O que começou como uma disputa empresarial entre sócios da Mejer Agroflorestal Ltda., companhia ligada ao setor de óleo de palma no Pará, localizada no município de Bonito – nordeste do estado -, transformou-se em uma complexa batalha judicial com suspeitas de fraude societária, irregularidades fiscais e possível manipulação de estruturas contábeis. O caso, que corre parcialmente sob sigilo, envolve membros da família Kabacznik e já mobiliza decisões judiciais, investigações criminais e uma série de processos paralelos que expõem uma guerra aberta pelo controle da empresa. Em jogo, um patrimônio superior a R$ 200 milhões.
No centro do conflito estão os irmãos Abraham Kabacznik e Jacob Kabacznik, que detêm participação relevante na sociedade e contestam atos praticados por outros integrantes da família. Segundo os autos judiciais, a empresa sempre funcionou sob um regime de administração conjunta, no qual nenhum sócio poderia praticar atos de gestão isoladamente. Essa regra estava expressamente prevista em alterações contratuais registradas desde 2009.
O jogo é pesado. Os sócios teriam descoberto a existência de uma procuração pública lavrada em 2013, pela qual a sócia Rayana Kabacznik Bemerguy teria concedido poderes amplos de administração ao empresário Mauricio Bemerguy Mello, sem a participação dos demais sócios — o que, segundo a acusação, violaria frontalmente o contrato social da empresa.
A Justiça considerou plausível a tese apresentada. Em decisão proferida na comarca de Bonito, a juíza Cynthia Beatriz Zanlochi Vieira suspendeu imediatamente os efeitos da procuração e proibiu Mauricio Bemerguy Mello de praticar qualquer ato de gestão ou representação em nome da empresa. A magistrada destacou que o instrumento aparentemente foi concedido em desacordo com o modelo de administração conjunta previsto no contrato social, o que pode tornar o ato juridicamente nulo.
Além disso, a juíza apontou risco de prejuízo financeiro e comercial à empresa caso a atuação do procurador continuasse, ressaltando que já existiam outros processos judiciais decorrentes do mesmo conflito societário.
Disputa pelo controle financeiro da empresa
A batalha entre os sócios também se estendeu ao controle das contas bancárias da empresa. Em outro processo, analisado pelo Tribunal de Justiça do Pará, discutiu-se quem deveria ter acesso aos chamados tokens bancários, dispositivos digitais que autorizam movimentações financeiras.
O conflito chegou à segunda instância após uma decisão de primeiro grau restabelecer o regime de administração conjunta nas contas da empresa. Os sócios que controlavam os acessos anteriormente recorreram, alegando que a medida havia provocado um bloqueio operacional capaz de paralisar as atividades empresariais.
Ao analisar o recurso, a desembargadora Anete Marques Penna de Carvalho, do Tribunal de Justiça do Pará, reconheceu que o impasse poderia causar danos graves à continuidade da empresa. Em decisão liminar, determinou o restabelecimento provisório do modelo de movimentação financeira que vinha sendo utilizado antes do conflito, até que o mérito do processo seja julgado.
A magistrada ressaltou que o risco de paralisação da empresa — incluindo ameaças de interrupção de serviços essenciais, como energia elétrica — justificava a intervenção judicial cautelar.
Exclusão de sócios agrava a crise
No auge da disputa, uma reunião extraordinária de sócios realizada em fevereiro de 2026 decidiu pela exclusão de Abraham e Jacob Kabacznik da sociedade, com base no artigo 1.085 do Código Civil, que permite a retirada de sócio por justa causa.
Os demais integrantes da família — André, Marcos, Rayana e Renata Kabacznik — acusaram os dois irmãos de praticar atos que colocariam em risco a sobrevivência da empresa. Entre as acusações estariam retenção de autorizações bancárias e bloqueio de pagamentos essenciais; paralisação deliberada de obrigações trabalhistas; tentativa de forçar uma cisão societária; criação de uma estrutura empresarial paralela no setor de refino de óleo de palma; sabotagem de sistemas de gestão e faturamento da empresa.
Segundo os sócios que promoveram a exclusão, essas condutas teriam provocado um cenário de paralisia administrativa e risco de colapso operacional.
