A Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura), historicamente uma das principais aliadas do PT, está no centro de um escândalo bilionário de fraudes em aposentadorias do INSS. Segundo a revista Veja, de acordo com investigações da Polícia Federal e do Ministério Público, entre 2019 e 2024 a entidade descontou cerca de 2 bilhões de reais das pensões de idosos, sendo que grande parte desses valores teria sido subtraída de forma irregular.
“Há suficientes provas da materialidade de que a Contag realizou a fraude documentada ao longo da investigação, consistente na apresentação de listas falsas ao INSS, contendo nome de pessoas que nunca autorizaram efetivamente o desconto associativo”, afirmou o Ministério Público.
O caso é particularmente grave porque atinge uma das mais tradicionais organizações do sindicalismo rural brasileiro — e uma parceira constante dos governos petistas desde os tempos de Lula e Dilma. A suspeita é de que a Contag tenha apresentado cadastros fictícios ao INSS para justificar o repasse de contribuições sindicais, lesando milhares de aposentados rurais que jamais deram consentimento formal para o desconto em folha. A entidade nega participação na roubalheira.
Prestígio mantido no governo Lula
Mesmo sob investigação da Polícia Federal, a Contag continua desfrutando de prestígio político dentro do atual governo. Em maio de 2024, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou um decreto nomeando duas representantes da entidade para o Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea) — órgão responsável pela gestão das políticas de combate à fome.
Poucos meses depois, em agosto, a Contag renovou sua vaga no Conselho Nacional de Direitos da Pessoa Idosa (CNDPI), fórum ligado ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, que atua na defesa da terceira idade — ironicamente, o mesmo público mais afetado pelas fraudes denunciadas.
E, nesta semana, a entidade anunciou com entusiasmo sua participação na Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP-30), que será realizada em Belém (PA) entre 10 e 21 de novembro.
Projeção internacional e discurso ambiental
De acordo com comunicado divulgado pela própria Contag, a confederação pretende enviar uma delegação com mais de mil representantes de todos os estados brasileiros à Cúpula dos Povos, evento paralelo e autogestionado que ocorre durante a COP. Além disso, a entidade terá um painel estratégico aprovado na Zona Azul, o espaço oficial das negociações internacionais da conferência.
A secretária de Meio Ambiente da Contag, Sandra Paula Bonetti, afirmou que o grupo vai representar agricultores familiares, povos indígenas, jovens e movimentos sociais. Em tom grandiloquente, declarou:
“A COP-30 será histórica e precisamos estar com força política e capacidade de incidência. A Contag está mobilizada para levar a voz da agricultura familiar e das populações do campo, da floresta e das águas na defesa de uma transição justa dos sistemas alimentares, agroecológica e com justiça social e climática.”
Contradições
A reportagem de Veja expõe uma contradição emblemática: enquanto enfrenta acusações graves de fraude contra aposentados, a Contag segue ocupando posições estratégicas no governo federal e no cenário internacional, mantendo o prestígio de uma entidade “progressista” comprometida com pautas sociais e ambientais.
O contraste é inevitável — de um lado, a imagem pública de defensora dos pobres e do meio ambiente; de outro, as acusações de lesar justamente os idosos mais vulneráveis, que dependem das aposentadorias rurais para sobreviver.
Mais do que um escândalo financeiro, o caso levanta uma questão ética e política: até que ponto o vínculo histórico entre o PT e entidades sindicais como a Contag interfere na resposta do governo diante de denúncias graves?














