O judô paraense, que já revelou campeões nacionais e sulamericanos, formou gerações de atletas e construiu uma história respeitada nos tatames do Brasil, hoje está literalmente imobilizado. Não por falta de talentos, nem por ausência de projetos esportivos, mas por uma guerra de poder que se arrasta há mais de uma década e transformou a Federação Paraense de Judô (FPAJU) em um campo de batalha judicial. Um verdadeiro “mata-leão” de vaidades, interesses políticos e disputas pessoais que estrangulou o esporte no Estado e expulsou seus atletas do calendário nacional.
Há cerca de 10 a 12 anos, a FPAJU vive sob judicialização permanente. Nesse período, ao menos três eleições e três gestões foram engolidas por ações, recursos, liminares e decisões inconclusas. Os nomes se alternaram nos cargos — Alcindo, Adaelso, depois Adaelso com Alcindo, mais recentemente tentativas com Leni e novamente Alcindo —, mas o enredo permaneceu o mesmo: nenhuma solução definitiva, nenhuma pacificação institucional e um judô cada vez mais paralisado, abatido no tatame judicial.
O ápice desse caos ocorreu em 2022, quando, em meio a um dos momentos mais tensos da disputa judicial, a Justiça decidiu nomear um interventor. A escolha recaiu sobre Milton Rafael Ribeiro de Miranda, então presidente da Comissão Estadual de Atletas e representante do Pará na Comissão Nacional de Atletas da Confederação Brasileira de Judô (CBJ).
Justiça: atos ilegítimos
Essa nomeação é crucial para entender o impasse atual. O que veio depois, segundo decisões judiciais recentes, simplesmente não existiu juridicamente.
Mesmo assim, após a renúncia do interventor, um grupo assumiu a federação de forma considerada irregular. Literalmente “arrombou a porta”, tomou posse de equipamentos, chaves e estrutura administrativa, e passou a conduzir o judô no Pará como se tudo estivesse normal. A comunidade, exausta ou acuada, permitiu. Fingiu que estava tudo bem. E o judô seguiu, capenga, por mais alguns anos, sempre sob disputa judicial.
No fim de 2025, porém, a Justiça foi categórica: reconheceu que todos os atos praticados entre 2022 e 2025 eram ilegítimos. Tudo caiu. Campeonatos, decisões administrativas e punições disciplinares. Nada desse período tem validade jurídica.
As consequências são devastadoras. Atletas que competiram em campeonatos estaduais não têm seus resultados reconhecidos. A própria Secretaria de Esporte e Lazer (SEEL), por exemplo, aceita indicações para programas como a Bolsa Atleta, mas deixa claro que só resultados nacionais — obtidos fora do Estado — terão validade. O judô paraense virou um esporte sem chão.
Ganhou e não levou
Na tentativa de cumprir a decisão judicial, um novo processo eleitoral foi realizado no fim do ano passado. Vieira, candidato interessado em assumir a federação, organizou a eleição, concorreu e venceu. Em condições normais, o passo seguinte seria simples: registrar a ata em cartório e encaminhar a documentação à CBJ para homologação e reconhecimento. Mas nada é simples quando se trata da FPAJU.
A eleição foi novamente judicializada. Diante disso, o Cartório do 1º Ofício de Belém informou oficialmente que não registrará a ata enquanto não houver decisão judicial definitiva. A posição é clara: se há disputa na Justiça, que a Justiça diga quem é o representante legal ou se haverá um novo interventor. O cartório se abstém. Lava as mãos.
A Confederação Brasileira de Judô faz o mesmo. Em documento recente, assinado pelo presidente Paulo Wanderley Teixeira, a CBJ reafirma que, de acordo com seu estatuto, não pode intervir administrativamente nas federações filiadas. Sem representante legal reconhecido, a Federação Paraense de Judô permanece suspensa administrativamente e, na prática, sem presidente.
O resultado é brutal: não há possibilidade de inscrição de atletas ou associações do Pará em competições nacionais e internacionais. Não há autorização para organizar campeonatos estaduais válidos. Não há seletivas. Não há ranking. Não há calendário.
Vara Empresarial nem aí
E no judô, como em todo esporte de alto rendimento, uma competição puxa a outra. O ano começa com torneios estaduais que classificam para o Campeonato Brasileiro Regional, envolvendo seis estados da região Norte e Nordeste. Esse regional inicia a pontuação do ranking nacional, que leva ao Campeonato Brasileiro Final. Sem seletiva estadual, o atleta paraense sequer entra no circuito. Começa o ano zerado — quando começa.
Não existe atalho. Não adianta organizar torneios “amadores” ou extraoficiais. A CBJ não reconhece resultados fora do sistema oficial. Sem federação regularizada, o Pará simplesmente não existe no judô brasileiro.
Enquanto isso, o processo se arrasta em diversas Varas Cíveis e Empresariais de Belém, com uma longa lista de ações distribuídas entre a 2ª, 3ª, 11ª e 15ª Varas. Na lógica fria do Judiciário empresarial, onde tramitam causas envolvendo grandes empresas, contratos milionários e disputas financeiras vultosas, o judô parece pequeno demais para ser prioridade. Não gera cifras, não movimenta capital, não desperta urgência.
Mas o custo humano e esportivo é imenso. Atletas migram para outros estados, em busca de competir. Outros desistem. Jovens talentos perdem anos decisivos de formação. Técnicos ficam sem trabalho. Clubes definham. Um esporte inteiro é sacrificado no altar da vaidade e da incapacidade de diálogo.
O judô paraense, que já foi símbolo de disciplina, respeito e superação, hoje está estrangulado fora do tatame. Não por um golpe técnico, mas por uma luta de vaidades, interminável e sem árbitro. Inclusive com golpes baixos.
Enquanto cartórios, confederação e Justiça aguardam “a decisão definitiva”, quem paga a conta são os atletas — justamente aqueles que nunca fizeram parte dessa briga pelo poder.
O Ver-o-Fato tenta falar com os citados na matéria, mas como a disputa pelo poder na federação local está judicializada, o espaço está aberto à quem queira se manifestar.















