Com rejeição de apenas 18,5%, escritor do Avante atrai eleitores cansados da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro
Brasília – O psiquiatra e escritor Augusto Cury, candidato do Avante à Presidência da República, quase dobrou sua presença no Índice de Popularidade Digital (IPD) medido pela Quaest entre 10 e 26 de agosto, em um movimento que o transformou no presidenciável de maior crescimento nas redes sociais e que já começa a se refletir nas pesquisas de intenção de voto, com o estreante alcançando a terceira posição em levantamentos divulgados nesta segunda-feira (31). No mesmo período, enquanto Cury subia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) caíram no indicador, Renan Santos (Missão) estacionou e o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), diz o levantamento do instituto.
O fenômeno digital do candidato de 67 anos, formado em medicina pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto e um dos autores mais vendidos do país, chamou a atenção das campanhas adversárias.
O salto de 8,3 milhões para mais de 10,5 milhões de seguidores nas redes sociais em menos de uma semana levou as equipes de Flávio, Renan e do ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), a levantar, em conversas privadas, a possibilidade de robôs estarem inflando a popularidade do escritor.
A suspeita, porém, encontra uma barreira metodológica no IPD, que mede influência, relevância e reputação de políticos no ambiente da internet e afirma ter meios de identificar e excluir perfis automatizados do cálculo.
O histórico do indicador dá peso ao avanço de Cury. Em 2018, o IPD detectou antecipadamente a força de dois candidatos desacreditados, Jair Bolsonaro e Wilson Witzel, e em 2024 o mesmo ocorreu com Pablo Marçal na disputa pela prefeitura de São Paulo.
A semelhança entre Marçal e Cury é apontada por analistas, pois ambos foram tratados como figuras grotescas ou sem viabilidade, mas cresceram apesar do descrédito. No caso do escritor, o tratamento desdenhoso vem tanto de políticos quanto de analistas, que o enxergam como um autor de autoajuda sem programa de governo factível, sem grupo político e sem apoiadores de peso ao lado.
Os números da consultoria Bites reforçam a dimensão do movimento. Cury foi o candidato que mais adicionou seguidores em seus perfis oficiais nas redes sociais, com 2,6 milhões de novos seguidores e crescimento de 18% na base, além de ter sido o segundo em volume de interações, com 6,7 milhões, atrás apenas de Flávio Bolsonaro, que somou 6,9 milhões.
Na semana passada, o escritor também foi o segundo nome mais buscado do país entre os presidenciáveis, ficando atrás somente de Lula. Levantamento da Vox Radar, apontou que a conta de Cury no Instagram cresceu 19,4% após o primeiro debate entre os presidenciáveis, passando de cerca de 8,3 milhões para 9,9 milhões de seguidores, enquanto as buscas pelo nome dele no Google avançaram 900% na semana seguinte ao encontro.
O debate da Band
O ponto de inflexão da campanha foi o debate promovido pela Band no domingo, 23 de agosto. Cury chegou a ameaçar desistir do encontro na porta da emissora, em um protesto contra as ausências de Lula e Flávio Bolsonaro, que lideram as pesquisas e não compareceram.
“Não vou participar do debate. Não concordo com Lula da Silva e com Flávio Bolsonaro. Estou protestando. Os principais atores que deveriam participar não estão aqui. Isso não é debate. É teatro”, declarou o candidato, que chegou a entrar no carro para ir embora.
Minutos depois, voltou atrás e confirmou participação, após conversar com Fernando Mitre, ex-diretor de jornalismo da Band, dizendo que entraria no prédio “em respeito” ao jornalista, a 15 minutos do início do programa.
O episódio foi transmitido ao vivo em seu Instagram e rendeu a Cury a liderança nas buscas do Google durante o programa, segundo levantamento da Sala Digital, parceria entre a Band e a plataforma.
O candidato afirmou estar “magoado com a polarização” e disse que o Brasil não vive uma democracia, em um discurso que ecoou entre eleitores cansados da disputa entre PT e PL. Pablo Marçal (PRTB), inelegível e proibido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de participar de debates, acompanhou a transmissão e elogiou o gesto do concorrente, afirmando que “o Cury para mim significa cura” e que “a gente só quer tirar o PT desse negócio”.