A defesa de Abraham e Jacob contestou duramente as acusações. Os advogados afirmaram que as medidas tomadas pelos clientes seriam apenas exercício legítimo do direito de fiscalização dos negócios da empresa e que a exclusão extrajudicial não poderia ocorrer porque não existe previsão expressa no contrato social para esse tipo de procedimento.
Por esse motivo, os irmãos já sinalizaram que pretendem buscar na Justiça a anulação da decisão.
Suspeitas de fraude societária e fiscal
Paralelamente à disputa interna, surgiram indícios de irregularidades mais amplas que passaram a ser investigadas sob sigilo na esfera criminal.
Entre os fatos apurados estão a tentativa de alteração societária irregular utilizando certificado digital de um dos sócios no sistema da Receita Federal; movimentações fiscais suspeitas envolvendo emissão e cancelamento em larga escala de notas fiscais; registros contábeis considerados inconsistentes em operações de comercialização de óleo de palma; possível uso indevido de procurações e estruturas contábeis.
As investigações também analisam operações envolvendo a empresa NRK, ligada ao mesmo grupo empresarial. Entre os nomes citados nas apurações aparece o de Ailton Ramos, presidente do Conselho Regional de Contabilidade do Pará (CRC-PA), por meio da empresa MIC Contabilidade, cuja atuação passou a ser examinada pelas autoridades.
Até o momento, nenhuma conclusão definitiva foi divulgada, pois o caso segue sob segredo de justiça.
Consequências econômicas e empresariais da disputa
A guerra entre os sócios da Mejer Agroflorestal revela um problema clássico — e frequentemente devastador — do mundo empresarial: o colapso de sociedades paritárias sem mecanismos eficazes de resolução de conflitos.
Quando dois grupos de sócios possuem forças equivalentes dentro de uma empresa, qualquer ruptura interna tende a gerar paralisação decisória. Isso ocorre porque nenhum lado consegue impor sua vontade sem enfrentar resistência jurídica ou administrativa.
No caso da Mejer, os efeitos dessa disputa já são visíveis.
Paralisação administrativa: O controle das contas bancárias, dos sistemas de gestão e das autorizações financeiras tornou-se campo de batalha. Em empresas do setor agroindustrial, onde pagamentos de insumos, logística e folha salarial são contínuos, qualquer bloqueio pode gerar efeito dominó.
Risco operacional: A própria decisão judicial menciona notificações de inadimplência e possibilidade de corte de energia. Em cadeias produtivas como a do dendê, interrupções operacionais podem comprometer colheitas, contratos de fornecimento e exportações.
Desvalorização da empresa: Conflitos societários prolongados tendem a reduzir drasticamente o valor de mercado das empresas envolvidas. Investidores e parceiros comerciais evitam negócios com companhias mergulhadas em disputas judiciais.
Risco de responsabilização criminal: Caso as suspeitas de fraude societária e fiscal se confirmem, o caso pode ultrapassar a esfera empresarial e atingir o campo penal. Isso poderia envolver acusações de falsidade documental, fraude societária, crimes tributários e até associação criminosa.
Impacto no setor do dendê
O Pará é um dos principais polos brasileiros de produção de óleo de palma. Empresas do setor dependem de estabilidade societária e financeira para manter contratos com grandes compradores nacionais e internacionais. Escândalos corporativos tendem a gerar desconfiança no mercado.
O conjunto de processos judiciais em curso indica que o conflito está apenas no começo. Há disputas sobre controle societário, validade de atos administrativos, acesso a contas bancárias e legalidade da exclusão de sócios.
Além disso, as investigações criminais podem abrir um novo capítulo na história.
Se confirmadas as suspeitas de fraude, a disputa deixará de ser apenas uma briga familiar pelo controle de uma empresa e poderá se transformar em um dos casos mais complexos envolvendo o setor do dendê na Amazônia.
Por enquanto, o que se vê é uma empresa presa no centro de uma guerra societária — um cenário em que decisões empresariais passaram a ser tomadas não em salas de reunião, mas em tribunais.
O Ver-o-Fato tenta contato, ainda sem sucesso, com os envolvidos no caso. O espaço está aberto às manifestações.















