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Home Saúde

Fertilidade após os 35: o que está em jogo ao adiar a gravidez?

Colaborador por Colaborador
04/03/2026
in Saúde
Fertilidade após os 35: o que está em jogo ao adiar a gravidez?
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Avanços da medicina reprodutiva ampliam possibilidades, mas idade segue como fator decisivo para chance de concepção, riscos na gestação e desigualdades sociais

Por Marília Marasciulo, da Agência Einstein

Nos últimos anos, vem crescendo a procura por estratégias de preservação da fertilidade e técnicas de reprodução assistida. Entre 2020 e 2024, foram congelados quase 545 mil embriões no Brasil, com aumento de 47,6% no período, segundo o SisEmbrio, sistema da Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) que monitora a produção de embriões no país. Apenas em 2024, 151,6 mil óvulos foram congelados, dos quais 57,1% eram de mulheres com 35 anos ou mais.

O movimento não passou despercebido pelo mercado. Impulsionado sobretudo pelo adiamento da maternidade e da paternidade, o setor global de serviços de fertilidade foi estimado em US$ 42,2 bilhões em 2023, segundo a consultoria Grand View Research, com projeção de ultrapassar US$ 70 bilhões até o início da próxima década.

Mas o que pode parecer promessa e oportunidade para muitas pessoas, também evidencia desigualdades e as complexidades envolvidas na decisão de ter filhos. “Nem todas as pessoas conseguem se beneficiar das alternativas divulgadas, o que torna a fertilidade tardia uma escolha viável apenas para alguns grupos”, observa a ginecologista e obstetra Ana Paula Avritscher Beck, do Einstein Hospital Israelita. Questões como instabilidade financeira e mercado de trabalho se misturam à pressão implacável do “relógio biológico”, que soa aos 35 anos, principalmente para o sexo feminino. Mas será que esse é o limite?

Chance de engravidar

Mulheres nascem com um número finito de óvulos, que diminui de forma progressiva desde o nascimento. Trata-se de um processo contínuo e variável, que tende a se acelerar ao longo da terceira década de vida e se torna mais evidente após os 35 anos. Essa idade se tornou referência clínica, mas não representa um limite biológico absoluto.

Segundo o Colégio Americano de Obstetra e Ginecologista, dos Estados Unidos, a probabilidade de engravidar em um único ciclo menstrual é de cerca de 25% a 30% para casais saudáveis ​​na faixa dos 20 ou 30 anos. Aos 40, essa probabilidade cai para menos de 10%. “Além da idade, fatores comoendometriose, miomas, doenças autoimunes, tabagismo, obesidade, exposição a toxinas ambientais e histórico de tratamentos oncológicos podem acelerar a perda da reserva ovariana ou prejudicar a fertilidade masculina e feminina”, explica Beck.

Sim, homens também são parte dessa história. “Neles, a idade avançada pode se associar a piora dos parâmetros seminais, maior fragmentação do DNA espermático, maior tempo até a gestação e possíveis efeitos na saúde do bebê. Mas esses impactos variam bastante entre os indivíduos”, diz Rivia Mara Lamaita, presidente da Comissão Nacional Especializada em Reprodução Assistida da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

Um estudo publicado na Nature em outubro de 2025 mostrou que o envelhecimento paterno está associado a um aumento progressivo de mutações genéticas nos espermatozoides. Ao analisar amostras de sêmen de homens entre 24 e 75 anos, os pesquisadores identificaram um acúmulo de mutações ao longo do tempo e um aumento de duas a três vezes no risco de alterações conhecidas por causar doenças. Em homens de meia-idade e idosos, entre 3% e 5% dos espermatozoides já carregam mutações potencialmente patogênicas.

Riscos na gestação

Do ponto de vista clínico, o avanço da idade reprodutiva está associado não apenas a uma menor chance de concepção, mas também a piores desfechos gestacionais. A partir dos 35 anos, aumenta a incidência de alterações cromossômicas nos embriões, o que se traduz em maior risco de abortamento espontâneo, redução das taxas de nascidos vivos e menor probabilidade de evolução da gestação até o parto, tanto em gestações naturais quanto naquelas obtidas por técnicas de reprodução assistida.

Avanços recentes têm ajudado a explicar a mecânica desse “relógio biológico”. Um estudo experimental publicado em novembro na Nature Aging mostrou que o aumento abrupto do risco de alterações cromossômicas nos óvulos está ligado a um ponto crítico de perda das proteínas responsáveis por manter os cromossomos corretamente unidos durante a divisão celular. Realizada em camundongos, a pesquisa desenvolveu um método para acompanhar em tempo real a degradação dessas proteínas. Os cientistas observaram que, embora a perda de coesão aconteça de forma gradual ao longo da vida reprodutiva, os erros genéticos só aumentam de maneira acentuada quando os níveis dessas proteínas caem abaixo de um limiar específico, tornando o óvulo especialmente vulnerável.

Além disso, o avanço da idade está associado a maior frequência de complicações obstétricas, como diabetes gestacional, pré-eclâmpsia e partos prematuros. Isso não inviabiliza a gestação, mas exige acompanhamento pré-natal mais rigoroso e torna o cuidado obstétrico mais complexo. “Muitas pessoas superestimam as chances de gravidez natural ou por técnicas de reprodução assistida nessa faixa etária, e desconhecem a limitação real dessas tecnologias para compensar o declínio natural da fertilidade”, aponta a médica do Einstein.

