▪︎CPI ouviu o presidente do BC e discutiu impactos sobre vítimas, fundos de pensão e recuperação de ativos no exterior
▪︎ Ao ser provocado sobre eventual responsabilidade do ex-presidente do BC, Roberto Campos Neto, o depoente disse não haver, em processos de auditoria ou sindicância, qualquer elemento que apontasse sua culpa; Lula e o PT ficaram furiosos com a resposta
Brasília – A 18ª reunião da CPI do Crime Organizado, realizada na quarta-feira (8) no Senado Federal, concentrou-se na oitiva do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, em um contexto de discussão sobre lavagem de dinheiro, fragilidades de supervisão financeira e o caso Banco Master, apontado ao longo da sessão como exemplo de operação complexa com possíveis repercussões criminais e regulatórias. Ao firmar que não há auditoria nem sindicância interna que aponte a responsabilidade de Roberto Campos Neto no caso Banco Master, o economista virou alvo de ataques de petistas e governistas nas redes sociais, despertando a fúria do presidente Lula.
No início da reunião foi organizada em torno da relação entre o sistema financeiro, o combate ao crime organizado e a capacidade do Banco Central de identificar operações suspeitas em estruturas mais opacas, como fundos e cadeias societárias complexas.
Ao longo do depoimento, Galípolo descreveu o papel do Banco Central e afirmou que a instituição atua em cooperação com órgãos como o Ministério Público, a Polícia Federal e a CGU sempre que identifica indícios que possam exigir investigação.
Disse também que, diante da sofisticação das fraudes, o órgão tem enfrentado limitações para ampliar a granularidade da fiscalização apenas com força de trabalho humana.
Segundo ele, o sistema financeiro brasileiro opera em escala muito alta — citando mais de 8 trilhões de pagamentos por dia — e o crime organizado busca brechas em instituições terceirizadas, fintechs e estruturas que exigem supervisão mais sofisticada.
Um dos focos centrais da oitiva foi o caso Banco Master. Questionado pelo relator, senador Alessandro Vieira (MDB-SE)), Galípolo explicou que, na sua avaliação, o problema não estava apenas nos CDBs e no passivo da instituição, mas principalmente no ativo, especialmente em operações de crédito e na dificuldade de comprovar a existência de determinados ativos e garantias.
Segundo ele, o Banco Central enfrentou obstáculos para verificar a consistência de carteiras e balanços, razão pela qual passou a adotar medidas sucessivas de fiscalização.
O depoente afirmou que, ainda em 2024, foi firmado um instrumento “como se fosse um termo de ajuste de conduta”, além de terem sido realizadas auditorias externas e análises complementares por escritórios de advocacia especializados.
A cronologia apresentada durante a sessão indicou que, em fevereiro de 2025, a diretoria de fiscalização teria constituído grupo de trabalho específico para examinar a carteira e os ativos do Banco Master.
Em março, já sob a presidência de Galípolo, o Banco Central teria identificado dificuldade para localizar evidências suficientes da regularidade de parte das operações.
Entre março e abril, foi instaurado um processo sancionador por descumprimento de requisitos mínimos de compulsório, somando-se ao termo de comparecimento anteriormente firmado.
Galípolo também afirmou que, em setembro de 2025, uma auditoria interna levou à revisão de procedimentos e, em janeiro de 2026, dois servidores foram afastados no curso de sindicância aberta dentro da instituição.
Galípolo enterra narrativas sobre atuação de Roberto Campos Neto
Galípolo afirmou, de forma expressa, que “o Presidente Roberto pediu ao Diretor Paulo, em 2023, para que fosse feita uma análise na carteira, no balanço do banco; e também depois, ao final, em 2024, foi solicitado, junto à fiscalização, que esses três escritórios de advocacia fizessem esse tipo de análise”. Em outro momento, ao responder sobre a tramitação da autorização do banco, declarou: “Em fevereiro de 2019, perdão; fevereiro de 2019! Foi negado, essa primeira vez.” E completou: “Outubro de 2019.”
Ao ser relembrado pelo presidente da CPI, confirmou: “Do Presidente Roberto Campos.” Na sequência, disse que, “não há, em nenhum processo de auditoria ou de sindicância, nada que encontre qualquer culpa por parte do ex-Presidente Roberto Campos.”
