Doze dos dezoito chefes estaduais sem reeleição à vista consideram disputar vagas, impulsionados pela proteção institucional e o fortalecimento legislativo
Brasília – Durante o recesso legislativo, nos Estados e Distrito Federal, doze dos dezoito chefes estaduais sem reeleição à vista consideram disputar vagas nas eleições gerais deste ano, impulsionados pela proteção institucional e o fortalecimento legislativo.
Estratégia partidária e blindagem judicial movem governadores em final de mandato a um patamar sem precedentes, conforme revela análise de cenário político. Dos 18 chefes do Executivo estadual sem possibilidade de reeleição neste ano, uma maioria expressiva de 12 já sinaliza a intenção de disputar uma vaga na Casa Alta em outubro.
Este número representa um aumento significativo em comparação com pleitos anteriores, sendo quatro vezes maior que o registrado em 2018, quando três governadores concorreram, e três vezes superior ao de 2022, que viu quatro governadores na disputa.
Especialistas apontam que a garantia de foro privilegiado por oito anos, o fortalecimento institucional do Parlamento e a boa avaliação de suas gestões nos estados são os principais catalisadores desse crescente interesse.
A movimentação política que antecede as eleições de outubro obriga os governadores interessados em uma cadeira no Senado a renunciarem aos seus cargos até abril, seis meses antes do pleito. Enquanto alguns já confirmam suas candidaturas, outros mantêm a decisão em aberto, a ser tomada mais próxima do prazo de desincompatibilização.
Sem segredo de intenção
Entre os que já alinhavaram suas candidaturas, destacam-se figuras de diferentes espectros políticos. Fátima Bezerra (PT-RN) e João Azevêdo (PSB-PB) posicionam suas aspirações ao Senado dentro de uma estratégia maior de apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Bezerra afirma que: “A minha candidatura ao Senado está dentro das prioridades do PT nacional. Sei da importância da disputa congressual neste ano para a democracia”.
De maneira similar, o governador do Pará, Helder Barbalho (MDB), já confirmou sua intenção de concorrer ao Senado, almejando suceder seu pai, Jader Barbalho. Ele expressa o desejo de “dialogar com os paraenses para seguir trabalhando pelo estado e pelo Brasil no Senado, pensando especialmente na segurança pública, no desenvolvimento da Amazônia e na redução do custo da energia elétrica”.
No campo da direita, Antonio Denarium (PP-RR) aposta em sua aprovação popular e minimiza o impacto de um julgamento em curso no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022, declarando: “Deixo o governo no início do ano para disputar o Senado. Tenho apoio partidário e não sou extremista. A ação no TSE deve ter o julgamento concluído antes da eleição e será reconhecido que não houve crime”, declarou.
Números animam pré-candidatos
Cientistas políticos aprofundam as razões por trás deste fenômeno em uma profusão de artigos publicados na imprensa. Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), observa uma “safra numerosa” de governadores bem avaliados que percebem um “fortalecimento institucional do Congresso”.
Segundo ele, o Senado deixou de ser visto como um “fim de carreira” para se tornar uma “plataforma de poder duradouro”, onde governadores entram com vantagem competitiva devido ao “alto grau de conhecimento do eleitor, capilaridade regional e legado administrativo”.
Medeiros salienta que o Senado oferece a esses líderes estaduais “continuidade de protagonismo, proteção institucional e capacidade real de influência sobre a agenda nacional”, em contraste com aventuras eleitorais de alto risco, como a Presidência da República.
A história recente das eleições para o Senado ilustra o sucesso dos governadores. Em 2018, dos três que tentaram, apenas Confúcio Moura (RO) foi eleito. Contudo, em 2022, todos os quatro candidatos (Renan Filho-AL, Wellington Dias-PI, Flávio Dino-MA e Camilo Santana-CE) saíram vitoriosos, um indicativo da força eleitoral desses líderes.
A cientista política Carolina Botelho adiciona uma camada de análise ao interesse crescente, conectando-o a movimentos políticos ideológicos. Ela sugere que o avanço de governadores ao Senado pode ser influenciado por um “movimento bolsonarista”, que enxerga a Casa como um meio preferencial para “retirar poderes do Supremo Tribunal Federal (STF)”.
Este cenário, por sua vez, provoca uma “reação da esquerda”, que articula candidaturas robustas para contrabalancear uma possível dominância da direita no Legislativo.
Botelho também aponta para o “foro privilegiado” como um atrativo para governadores com questões judiciais pendentes, mencionando o caso de Cláudio Castro (Rio de Janeiro), que enfrenta um processo de cassação no TSE.
Castro, que publicamente trata a disputa como uma possibilidade, articula sua candidatura nos bastidores e afirma que, caso ocorra a mudança para o Senado, sua missão seria “dar continuidade à agenda da segurança pública, fortalecendo o combate à criminalidade como prioridade nacional”.
Além dos nomes já citados, uma parcela significativa de governadores admite nos bastidores a possibilidade de concorrer ao Senado, mas posterga a decisão final para próximo do fim do prazo de desincompatibilização.
Este grupo inclui Eduardo Leite (PSD-RS), Ibaneis Rocha (MDB-DF), Wilson Lima (União-AM), Marcos Rocha (União-RO), Renato Casagrande (PSB-ES), Mauro Mendes (União-MT) e Gladson Cameli (PP-AC). Há relatos de que a candidatura de Cameli será anunciada em um evento partidário em 4 de abril.
Em contraste, alguns governadores bolsonaristas, como Romeu Zema (Novo-MG), Ronaldo Caiado (União-GO) e Ratinho Júnior (PSD-PR), descartam a disputa pelo Senado e direcionam suas ambições para uma candidatura à Presidência da República.
Uma eventual vitória de um desses nomes quebraria um jejum de 37 anos, desde a eleição de Fernando Collor, então governador de Alagoas, que superou Lula no segundo turno.
Por outro lado, há também aqueles que afirmam não disputar eleições este ano, optando por permanecer em seus governos até o término do mandato, como Wanderlei Barbosa (Republicanos-TO), Carlos Brandão (sem partido-MA) e Paulo Dantas (MDB-AL).
Em síntese, o panorama político atual aponta para uma eleição para o Senado que promete ser acirrada e estratégica, com um número recorde de governadores buscando transitar para o Poder Legislativo, embora, nas bases, dois cargos ao Senado estejam em disputa.
As motivações são diversas, oscilando entre o fortalecimento institucional, a busca por foro privilegiado e a reconfiguração de forças políticas em nível nacional, sinalizando uma importante disputa pelo futuro do Congresso.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















