of Pedro Álvares Cabral.
But of the great Portuguese navigator Duarte Pacheco Pereira.
And, most importantly for us Amazonians, they did not land in Porto Seguro, Bahia.
But on Marajó Island.
The publication of these studies by Ver-o-Fato, in fact, continues an effort to confront the lack of knowledge about our Amazonian past, as well as to correct falsehoods about it.
An effort that has been sustained through courses, the production of books, and journalistic materials.
Ever since the Civil Engineering School at UFPa created a memory center dedicated to the builders of the Amazon, in the 1990s.
A response to harm inflicted on our culture and our education by lies about the past of the Amazon.
This becomes clear, for example, in the insistence with which the Amazon is presented to the world solely as an ecological sanctuary.
As if millions of human beings had not lived here for centuries.
A distortion that generates perhaps the gravest consequence of accepting a lie about the region:
For those who assume the right to decide the future of the Amazon, viewing it only as “the most exuberant natural manifestation on the planet” exempts them from the obligation of listening to the people who live here.
And yet, human beings have lived in the Amazon for at least two thousand years.
As shown by research conducted as early as the 1800s by the Swiss zoologist Emílio Goeldi.
The millenary antiquity of human presence in our region was recently confirmed again by anthropologists Mariana Petry Cabral and João Darcy de Moura.
Since 2005, they have researched the human group that, more than a thousand years ago, erected an impressive structure composed of 147 stone blocks, in Calçoene.
Calçoene is a small municipality in Amapá, now with 11,500 inhabitants, born from an old settlement on the banks of the Calçoene River during the 19th century.
During that period, the region suffered intense territorial dispute with France, motivated by the search for gold.
Three hundred seventy-four kilometers away lies Macapá, where, in 1767, construction began on the Fortress of São José de Macapá, one of the most beautiful works of Portuguese military engineering in Brazil.
It seems certain that the stone structure served as an astronomical observatory and as a shelter for festivals and rituals.
Its identification as an archaeological site also disproved yet another falsehood — equally disrespectful to Amazonians — according to Horizonte Geográfico, a magazine specializing in Environment, Science, and Culture.
The magazine referred to the theory that, before European arrival, the Amazon had been occupied by simple, sparsely populated groups with poor cultural expression.
The stone structure proved this theory unsustainable.
According to the magazine, the builders belonged to one of the Amazonian cultures that emerged around the first century and disappeared shortly after the “discovery” of Brazil.
These cultures, the publication added, began to be studied in the 1800s by archaeologist Domingos Ferreira Penna, who discovered an archaeological site on the Maracá River, 130 km from Macapá, containing funerary urns shaped like human figures.
Another clear proof of the inconsistency of that theory.
Another publication, Revista Planeta, described the stone structure in Calçoene as “one of the most important archaeological monuments in Brazil.”
Journalists from the magazine, in a report published in September 2010, wrote that the structure has attracted interest from scientists around the world.
Although it had already been known since the 1950s by American archaeologists Betty Meggers and Clifford Evans.
However, those scientists, the reporters pointed out, assumed that complex Amazonian societies had originated in the Andes.
Current research, however, has shown that the construction is ours.
According to the journalists, despite having none of the sophisticated astronomical instruments we have today, the people who lived in Calçoene about a thousand years ago were far ahead of their time in terms of astronomical knowledge.
They studied the sky whenever it was necessary to respect a temporal cycle — probably to determine the right time for planting and harvesting, festivals, and other rituals.
In an interview with Mariana Cabral, the anthropologist provided further information about the stone structure.
She stated that the stones were carved on-site, but originated, in raw state, from another place.
Located five kilometers from the site, where quarry marks were found.
These marks confirmed that this was where most of the stones were extracted.
The journalists wrote:
“It must have taken many days and several hundred men to carry the stones to that location, carve the hard surface, give it the correct shape, adjust the joints, and set each stone in place.”
An undertaking in which, they concluded, the entire human group certainly participated.
Mariana and João Darcy also gave information to historian Dalton Delfini Maziero, author of the blog Arqueologia Americana.
They said that the uniqueness of this archaeological site lies in its durability — the construction of a structure where astronomical observation was no longer a fleeting moment.
The anthropologists explained that, even when a specific phenomenon was not occurring, one could look at the stone alignment and know the inclination of the Sun during the December solstice.
To the historian, the researchers said they consider the entire structure “quite impressive.”
They also noted that the length of the blocks and their thinness, compared to their width and length, indicate careful extraction techniques.
Other evidence led the researchers to consider the emergence of complex societies in the area, including elaborately crafted ceramics, elaborate human burials, and archaeological sites extending more than one kilometer.
Ten years after those interviews, the stone structure of Calçoene had become well-known in specialized publications.
In January 2020, the structure received a nickname in the title of an article in Aventuras na História magazine:
“The Brazilian Stonehenge: The mystical Calçoene site in Amapá.”
In the text, journalist André Nogueira explained the nickname:
“Because of its obvious similarities to the enigmatic Paleolithic monument in England.”
According to André, the Indigenous astronomical observatory is astonishing for having 127 monoliths arranged within a 30-meter radius in the Amazon.
And because, more than 2,000 years ago, stones over four meters tall were erected and carved there.
Their layout in the area causes them to point toward the main celestial bodies of the Amazonian sky during the winter solstice in the Northern Hemisphere, thus allowing the Sun’s shadow, at noon, to fall precisely at the center of the structure.
Oswaldo Coimbra is a writer and journalist
(Illustration: Main entrance to the municipality of Calçoene)















