Espécie cobiçada por colecionadores na Ásia e Europa pode valer até 196 euros por unidade
Brasília – O aeroporto internacional Jomo Kenyatta, em Nairóbi, tornou-se o epicentro de uma modalidade inusitada e lucrativa de tráfico de vida selvagem: o contrabando de formigas-rainhas vivas. No início de 2026, autoridades quenianas interceptaram mais de 2,2 mil formigas-cortadeiras africanas escondidas na bagagem de um cidadão chinês, Zhang Kequn, que tentava embarcar para a China com os insetos acondicionados em tubos de ensaio. O caso, que culminou em condenação a um ano de prisão e multa de 1 milhão de xelins quenianos, expõe a expansão de um mercado negro alimentado pela febre mundial por formigas de estimação, no qual uma única rainha pode ser vendida por mais de US$ 200, enquanto no Quênia custa pouco mais de US$ 3.
A operação que resultou na prisão de Zhang Kequn ocorreu em março de 2026, durante uma inspeção de segurança no principal aeroporto da capital queniana. Segundo a BBC, os agentes encontraram uma grande quantidade de formigas vivas em sua bagagem, destinada à China.
A maioria dos insetos estava embalada em pequenos tubos de plástico tampados com algodão úmido, um método projetado para manter as formigas vivas por semanas até chegarem aos coletores no país asiático. Em 15 de abril, a juíza Irene Gichobi proferiu a sentença, classificando o réu como uma pessoa “não totalmente” consciente da gravidade do ato, mas determinando a pena de um ano de prisão e a multa equivalente a cerca de 5,7 mil libras esterlinas. O queniano Charles Mwangi, acusado de atuar em conjunto com o chinês, também foi levado a julgamento sob a acusação de negociar ilegalmente espécies de vida selvagem.
O caso de Zhang Kequn não é isolado, mas parte de uma tendência crescente documentada pelas autoridades e pela imprensa internacional. Em abril de 2025, dois adolescentes belgas foram levados a um tribunal queniano sob a acusação de transportar cerca de 5 mil formigas. Eles se declararam culpados, mas afirmaram que coletavam os insetos “por diversão”.
O Serviço de Vida Selvagem do Quênia (KWS) descreveu o episódio como “uma mudança nas tendências do tráfico — de grandes mamíferos icônicos para espécies menos conhecidas, porém ecologicamente críticas”. Em maio de 2025, um tribunal queniano condenou quatro homens a um ano de prisão ou ao pagamento de multa de US$ 7,7 mil por tentar contrabandear milhares de formigas-rainhas vivas. Já em 2023, três quenianos foram acusados de tentar exportar formigas avaliadas em mais de US$ 2,3 mil.
A criação de formigas tornou-se um passatempo popular durante a pandemia de covid-19, quando as pessoas buscavam atividades para realizar dentro de casa.
Os entusiastas mantêm colônias em formigueiros transparentes, miniaturas de “cidades de formigas”, onde observam os insetos cavando túneis e buscando alimento. As redes sociais transformaram o passatempo em fenômeno global: canais do YouTube, como o AntsCanada, que reúne mais de 7 milhões de inscritos, narram as histórias de colônias individuais como documentários sobre a natureza, desde rainhas fundando novos ninhos até batalhas com espécies rivais.
A criação de formigas é, em sua maior parte, perfeitamente legal, com comerciantes especializados criando os insetos e vendendo-os em lojas licenciadas. O problema, apontam especialistas, é que a demanda por formigas raras e exóticas superou a oferta legal.
As formigas-cortadeiras africanas são especialmente valorizadas por estarem entre as maiores espécies de formigas do mundo e exibirem comportamentos sociais complexos, o que as torna “as tigresas do mundo das formigas”, nas palavras de Dino Martins, entomologista e biólogo evolucionista radicado no Quênia. A reportagem do The Guardian, publicada em maio de 2026, reforça a dimensão do problema ao descrever como Nairóbi se tornou um “nexo” do mercado negro de formigas-cortadeiras gigantes, com espécimes contrabandeados em seringas e tubos especializados rumo à Ásia e à Europa. Cada formiga viva pode valer até 196 euros para colecionadores que mantêm formicários.
A dimensão ecológica do tráfico é o ponto mais alarmante para cientistas e ambientalistas. Os traficantes visam as rainhas porque cada colônia tem apenas uma fêmea reprodutora, que geralmente vive por 25 anos e pode gerar uma colônia com milhares de operárias. A remoção em grande escala desses insetos pode prejudicar gravemente os ecossistemas quenianos.
As formigas desempenham um papel crucial nas savanas da África Oriental: ao forragearem, coletam e dispersam sementes de gramíneas, ajudando a manter a diversidade das pastagens das quais depende grande parte da vida selvagem. Os vastos ninhos subterrâneos adicionam oxigênio ao solo e criam pontos de concentração ricos em nutrientes, onde as plantas crescem com mais facilidade. Além disso, muitos outros animais, como os pangolins, alimentam-se das próprias formigas, o que torna a espécie um elo essencial da cadeia alimentar local.
As autoridades quenianas têm se esforçado para conter o êxodo ilegal. O Serviço de Vida Selvagem do Quênia pressionou por penalidades mais severas e intensificou as inspeções nos aeroportos, com Nairóbi, Gilgil e Naivasha emergindo como pontos de trânsito estratégicos do comércio ilegal.
A revista Nature, em análise publicada em maio de 2026, descreveu o comércio ilegal de formigas gigantes africanas como “corrosivo”, observando que, por anos, a colheita de formigas recebeu pouca atenção das autoridades de vida selvagem, até o recente deslocamento do tráfico de grandes mamíferos, como elefantes e rinocerontes, para espécies menores e menos visíveis.
Ambientalistas, contudo, advertem que as apreensões recentes provavelmente representam apenas a ponta do iceberg, e que as interceptações só combatem o comércio ilegal depois que o dano já foi causado. Para Dino Martins, além de uma fiscalização mais rigorosa, as autoridades deveriam educar os coletores e as comunidades locais sobre a importância ecológica dos insetos, pois, a menos que a demanda diminua, os contrabandistas encontrarão novas maneiras de manter as formigas cruzando as fronteiras.
O caso de Zhang Kequn e a série de apreensões que o precederam revelam que o tráfico de vida selvagem encontrou nas formigas uma nova e lucrativa fronteira, deslocando o foco das autoridades de grandes mamíferos para espécies minúsculas, porém ecologicamente essenciais, e expondo a fragilidade de um sistema de fiscalização que, sem atacar a raiz da demanda global por insetos exóticos, limita-se a conter os sintomas de um comércio ilegal em plena expansão.