Não há garantias

Apesar do crescimento da procura por congelamento de óvulos e fertilização in vitro (FIV), essas técnicas não são garantias de ter filhos no futuro. O sucesso da preservação da fertilidade depende, entre outras coisas, da idade no momento do congelamento e do número de óvulos congelados, dois fatores que costumam ser subestimados no debate público.

A preservação da fertilidade tem indicação clínica em situações médicas específicas, como antes de tratamentos potencialmente gonadotóxicos — por exemplo, a quimioterapia — ou em condições que ameaçam precocemente a função ovariana ou testicular. Também há respaldo para o uso de técnicas como a FIV em casos de infertilidade estabelecida, quando fatores tubários, ovulatórios, endometriose, alterações seminais ou outras condições tornam insuficientes as abordagens menos complexas.

Diretrizes da Febrasgo alertam para a banalização dessas técnicas e para o uso inadequado de exames de reserva ovariana como preditores da fertilidade futura em mulheres assintomáticas, como a dosagem do hormônio antimulleriano. “Esses marcadores não devem ser usados para aconselhamento reprodutivo de mulheres sem indicação de técnicas de reprodução assistida, pois não predizem fertilidade natural”, observa Lamaita.

O incentivo ao congelamento de óvulos na população pode gerar falsas expectativas e deslocar para o indivíduo a responsabilidade de lidar com constrangimentos sociais, econômicos e profissionais que influenciam o adiamento da maternidade. “É nosso papel promover critérios mínimos de indicação, aconselhamento e consentimento informado, com transparência sobre as taxas e as limitações”, resume a especialista da Febrasgo.

Entre as limitações para obter os benefícios dessas tecnologias no Brasil estão a desigualdade social e a falta de cobertura pelo sistema público e por planos de saúde. “Isso restringe o uso de técnicas de preservação da fertilidade a uma minoria, perpetuando desigualdades e limitando escolhas reprodutivas”, observa Ana Paula Beck.

Essa assimetria aparece em dados: de acordo com o SisEmbrio, em 2024, o país contava com 196 centros de reprodução humana assistida registrados, dos quais 65 estavam concentrados no estado de São Paulo, seguido por Minas Gerais (24), Paraná (17), Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul (15 cada) e Santa Catarina (11). Os demais reuniram, juntos, apenas 49 unidades.

E esse não é um problema apenas brasileiro. “A própria Organização Mundial da Saúde enquadra infertilidade como tema de equidade, destacando o peso do pagamento direto e o risco de ‘catástrofe financeira’ em muitos países, além da necessidade de integrar cuidado em estratégias nacionais”, aponta Rivia Lamaita.

Fecundidade em queda

A desigualdade de acesso às técnicas de reprodução assistida se insere em um contexto demográfico marcado ainda pela queda sustentada da fecundidade no país. Segundo o Censo de 2022, o Brasil atingiu uma Taxa de Fecundidade Total de 1,55 filho por mulher — a menor já registrada e abaixo do nível de reposição populacional.

Esse movimento vem de uma tendência de queda desde os anos 2000, quando a taxa era de 2,32. “Com a urbanização, a abertura do mercado de trabalho e a educação, naturalmente nós, mulheres, tendemos a ir para a escola, a trabalhar e depois ter filhos”, analisa a demógrafa Laura Wong, professora titular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Mas esse fenômeno não deve ser interpretado como um aumento expressivo da fecundidade tardia. Na verdade, o principal movimento demográfico das últimas décadas foi a queda acentuada da fecundidade entre adolescentes e mulheres jovens, especialmente entre 20 e 24 anos. “O adiamento da maternidade e da paternidade é um fenômeno que veio naturalmente. Não porque as mulheres têm os filhos em idades mais avançadas, mas porque, na verdade, a fecundidade das jovens [no passado] estava muito alta”, destaca Wong.

Nesse contexto, a expansão da reprodução assistida teria impacto limitado sobre o quadro demográfico geral. Wong estima, de forma preliminar, entre 60 mil e 70 mil nascimentos derivados dessas técnicas por ano no Brasil, frente a um universo de cerca de 2,9 milhões de nascimentos totais. “O impacto disso para aumentar o número de filhos que as mulheres têm é insignificante. Não sei se, a longo prazo, isso chegaria a ter algum resultado”, avalia.

Da mesma forma, políticas de incentivos financeiros ou discursos que estimulam o aumento da fecundidade deixam de enfrentar os fatores sociais e econômicos que moldam as escolhas reprodutivas. “Do ponto de vista demográfico, o foco não deveria ser induzir decisões privadas, mas compreender como mudanças no trabalho, na proteção social e na organização da vida afetam o comportamento reprodutivo da população”, propõe a docente da UFMG. “A resposta para o problema está na compreensão dessas diversas situações, e não em impor que é preciso aumentar o número de nascimentos. Isso é um direito reprodutivo, e é o indivíduo que deve decidir sobre suas próprias metas de vida e se vai ou não ter filhos.”

Fonte: Agência Einstein

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