A declaração causou reação nas redes sociais a cargo do “gabinete do ódio petista”. Os bombardeios foram liderados pelo deputado e ex-líder do partido na Câmara, Lindbergh Farias (PT-RJ), que apresentou narrativa para sustentar imaginária teoria da conspiração associando Campos Neto a Daniel Vorcaro.
Farias escreveu que Galípolo “tentou blindar” Campos Neto, e apontou falhas no controle interno do Banco Central. “Ao afirmar que não existe auditoria, sindicância ou conclusão interna que aponte responsabilidade do ex-presidente do Banco Central, ele demonstra que o controle interno é insuficiente e pode servir de escudo para proteger quem comandava a instituição quando decisões e omissões favoreceram o ambiente em que o caso Master prosperou”.
Segundo o petista, alertas de instituições como o Fundo Garantidor de Créditos e a Febraban teriam sido ignorados durante a gestão anterior, sem apresentar qualquer documento que prove a ilação.
Lindbergh também afirmou que, em outubro de 2023, normas editadas pelo Banco Central permitiram ao Master evitar ajustes no balanço, mesmo diante de riscos de liquidez.
O congressista declarou ter acionado a PF (Polícia Federal) para aprofundar investigações sobre suposta omissão de autoridades e decisões que teriam favorecido o banco.
A declaração de Galípolo teria gerado fúria no presidente Lula.
Outro ponto relevante do depoimento foi a menção ao ambiente institucional e às pressões sobre a autoridade monetária. Galípolo afirmou que recebeu orientação interna para ser “o mais técnico possível”, sem “pirotecnia”, e declarou que a postura do Banco Central seria a de não proteger nem perseguir ninguém, limitando-se ao trabalho técnico.
Ele também disse que, quando surgiam indícios, o procedimento era informar imediatamente os órgãos competentes, permitindo a continuidade da apuração por outras instâncias.
Na parte final da sessão, o senador Eduardo Girão (NOVO-CE) retomou questionamentos sobre a reunião de Galípolo com ministros do Supremo Tribunal Federal no contexto da chamada crise da Magnitsky, mencionando que houve encontros pessoais no gabinete de ministros e negando que tenha havido ligação telefônica com Alexandre de Moraes, informação que ele classificou como não correspondente ao que recordava.
Galípolo afirmou que as reuniões ocorreram no Supremo e não no Banco Central, e disse que seu contato com a esposa do ministro não ocorreu.
A CPI também discutiu os efeitos práticos das fraudes sobre vítimas e fundos de pensão, bem como a possibilidade de recuperação de ativos no exterior, inclusive aqueles eventualmente convertidos em criptomoedas ou alocados em paraísos fiscais.
O relator Alessandro Vieira observou que, em crimes financeiros desse tipo, costuma haver a impressão inicial de ausência de vítimas, mas que os prejuízos recaem sobre poupadores, fundos e, em última instância, sobre mecanismos de garantia do sistema financeiro.
Politicamente, a reunião expôs o esforço da comissão para ampliar o debate sobre lavagem de dinheiro, supervisão bancária e infiltração do crime organizado em estruturas formais da economia às vésperas de seu encerramento, na semana que vem, uma vez que o presidente Davi Alcolumbre (UB-AP), não autorizou o pedido de prorrogação por mais 60 dias dos trabalhos.
Naquela que pode ser a penúltima sessão do colegiado também ficou evidente a tensão em torno do prazo de funcionamento da CPI, mencionada por parlamentares como uma limitação concreta para aprofundar diligências e compartilhar informações.
No encerramento, o presidente da comissão agradeceu a presença de Galípolo e informou que a data da próxima reunião seria divulgada oportunamente.
Em síntese, a sessão de 8 de abril de 2026 consolidou o Banco Master como um dos casos centrais da CPI do Crime Organizado e reforçou o diagnóstico, apresentado pelo Banco Central, de que a fraude financeira contemporânea depende menos de operações visíveis e mais de estruturas opacas, ativos pouco líquidos, terceirizações e mecanismos sofisticados de ocultação.
A oitiva também deixou registrada a pressão política e institucional sobre os órgãos de controle diante da expansão das práticas de lavagem de dinheiro e da necessidade de respostas mais rápidas e integradas.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















