Em tom autoritário, como se fosse o dono da Direita, o Zero Um de Bolsonaro usa leitura do documento para impor ultimato aos apoiadores hesitantes e consolidar estratégia antes da convenção de julho
Brasília – Num ato de desespero, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) utilizou uma carta manuscrita lida pelo filho Zero Um Flávio Bolsonaro em transmissão ao vivo para reafirmar o apoio à pré-candidatura do senador à Presidência da República em 2026 e cobrar unidade entre os aliados. O gesto ocorre em contexto de tensões internas no bolsonarismo, particularmente após divergências públicas com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, e marca uma tentativa de consolidar a candidatura antes da convenção nacional do PL, prevista para 25 de julho em São Paulo.
Em tom autoritário, como se fosse o dono da Direita, o senador usa a leitura do documento para impor ultimato aos apoiadores hesitantes e consolidar estratégia antes da convenção de julho. Se depender de calçar as “sandálias da humildade”, tal possibilidade é vista como fraqueza no meio próximo ao senador que não para de cair nas pesquisas de intenção de votos, que chegou a liderar num 2º Turno e empatar na primeira volta (1º Turno) com Lula em maio e junho.
Na carta, Jair Bolsonaro apresenta a candidatura de Flávio como resposta aos desafios que enfrenta o Brasil. “O momento é de arregaçar as mangas, deixar de lado as possíveis diferenças e cada um se empenhar pelo nosso pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro. A melhor opção para livrarmos o Brasil da corrupção, da violência e do empobrecimento”, escreveu o ex-mandatário.

O texto reforça a designação do filho como seu representante político direto, descrevendo-o como “meu porta-voz, no qual confio para resgatar o Brasil e nos conduzir para a paz e a prosperidade”.
A leitura da carta, realizada durante uma transmissão no YouTube, funciona como um ultimato aos aliados hesitantes. Flávio deixou explícito que a mensagem visa encerrar especulações sobre a liderança da campanha e barrar movimentações paralelas dentro do bolsonarismo.
“Fica-se muita especulação acontecendo, muitas pessoas que parecem que estão boicotando até a candidatura, esperando o momento certo para vestir a camisa do Bolsonaro e ir para a rua para resgatar o Brasil”, afirmou o senador. Ele complementou com um apelo direto aos apoiadores: “Chegou a hora agora de todo mundo cair dentro, todo mundo vestir a camisa”.
O momento da divulgação da carta revela-se estratégico. O gesto ocorre poucos dias após Flávio tentar reduzir o desgaste provocado pela crise pública com Michelle Bolsonaro. Na quinta-feira (9) anterior à leitura da carta, o senador afirmou estar “sempre aberto” a conversar com a ex-primeira-dama e expressou esperança de que ela voltasse a participar da campanha quando considerasse apropriado. A declaração surgiu após Michelle tornar públicas divergências com o filho, afirmando ter sido desrespeitada durante discussões sobre articulações políticas do partido.
O episódio de tensão familiar mobilizou o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, que defendeu uma reconciliação entre Flávio e Michelle antes da convenção. Segundo Costa Neto, o partido precisa chegar unido ao início da campanha presidencial.
A crise com a ex-primeira-dama, que planeja disputar uma vaga no Senado pelo Distrito Federal, representa um desafio significativo para a estratégia de Flávio, particularmente entre o eleitorado feminino. Em resposta, a campanha de Flávio passou a apostar na escolha de uma mulher como vice-candidata, buscando conter os danos causados pelas críticas de Michelle.
Além de reafirmar o apoio familiar, Flávio utilizou a transmissão para atacar o governo Lula e responsabilizá-lo pelas tarifas comerciais impostas por parceiros internacionais. O senador apelidou o PT de “partido das tarifas” e afirmou que o Brasil enfrenta um momento de decisão.
“Chegou a hora da gente encarar de frente o partido das tarifas, que é o Lula, que é o PT. E não tem jeito: ou a gente ganha, ou o Brasil acaba”, declarou.
Flávio também comentou sobre uma viagem que realizou aos Estados Unidos nesta semana, afirmando ter tentado reverter a sobretaxa de 25% anunciada pelo governo americano sobre produtos brasileiros.
Segundo o senador, embora a decisão seja política, o governo Lula teria contribuído para o cenário ao não conduzir adequadamente a política externa e comercial. “É uma culpa do Lula. Eu sei que a culpa é dele, mas ele não pode botar em quem ele quiser. A culpa é dele, ele que abrace esse problema. Eu fui lá tentar usar a força política para evitar que essa tarifa por parte do governo americano acontecesse”, afirmou, ressalvando que não sabia se teria êxito, mas que ficava “com a consciência tranquila sabendo que eu fiz a minha parte”.
Na sexta-feira (10), Flávio Bolsonaro prometeu “enterrar o PT de uma vez por todas” durante o lançamento da pré-candidatura de Alcides Fernandes ao Senado pelo PL cearense. O senador reafirmou postura radical em segurança pública e criticou a gestão petista no estado.
“O Ceará está entregue aos narcoterroristas”, afirmou, referindo-se ao governador Elmano Freitas (PT). Flávio defendeu a eleição de parlamentares alinhados a Bolsonaro e classificou o PT como “desgraça do país”, citando que prefeito, governador e presidente são filiados à sigla.
O senador atacou a política criminal de Lula, acusando-o de proteger facções criminosas. Contrastou sua posição (“pau em bandido”) com a do presidente (“passa a mão na cabeça de bandido”) e associou a soltura de presos em 2022 à eleição de Lula, sugerindo que criminosos votariam no PT.
A carta de Bolsonaro, por sua vez, reafirma o papel central do ex-presidente na campanha de Flávio, apesar de sua inelegibilidade e medidas protetivas e restrições de um condenado a 27 anos e meio de prisão por tentativa de golpe de Estado.
Bolsonaro permanece como principal cabo eleitoral do PL para a disputa de 2026, exercendo influência decisiva sobre a estratégia e as mensagens da candidatura do filho. A convenção de 25 de julho, a ser realizada no Mercado Pago Hall, na Arena Pacaembu, em São Paulo, marca o ponto de inflexão formal da campanha, com capacidade para até sete mil pessoas.
O contexto político em que a carta é divulgada reflete as complexidades internas do bolsonarismo. Enquanto Flávio busca consolidar apoios e apresentar-se como continuador do legado do pai, enfrenta resistências tanto de aliados que questionam sua viabilidade eleitoral quanto de membros da própria família, como Michelle, que divergem sobre as prioridades e as articulações políticas da candidatura.
A carta funciona, portanto, como instrumento de reafirmação de autoridade dentro do movimento bolsonarista, buscando impor uma narrativa unificada antes do lançamento oficial da candidatura.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















