▪️Aline Bárbara Mota de Sá Cabral invocou o direito de não se autoincriminar em perguntas sobre transações e valores; parlamentares discutiram alcance e blindagens na apuração
▪️Debate sobre aprovação da ata dominou a reunião, enquanto a presidência confirmou medidas para garantir depoimentos e reagendou a oitiva do presidente da Dataprev e do advogado Cecílio Galvão
Brasília – “Bagrinho”, “peixe pequeno”, “nada a acrescentar”, “perda de tempo que não se tem”. As expressões circularam entre integrantes da 33ª reunião da CPMI do INSS, realizada nesta segunda-feira (2), após uma oitiva que, para diversos parlamentares, terminou com saldo político e investigativo frustrante. No centro da sessão esteve Aline Bárbara Mota de Sá Cabral, ex-secretária e gerente administrativa de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, preso preventivamente desde 12 de setembro do ano passado e apontado como operador de um esquema de desvios e fraudes envolvendo descontos de associações diretamente na folha de pagamento de aposentados e pensionistas sob a gestão do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Depois de mais de seis horas de sessão, a avaliação predominante entre críticos da condução dos trabalhos foi a de que a testemunha não trouxe elementos novos que mudassem o rumo da investigação — e que a CPMI, sob pressão de prazo, teria desperdiçado tempo precioso que poderia ter sido dedicado a requerimentos considerados mais relevantes. Se não houver prorrogação, o encerramento está previsto para 28 de março de 2026 sem investigar a bandalheira bilionária dos empréstimos consignados, tão ou mais pernicioso que os descontos associativos ilegais.
Desde o início, o clima da sessão foi marcada por uma combinação de disputa regimental, acusações cruzadas sobre a condução dos trabalhos e decisões operacionais centrais para o andamento da apuração — entre elas, a manutenção da condução coercitiva de um convocado e o depoimento da testemunha, ex-funcionária de pessoa associada ao caso, que recorreu repetidamente ao direito de permanecer em silêncio.
A sessão
No decorrer dos trabalhos ficou claro as tensões políticas internas sobre o rito de deliberação, especialmente a aprovação da ata anterior, marcada por cenas de pugilato, ofensas e confusão generalizada, e sobre o alcance da investigação, com parlamentares defendendo a necessidade de chegar aos “peixes grandes” e criticando supostos “blindadores” do inquérito.
A partir da abertura formal pelo presidente Carlos Viana (PODEMOS–MG), seguida por debates procedimentais e, depois, pela condução de temas diretamente vinculados às oitivas e às medidas para assegurar depoimentos futuros. Logo no início, o presidente propôs a dispensa da leitura da ata da reunião anterior (32ª) e o encaminhamento direto para votação, o que desencadeia um embate sobre interpretação de regras do Regimento Comum e do Regimento do Senado.
A controvérsia se apresentou puxada por deputados do PT e não se limitou a mera formalidade: parlamentares associam a discussão à legitimidade do processo decisório, mencionando divergências sobre contagem de votos e a caracterização de suposta “fraude” em deliberação anterior — com versões conflitantes apresentadas em plenário e sustentadas por leituras distintas do rito de maioria e do que seria exigido para validação da decisão que deliberou a aprovação em bloco de 87 requerimentos, fugindo os rumos da investigação do colegiado ao controle da base governista.
No mesmo eixo de disputa institucional, o presidente relata a existência de uma petição do governo pedindo a suspensão de requerimentos previamente aprovados. Carlos Viana criticou a tramitação do pedido por considerar que a Presidência da CPMI não teria sido ouvida antes da intervenção, invocando o princípio de que não se deve decidir “inaudita altera pars” (sem ouvir a outra parte) e solicitando prazo considerado razoável para que a presidência da comissão apresente manifestação.
O trecho é relevante porque conecta a sessão a um conflito de competência e de procedimento: de um lado, o pedido para suspender medidas já aprovadas; de outro, a reação da presidência da CPMI, que enquadra a questão como violação do contraditório e da ampla defesa no âmbito do funcionamento da comissão.
Superado o tema, foi informado pela Mesa os ajustes de agenda e a reafirmação de providências para garantir depoimentos. O presidente informa o reagendamento da oitiva do presidente da Dataprev para a quinta-feira (5), justificando que o depoente estava em viagem à Índia. A decisão aparece como parte do esforço para manter o fluxo de apuração, reorganizando o calendário sem descartar o depoimento.
Depoente fujão
O ponto operacional de maior impacto imediato na sessão, contudo, foi a deliberação sobre a condução coercitiva do empresário e advogado Cecílio Galvão (veja detalhes aqui). De acordo com o presidente Carlos Viana, houve reiteradas convocações não atendidas e ausência sem justificativa aceita, e por isso determinou que ele seja levado coercitivamente (sob vara da PF) para comparecer na próxima quinta-feira (5).
Em cima da hora, houve petição do convocado com pedidos como recusa em depor, anulação e adiamento da oitiva, mas a presidência negou as solicitações e manteve a condução coercitiva. A relevância política e prática desse episódio, dentro da lógica de uma CPMI, está no recado institucional de que a comissão pretende exercer seus meios para obter depoimentos quando interpreta que há resistência injustificada ao comparecimento.
O depoimento da secretária do “Careca do INSS”
A parte mais sensível da sessão, foi o depoimento de Aline Bárbara Mota de Sá Cabral, ex-secretária e gerente administrativa de Antônio Carlos Camilo Antunes — o “Careca do INSS”.
