Banco federal adquiriu letras do Master com taxa de 122% do CDI, contrariando sua própria política de alocação em instituições com rating superior
Brasília – O Banco da Amazônia tornou-se a primeira instituição pública a figurar na lista de credores prejudicados pelo Banco Master, que teve sua liquidação determinada pelo Banco Central em novembro do ano passado. A instituição federal emprestou R$ 39 milhões para o banco de Daniel Vorcaro através da compra de letras financeiras sem garantia, operações que prometiam retornos significativamente acima das taxas de mercado. O título sem lastro ainda vai vencer, o Master foi liquidado e o Banco da Amazônia tomará calote, restando apelar para a justiça e entrar na fila de credores da massa falida do banco de Daniel Vorcaro.
Entre 2023 e 2024, o Master comercializou R$ 1,867 bilhão em letras de crédito para institutos de previdência, conhecidos como Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS), além dos R$ 39 milhões destinados ao Banco da Amazônia.
As letras adquiridas pelo Banco da Amazônia em abril e junho de 2024 totalizavam R$ 25 milhões e R$ 14 milhões, respectivamente, com promessa de devolução em dois anos com taxa de 122% do CDI. A última dessas letras venceu na sexta-feira (5), naturalmente sem pagamento.
A decisão do Banco da Amazônia de investir em títulos do Master contrasta com sua própria política de alocação de recursos. De acordo com dados recentes da instituição, 94% de seus títulos privados estão alocados em instituições com rating entre “AAA” e “A”.
Ainda assim, em 2024, o banco federal adquiriu R$ 39 milhões em letras sem garantia do Master, que à época possuía rating “BBB”, classificação significativamente inferior aos padrões habitualmente observados na carteira da instituição.
Em comunicado ao mercado divulgado em novembro, quando assumiu publicamente a exposição ao banco de Vorcaro, o Banco da Amazônia minimizou a relevância da operação.
A tesouraria da instituição federal possui aproximadamente R$ 20,3 bilhões de recursos sob gestão, e o volume sob exposição ao Banco Master representa menos de 0,19% desse portfólio, conforme explicado à época. Desde então, o Banco da Amazônia não citou essa exposição em seus balanços subsequentes.
Quando questionado pela imprensa, o Banco da Amazônia informou que “já adotou todas as providências administrativas e jurídicas cabíveis para resguardar seus direitos creditórios” e que “segue atuando com diligência, responsabilidade e estrita observância das normas do Sistema Financeiro Nacional.”
Contudo, as perspectivas de recuperação do investimento apresentam-se limitadas. Como as letras financeiras não apresentavam garantias, o Banco da Amazônia não terá prioridade para recuperar esses créditos, classificando-se provavelmente como credor quirografário — posição que oferece menor segurança na hierarquia de credores.
Outras instituições na mesma situação já provisionaram perda total do valor investido em letras financeiras do Master. Os institutos de previdência municipal de São Roque (SP), Araras (SP) e Cajamar (SP) divulgaram em suas demonstrações contábeis que não possuem expectativa de receber nada do banco liquidado.
Diferente do Banco da Amazônia, que comprou letras com vencimento em dois anos, para os institutos municipais de previdência o Master vendia títulos com pagamento em 10 anos, significando que formalmente as letras só começam a vencer em 2033.
Ainda assim, alguns desses institutos buscaram a Justiça. O estado do Rio de Janeiro obteve liminar que assegura a restituição de ao menos parte dos R$ 970 milhões investidos pela Rioprev em letras do Master para vencimento entre 2033 e 2034.
Pela decisão, o dinheiro descontado de servidores e aposentados que tomaram empréstimo consignado do Master está sendo reservado para cobrir o rombo na RioPrev.
Tanto em São Roque quanto em Cajamar, beneficiários dos RPPS municipais entraram na Justiça pedindo a indisponibilidade de bens dos gestores dos institutos de previdência municipais por conta da compra de letras financeiras do Master, envolvendo R$ 87 milhões em Cajamar e R$ 93 milhões em São Roque. As liminares, porém, foram negadas pela Justiça.
O episódio do Banco Master representa um desafio significativo para a gestão de recursos públicos e levanta questões sobre os critérios de seleção de investimentos em instituições financeiras privadas.
O Banco da Amazônia, como banco federal com responsabilidades estratégicas no financiamento do desenvolvimento da região amazônica, enfrenta agora a necessidade de contabilizar essa perda e buscar recuperação judicial dos valores investidos, enquanto mantém suas operações de crédito rural e desenvolvimento regional. O Ver-o-Fato procurou o banco e não obteve resposta até o fechamento desta reportagem.
Atualização as 13:19h de 12/06/2026.
O Banco da Amazônia enviou a seguinte nota:
“O Banco da Amazônia informa que acompanha continuamente suas operações financeiras com máxima diligência, em conformidade com a regulamentação do Banco Central do Brasil e com suas políticas internas de gestão de riscos.
Sobre investimentos em títulos privados, o Banco adota critérios técnicos que consideram, entre outros fatores, classificação de risco, limites de exposição por emissor, diversificação de carteira e condições de mercado vigentes à época das operações, em linha com as políticas internas vigentes à época e os limites aprovados de exposição.
Em relação às Letras Financeiras com vencimentos em 13 de abril de 2026 e 5 de junho de 2026, o Banco esclarece que a situação está inserida no regime de liquidação extrajudicial conduzido pelo Banco Central do Brasil, ao qual todos os credores estão sujeitos, não se tratando, portanto, de uma inadimplência tratada fora do rito regulatório aplicável ao Sistema Financeiro Nacional.
Nesse contexto, o Banco da Amazônia já adotou as providências administrativas e jurídicas cabíveis para resguardar seus direitos creditórios, incluindo as necessárias no âmbito do processo de habilitação de crédito e sua atuação no processo liquidatório.
Do ponto de vista contábil, o Banco observa rigorosamente as normas aplicáveis do Conselho Monetário Nacional e do Banco Central do Brasil, incluindo os critérios de classificação de risco e provisionamento de ativos, os quais são refletidos de forma transparente em suas demonstrações financeiras periódicas.
A instituição informa ainda que seus processos internos de governança, controle e auditoria são continuamente aplicados e aprimorados, em linha com as melhores práticas do Sistema Financeiro Nacional.”
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















