■ Relatório do governo americano critica áreas como o comércio digital e o desmatamento, enquanto o Palácio do Planalto mobiliza Geraldo Alckmin para reverter a sanção
■ Enquanto o governo federal busca diálogo institucional para barrar as tarifas, o senador Flávio Bolsonaro apela diretamente a Trump na Casa Branca
Brasília – O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) concluiu uma investigação formal contra o Brasil e recomendou a aplicação de uma tarifa de 25% sobre as mercadorias brasileiras importadas pelo país norte-americano. A medida, que ainda depende de aprovação final e prevê uma extensa lista de exceções, gerou mobilização imediata do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e expôs movimentações políticas de opositores no exterior, configurando um novo capítulo de tensão comercial e diplomática entre as duas maiores economias do continente.
O presidente Lula convocou uma reunião de emergência na manhã desta terça-feira, com vários ministérios, para trazer uma resposta às medidas do governo norte-americano.
A investigação comercial dos Estados Unidos foi iniciada em 15 de julho de 2025 sob a administração do presidente estadunidense Donald Trump, baseando-se na premissa de que o Brasil adota práticas consideradas desleais e prejudiciais ao comércio dos Estados Unidos.
O relatório final do órgão norte-americano concentra suas críticas em seis áreas principais, englobando o comércio digital, os serviços de pagamento, os acordos tarifários, o desmatamento, a política do etanol, a proteção à propriedade intelectual e o combate à corrupção, — e, adicionalmente, a prática de “trabalho escravo”.
Informações complementares divulgadas pela imprensa internacional destacam que até mesmo o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos, o Pix, foi alvo de ressalvas por parte do governo americano.
Apesar da alíquota geral de 25%, a proposta tarifária não é absoluta e é acompanhada por um documento de 73 páginas que detalha os produtos isentos da sobretaxa.
Entre as mercadorias poupadas estão materiais informativos, doações, tipos específicos de carnes e frutas, café, chá, cereais, sementes, minerais e terras raras.
O setor industrial e tecnológico também obteve um alívio preventivo, uma vez que aeronaves brasileiras, peças aeronáuticas, produtos químicos orgânicos, farmacêuticos e fertilizantes integram a lista de exceções.
No âmbito diplomático e administrativo, a reação do governo brasileiro tem sido pautada pela articulação de respostas técnicas e institucionais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva designou o vice-presidente Geraldo Alckmin para atuar diretamente na contenção das possíveis tarifas.
Alckmin, que tem mantido canais de diálogo abertos com os Estados Unidos, deve liderar reuniões com especialistas para contestar as avaliações do relatório norte-americano antes que as sanções se tornem definitivas. O objetivo do Palácio do Planalto é apresentar contrapontos técnicos que desconstruam a tese de práticas comerciais irrazoáveis.
Paralelamente aos esforços do Poder Executivo, o cenário também é marcado por interferências da oposição brasileira no exterior. O senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro realizou um encontro com Donald Trump na Casa Branca, ocasião em que solicitou expressamente que as empresas brasileiras não fossem taxadas.
Durante a reunião, o parlamentar argumentou que, a partir de 2027, os Estados Unidos teriam um governo brasileiro aliado para sentar e negociar. Na mesma oportunidade, o senador pediu a classificação de facções criminosas nacionais, como o PCC e o Comando Vermelho, como organizações terroristas.
A despeito do apelo político e da proximidade ideológica, o órgão comercial norte-americano manteve a recomendação técnica das tarifas.

Governo avalia aplicar a Lei de Reciprocidade contra os Estados Unidos
Diante da iminência da nova taxação, especialistas alertam para a possibilidade de retaliações institucionais. O ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil, Welber Barral, avalia que existe o risco de o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva invocar a Lei de Reciprocidade contra os Estados Unidos, caso não haja um avanço nas negociações durante os próximos trinta dias.
O especialista classifica a recomendação do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) como uma escalada relevante nas tensões comerciais bilaterais. Para mitigar esse cenário, Barral defende que o setor privado brasileiro, especialmente os empresários, atue em conjunto com os agentes políticos e diplomáticos.
A participação ativa da classe empresarial nas audiências públicas é vista como estratégica, uma vez que a pressão dos importadores norte-americanos pode exercer um peso decisivo nas tratativas.
Sob a perspectiva jurídica e técnica, o relatório final do órgão norte-americano tem sido alvo de contestações. O ex-secretário aponta que o documento dedicou atenção limitada às defesas apresentadas pelo Brasil e ignorou a relevância do país como fornecedor de insumos estratégicos para a própria indústria dos Estados Unidos.
Além disso, a análise estadunidense não teria considerado a compatibilidade das políticas nacionais com as obrigações firmadas junto à Organização Mundial do Comércio, tampouco os avanços recentes do Brasil nas áreas de proteção à propriedade intelectual e de combate à corrupção.
A fundamentação do documento também é questionada em temas sensíveis da pauta bilateral. Barral identifica a presença de dados equivocados referentes ao desmatamento e ressalta que as autoridades norte-americanas desconsideraram a legislação brasileira ao criticar o sistema Pix e as diretrizes sobre liberdade de expressão, o que representa uma contestação direta às atuações do Banco Central e do Poder Judiciário do Brasil.
No âmbito econômico, a análise técnica conclui que a imposição das tarifas pode gerar um efeito reverso e prejudicar a própria economia norte-americana.
O ex-secretário questiona a omissão do relatório do USTR sobre os potenciais impactos negativos que a sobretaxa traria para os consumidores, para as cadeias produtivas e para as empresas dos Estados Unidos que dependem das importações brasileiras.
Trump utiliza tarifas como arma em sua cruzada comercial
O histórico recente das relações bilaterais demonstra que a imposição de barreiras comerciais tem sido uma ferramenta recorrente da atual administração estadunidense, não poupando aliados históricos.
No ano de 2025, o governo Trump já havia aplicado uma tarifa adicional de 40% sobre produtos brasileiros, amparada na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional.
Essa medida anterior gerou forte atrito, mas foi posteriormente flexibilizada e zerada para setores estratégicos, como carnes e café, após negociações diretas entre os presidentes dos dois países.
O desfecho deste novo impasse comercial dependerá das próximas etapas legais e diplomáticas previstas para o ano de 2026. Uma audiência pública está agendada para o dia 6 de julho nos Estados Unidos, antecedendo o prazo final de 15 de julho para a adoção de medidas corretivas definitivas.
A decisão final sobre a implementação da tarifa de 25% caberá exclusivamente ao presidente Donald Trump. As implicações de uma eventual confirmação da sobretaxa são profundas, com potencial para encarecer drasticamente as exportações brasileiras não isentas, afetar a balança comercial e reconfigurar as alianças políticas internas no Brasil, à medida que o governo tenta blindar a economia nacional e a oposição busca capitalizar sobre a crise diplomática em um ano eleitoral.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