A testemunha compareceu acompanhada do advogado Leandro Raca, que trabalha no escritório que defende o “Careca” e tem como sócia a namorada do ex-ministro chefe da Casa Civli do Governo Lula, Zé Dirceu; em diversos momentos, invocou o direito de não se autoincriminar, optando por permanecer em silêncio especialmente ao ser questionada sobre transações financeiras, pessoas específicas, e sobre seu papel no manuseio de valores, inclusive menções a dinheiro guardado em cofre.
A ex-secretária chegou a confrontar o relator da CPMI do INSS, Alfredo Gaspar (UNIÃO–AL), em diferentes momentos da oitiva marcada também por respostas atravessadas, ironias e um impasse repetido: perguntas diretas, silêncio calculado e uma troca de farpas que expôs o desgaste do depoimento.
Gaspar tentou detalhar quais funções Aline exercia ao chegar às empresas do lobista. Ela, porém, optou por permanecer em silêncio em parte das questões, amparada pela decisão do ministro do STF André Mendonça, que autorizou a depoente a não responder ao que pudesse autoincriminá-la.
Diante da recusa, o relator afirmou que a ex-secretária não teria motivo para “ter vergonha” do próprio trabalho. Aline devolveu com uma frase que sintetizou o tom da audiência: “Não acho que me envergonha, o que me envergonha é estar diante de homens que querem que eu saiba de coisas que eu não sei”.
Ainda que tenha respondido a parte dos questionamentos, o depoimento foi permeado por novas provocações. Em um dos momentos mais tensos, Gaspar perguntou se o patrão já teria pedido que ela empacotasse quantias de dinheiro e insinuou que a depoente “pensasse bem” antes de responder — uma pressão explícita, registrada em plenário, para constranger a testemunha a admitir o que ela negava saber.
Aline não recuou. Rebateu o relator com outra declaração direta: “Eu estou pensando bem. Eu vou falar do que eu me lembro, da minha verdade, e não o que você quer escutar”. Gaspar tentou desarmar a cena com humor, dizendo, entre risadas contidas, que o tom da depoente o lembrava da esposa “quando briga com ele” — comentário que desviou o foco do conteúdo e reforçou o clima de atrito pessoal que tomou conta da oitiva.
Aline Cabral entrou no radar da CPMI após o depoimento de um ex-sócio de Antônio Carlos Camilo Antunes, que atribuiu a ela funções administrativas relevantes nas empresas do lobista. Na própria versão apresentada, Aline afirmou ter começado como secretária, com tarefas como emissão de passagens e apoio na gestão de imóveis de Antunes.
Durante a oitiva, reconheceu que já emitiu passagens para Danielle Fonteles, publicitária citada como delatora da Lava Jato e que teria passado a trabalhar com Antunes.
Na sequência, Aline relatou que foi promovida e assumiu o posto de chefe de Gestão de Pessoas em empresas de telemarketing do empresário — um papel que, pela própria natureza do cargo, ampliaria sua proximidade com o funcionamento interno do grupo, mas que na sessão ela tratou como atividade administrativa, sem admitir conhecimento sobre os pontos mais sensíveis explorados pelo relator.
Ao longo da reunião, as manifestações bem que tentaram buscar ampliar o foco da investigação e tensionaram o ambiente político. Parlamentares — em especial da oposição, reforçaram a necessidade de alcançar “peixes grandes” e mencionaram “blindadores”, expressão usada para designar atores que, na narrativa de alguns integrantes, estariam protegendo alvos relevantes do inquérito.
Nesse contexto, menções nominais ao ministro Gilmar Mendes, do STF, e ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (UNIÃO-AP), foram inseridas em falas que sugerem disputa política sobre limites e interferências. Ao mesmo tempo que alimentaram acusações recíprocas entre grupos parlamentares, com críticas de que a CPMI estaria sendo usada para manobras e para fins partidários, enquanto outros afirmam estar defendendo a efetividade da apuração.
Essas trocas foram acompanhadas por uma discussão recorrente sobre instrumentos típicos de CPI/CPMI, como horizonte da apuração: quebras de sigilo, investigação de possíveis crimes (como “lavagem de dinheiro”, “sonegação fiscal” e “propina”, além de remissões a medidas judiciais e garantias individuais — como habeas corpus e mandado de segurança — mobilizadas no entorno das oitivas e requerimentos.
A sessão evidenciou que a CPMI opera entre dois vetores: de um lado, a pressão por medidas incisivas; de outro, o debate sobre garantias, rito e limites de atuação.
Ao final da sessão, o presidente reforçou o compromisso com transparência, com decisões “baseadas em regimento e evidências”, e anunciou os próximos passos: nova reunião, com o depoimento do presidente da Dataprev e o comparecimento de Cecílio Galvão sob condução coercitiva.
Também aparecem na sessão apelos para prorrogação do prazo da CPMI, argumento associado à necessidade de aprofundar diligências e superar entraves procedimentais e judiciais que, na leitura de alguns parlamentares, estariam limitando o avanço do trabalho. Ao que tudo indica, a CPMI, se não for prorrogada — determinação já expressada pelo governo aos membros de sua base de apoio —, a instância de investigação não consumará o planejamento de investigar os bilionários empréstimos consignados operados por muitos bancos de forma irregular e muitos cobrando taxas de juros que superam o de agiotas que agem nas sombras.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.
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