A ausência de Lula foi justificada pela campanha petista como uma alegada desigualdade de condições, uma vez que a emissora convidou candidatos que não são obrigados por lei a participar, enquanto Flávio seguiu a estratégia de só marcar presença em debates com o presidente. Zema também anunciou desistência naquele dia.
Das redes às urnas
A pergunta que atravessa a semana é se o burburinho digital se converterá em voto. As pesquisas de intenção de voto começam a dar sinais positivos para Cury. No levantamento AtlasIntel/Bloomberg divulgado nesta segunda-feira (31), o candidato saltou de 1,6% para 7,8% no primeiro turno, assumindo numericamente a terceira colocação, atrás de Lula, com 43,4%, e Flávio, com 33,7%, e à frente de Renan Santos, com 7,6%, e Caiado, com 3,3%.
Na pesquisa Nexus/BTG, também de segunda-feira, Cury chegou a 11%, tornando-se o primeiro nome da chamada terceira via a alcançar dois dígitos, com avanço de nove pontos percentuais em relação à rodada anterior, quando tinha 2%, e ultrapassando Caiado, que registra 5%. O dado mais expressivo, porém, é a rejeição de apenas 18,5% do escritor, ante 52,7% de Flávio e 52% de Lula, o que lhe confere amplo espaço de crescimento entre os eleitores.
Antes dessa disparada, Cury oscilava entre 2% e 4% nas pesquisas, conforme registros do PoderData, do BTG/Nexus e do Datafolha divulgados entre 21 e 27 de agosto. O Datafolha da sexta-feira, 21, mostrou Lula com 47% e Flávio com 43% em cenário de segundo turno, enquanto a Quaest de 14 de agosto apontava empate técnico, com 43% e 40%, respectivamente.
A nova rodada da Quaest, prevista para 2 de setembro, será a primeira a incluir Cury em cenários de segundo turno, o que deve dimensionar o impacto real do fenômeno digital sobre a disputa. A escalada coincide com o início da campanha eleitoral, com a participação no debate da Band e com uma série de sabatinas, incluindo a da Rede Globo, no sábado, 29, e a de O Globo, CBN e Valor, na sexta-feira, 28, na qual o candidato encerrou a série de entrevistas com os presidenciáveis.
Perfil e plataforma
Estreante na vida política, Cury se apresenta como uma alternativa ao centro da polarização, com “mente de direita e coração social”, e diz concorrer por inconformismo com a radicalização.
Seu plano de governo, dividido em 18 projetos em um arquivo de 200 páginas, prioriza saúde mental, inteligência emocional e revolução educacional, com propostas como educação em tempo integral, educação emocional nas escolas e ensino médio com formação técnica e empreendedorismo, além da criação de um Ministério do Empreendedorismo, com 10 mil clubes de empreendedorismo, e de um fundo internacional de erradicação da fome.
O candidato também defende o semipresidencialismo, a taxação de big techs e políticas de enfrentamento ao feminicídio, em uma plataforma que busca capturar o eleitorado descontente com os dois polos que dominam a corrida.
O contexto eleitoral favorece a leitura do fenômeno. A queda de Flávio no IPD e nas pesquisas ocorre em meio aos desdobramentos do caso Master, envolvendo mensagens entre o senador e o empresário Daniel Vorcaro, que levaram o TSE a suspender propaganda de Lula sobre o “currículo” do adversário que citava o caso e a rachadinha.
Nesse cenário, o espaço aberto no eleitorado antipolarização tem sido disputado por Cury, Renan Santos, Caiado e Zema, mas é o escritor do Avante quem tem convertido o engajamento digital em intenção de voto com mais velocidade, ainda que os números ainda estejam distantes dos líderes.
A ressalva que atravessa as análises é que nem sempre o barulho nas redes sociais se transforma em voto, e a história recente mostra que fenômenos digitais podem tanto antecipar forças reais, como ocorreu com Bolsonaro em 2018 e Marçal em 2024, quanto se esvaziar diante das urnas.
O que as pesquisas da semana, com a Quaest na quarta-feira e o Datafolha na quinta-feira, e a nova rodada de setembro responderão é se o crescimento exponencial de Augusto Cury representa apenas um pico de visibilidade ou o início de uma candidatura capaz de furar a polarização que domina a eleição presidencial de 2026, transformando o escritor de autoajuda, até então desacreditado pelos políticos e analistas, em um fator real de desequilíbrio na disputa pelo Planalto.














