Quando iniciamos uma aventura digital, nossos olhos reconhecem personagens, cores, símbolos e ambientes que nos orientam. Essas escolhas surgem de repertórios culturais específicos que o desenvolvedor seleciona para construir uma experiência coerente. Um jogo pode contar sua história por meio de um estilo artístico, uma paleta de cores, um personagem memorável ou até mesmo de elementos sagrados presentes em determinada cultura.
A produção de games ganha força no Brasil
O mercado brasileiro tem demonstrado que é possível criar experiências visuais autênticas sem depender exclusivamente de estúdios internacionais. Nos últimos anos, o número de estúdios nacionais cresceu significativamente, com profissionais desenvolvendo projetos que ganham reconhecimento global. Dados de 2025 da Abragames mostram que o Brasil conta com mais de mil estúdios em atividade, muitos deles localizados em polos regionais que passaram a ter presença internacional consolidada.
Um exemplo concreto é A Investigação Póstuma, produção do estúdio paulista Mother Gaia. O jogo coloca o jogador no papel de um detetive que precisa resolver o assassinato de Brás Cubas, personagem de Machado de Assis, em 24 horas. Se falhar, ele volta no tempo e recomeça o dia, acumulando pistas a cada tentativa. A trama se passa num Rio de Janeiro dos anos 1930, com atmosfera policial sombria e personagens de outras obras do autor, como Dom Casmurro e O Alienista.
Referências culturais também guiam jogos estrangeiros
Essa abordagem não se limita à produção nacional. A indústria global de games há tempos reconhece que símbolos e repertórios culturais específicos constroem identidades visuais fortes e memoráveis. Clair Obscur: Expedition 33, da francesa Sandfall Interactive, se passa numa versão fictícia da Paris do século XIX, período marcado por prosperidade cultural na Europa real. No jogo, uma entidade chamada Artífice apaga progressivamente a humanidade, e um grupo parte em missão para detê-la. A estética elegante e melancólica desse cenário histórico atravessa cada elemento visual da obra.
Os símbolos culturais também organizam experiências mais simples, como ocorre no jogo Fortune Rabbit, onde o coelho, inspirado no zodíaco chinês, funciona como personagem central e ícone reconhecível. Além disso, a paleta de cores vermelha e dourada, bem como elementos como envelope vermelho, moedas chinesas antigas e fogos de artifício, funcionam como referências visuais profundamente enraizadas na tradição chinesa. Cada componente contribui para a coerência visual e facilita a leitura imediata do universo por parte do jogador.
Símbolos e ambientações dão identidade aos jogos
Ao observar jogos criados em contextos distintos, fica claro que a identidade visual funciona como uma assinatura. Cada mínimo detalhe do jogo ajuda o público a identificar clima, época e intenção narrativa logo nos primeiros instantes. Em um mercado com produções variadas e circulação internacional, isso acaba se tornando parte importante da personalidade de cada obra.
Um jogo com identidade forte não precisa se apoiar em potência técnica ou novidade mecânica, o que ajuda projetos de diferentes escalas a se destacarem sem afetar seu alcance no mercado ou depender de uma grande distribuidora. Por isso, referências vindas da literatura, da história da arte ou de tradições populares seguem ocupando espaço relevante na criação de games, ampliando a forma pela qual cada experiência é interpretada pelo jogador.















