Escolha de nome nordestino e ligado à CPMI do INSS marca mudança na estratégia que previa uma mulher na vaga
Brasília – O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, anunciou na manhã desta quarta-feira (5) a escolha do deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) para ocupar a vaga de vice-presidente em sua chapa, formada exclusivamente por integrantes do Partido Liberal, a chamada chapa “puro-sangue”.
O anúncio, feito em convenção partidária em Brasília, surpreendeu parte dos presentes, uma vez que o presidenciável vinha defendendo publicamente a indicação de uma mulher para o posto. A decisão ocorre a três dias do prazo final para registro das candidaturas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que se encerra em 15 de agosto.
A escolha de Gaspar, advogado, ex-Procurador-Geral do Alagoas, com fama de “Caçador de Bandidos” e deputado federal eleito por Alagoas, foi apresentada ao lado dos senadores Tereza Cristina (PP-MS) e Rogério Marinho (PL-RN), em um evento que reuniu lideranças partidárias e aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O novo companheiro de chapa tem 55 anos e construiu carreira na vida pública após atuar por 24 anos como promotor de Justiça no Ministério Público Estadual de Alagoas, tendo coordenado o Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) e ocupado por dois mandatos o cargo de procurador-geral de Justiça do estado, entre 2017 e 2018.
A trajetória de Alfredo Gaspar e o peso da CPMI do INSS
Nascido em Maceió e formado em Direito pelo Cesmac, Alfredo Gaspar de Mendonça Neto consolidou notoriedade regional ao comandar a Secretaria de Segurança Pública de Alagoas e, posteriormente, projetou-se nacionalmente ao atuar como relator da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investigou fraudes contra aposentados do INSS, atuando como um detetive especializado em desvendar teias de grande envergadura montadas pelo crime organizado.
Foi justamente essa atuação que o aproximou do núcleo bolsonarista e pavimentou sua entrada no PL, em março de 2026, a convite do próprio Flávio Bolsonaro.
No relatório final da CPMI, apresentado em março, Gaspar recomendou o indiciamento de mais de 200 pessoas, incluindo Fábio Luís Lula da Silva, o “Lulinha”, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para quem pediu prisão preventiva sob alegação de risco de fuga após o empresário deixar o país durante uma operação da Polícia Federal. Na terça-feira (4), Gaspar publicou nas suas contas em Redes Sociais que “Lulinha está atolado em corrupção”.
O parecer também sugeriu o indiciamento de ex-ministros dos governos Lula e Bolsonaro, do empresário Daniel Vorcaro, do “Careca do INSS” e do “Mão Preta do INSS”, este último foragido da justiça. O texto, porém, foi rejeitado pelo colegiado por 19 votos contrários e 12 favoráveis, e a comissão encerrou suas atividades sem aprovar um documento formal, numa manobra comandada pelo governo Lula.
A escolha de Gaspar para a vice-presidência, no entanto, não se limita ao simbolismo da CPMI. O presidenciável destacou, em seu discurso, a experiência do companheiro de chapa no combate ao crime e sua origem nordestina, em uma tentativa explícita de ampliar a base eleitoral do PL na região.
“É uma pessoa que eu aprendi a admirar, todos vocês aqui aprenderam a admirar pela coragem, honestidade, pela sua história a frente à segurança pública”, afirmou Flávio durante o anúncio.
A mudança de estratégia e o impasse com os partidos de centro-direita
A definição do nome de Gaspar representa uma inflexão na estratégia defendida por Flávio desde o início das articulações. O candidato afirmava publicamente que pretendia ter uma mulher como vice, tanto para ampliar a coligação quanto para reforçar a presença feminina na campanha. Entre os nomes cotados estavam a senadora Tereza Cristina (PP-MS), a deputada Simone Marquetto (PP-SP), a ex-secretária Daniella Marques (Republicanos-SP), a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), a deputada Renata Abreu (Podemos-SP) e a vereadora Priscila Costa (PL-CE).
A preferência, contudo, esbarrou na decisão dos partidos de centro-direita de não aderirem formalmente à candidatura do PL. Tereza Cristina, tratada como o nome preferido de Flávio, chegou a sinalizar disposição para aceitar o convite, mas o PP optou pela neutralidade na eleição presidencial, inviabilizando sua entrada na chapa. O Republicanos, que surgiu como principal alternativa para uma composição fora do partido, também adotou posição de independência, frustrando as negociações com Daniella Marques.
Sem conseguir atrair outra legenda, a direção do PL intensificou as discussões em torno de nomes do próprio partido. A deputada Júlia Zanatta (PL-SC) chegou a ser considerada, mas encontrou resistência no núcleo da campanha. Priscila Costa, aliada da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, também entrou nas discussões, sem ganhar força suficiente para a indicação. O impasse foi resolvido apenas na reta final, quando o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, revelou que Rogério Marinho e Flávio já haviam indicado o nome de Gaspar há seis meses.
A surpresa da convenção e o aceno a Michelle Bolsonaro
A escolha de Gaspar, contudo, não deixou de gerar um desdobramento político delicado. Um dia antes do anúncio, na terça-feira (4), o partido havia lançado o nome do deputado como candidato ao Senado por Alagoas em convenção partidária, o que reforçou o caráter surpreendente da decisão. Durante o evento desta quarta-feira, Flávio agradeceu às mulheres que foram cogitadas para a vaga e mencionou a própria esposa, Fernanda Bolsonaro, e a deputada Bia Kicis (PL-DF), que estavam ao seu lado no palanque.
O presidenciável também não deixou de citar Michelle Bolsonaro, com quem protagonizou um desentendimento público recente. Após o episódio, os dois acenaram mutuamente para um entendimento com o objetivo de “unir forças” durante o período eleitoral, sinalizando uma trégua que pode ser decisiva para a coesão da base bolsonarista na campanha.
O discurso de Gaspar e as implicações da chapa
Ao receber a indicação, Gaspar dirigiu-se às mulheres presentes no evento e justificou a escolha em tom de reconhecimento. “O Brasil estaria muito mais bem servido com as senhoras, mas quis Deus e o destino que esse momento trouxesse um soldado do Nordeste”, disse. Em seguida, em fala direcionada a Flávio, o novo vice prometeu enfrentamento à corrupção e ao crime organizado. “Terei a coragem de enfrentarmos, juntos, a corrupção, o crime organizado, essa economia em frangalhos por culpa do que Lula e a equipe tem feito deste país. Vamos sair do discurso para enfrentar as mazelas da nação. Sou seu soldado e estarei no para-choque na retaguarda”, afirmou.
A composição da chapa “puro-sangue” carrega implicações imediatas para a campanha. Ao renunciar à ampliação da coligação, o PL aposta na fidelidade de sua base e no apelo do discurso de combate à corrupção, personificado na figura de Gaspar. A escolha de um nome nordestino, por sua vez, busca responder a uma das principais fragilidades eleitorais do bolsonarismo na região, tradicionalmente dominada por adversários. A trajetória do deputado na Segurança Pública e na CPMI do INSS, ainda que o relatório tenha sido rejeitado, confere à chapa um capital simbólico que Flávio pretende explorar ao longo da disputa.
A definição do vice encerra, assim, um dos últimos capítulos de indefinição do cenário presidencial, a poucos dias do prazo para o registro das candidaturas. Resta agora observar como a chapa será recebida pelo eleitorado e como os partidos de centro-direita, que optaram pela neutralidade, se posicionarão diante de uma disputa que se avizinha polarizada.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















