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Home Política

ENTREVISTA: Vice do PT diz que Lulinha vive precariamente na Espanha e expõe racha na legenda

Val-André Mutran por Val-André Mutran
06/08/2026
in Política
ENTREVISTA: Vice do PT diz que Lulinha vive precariamente na Espanha e expõe racha na legenda

Quaquá blinda Lula e ataca "denuncismo" em crise no PT. Reprodução: Youtube/Poder 360

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Washington Quaquá, prefeito de Maricá (RJ) e vive-presidente nacional do PT minimiza casos envolvendo Marcola e Lulinha, defende Lula e ataca o casal Lindbergh e Gleisi

Brasília – O vice-presidente nacional do PT e prefeito de Maricá (RJ), Washington Quaquá, saiu em defesa do ex-chefe de gabinete do presidente Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, e minimizou o impacto das crises que cercam a campanha à reeleição. Em entrevista ao programa Poder Entrevista, do Poder360, realizada por videoconferência ontem, o dirigente petista também criticou a escolha do deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) como vice de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e defendeu uma guinada da legenda em direção ao centro, contra a maré do próprio presidente Lula.

Natural de Niterói e graduado em ciências sociais pela Universidade Federal Fluminense, o mais que polêmico Quaquá, de 55 anos, é uma das principais lideranças do PT fluminense. Filiado ao partido desde 1985, aos 14 anos, foi eleito prefeito de Maricá em 2008 e reeleito em 2012, eleito deputado federal em 2022 e, em 2025, assumiu o terceiro mandato à frente da prefeitura. Desde março de 2025, preside a Associação Brasileira de Municípios e integra a coordenação da campanha de Lula no Rio de Janeiro.

Na mesma conversa, Quaquá reafirmou a aposta na candidatura de Eduardo Paes ao governo do Rio de Janeiro e tratou de temas que dominam o debate eleitoral, como os inquéritos envolvendo o filho do presidente e a condução interna do partido. As declarações, no entanto, expõem as fraturas do PT fluminense e podem gerar novos ruídos tanto no campo adversário quanto dentro da própria legenda.

Defesa de Marcola e crítica ao “denuncismo”

O primeiro tema da entrevista foi o caso envolvendo Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula até uma semana antes da gravação. Ele deixou a campanha do presidente, a pedido, na quarta-feira (5), depois de ganhar as manchetes dos jornais após a revelação que recebeu repasses da empresária e lobista Roberta Luchsinger, apontada como alvo de investigações da Polícia Federal por suposto esquema de fraudes em descontos de aposentadorias do INSS e envolvimento direto com Antônio Carlos Camilo Antunes — o “Careca do INSS”, preso pela Polícia Federal desde o ano passado. Marcola admitiu ter obtido empréstimos no valor de R$ 249 mil da lobista, afirmando que o dinheiro foi “contraído e quitado”.

Quaquá negou que o episódio impacte negativamente a tentativa de reeleição de Lula. Para ele, o país estaria “cansado dessas práticas de denuncismo”, e defendeu que as investigações sejam conduzidas “com sigilo, preservando as pessoas e a reputação das pessoas”. O dirigente também invocou a presunção de inocência ao afirmar que não vê ilicitude em tomar um empréstimo de alguém conhecido e quitá-lo.

“Eu conheço o Marcola há muitos anos… é uma pessoa muito discreta, muito séria, e eu, de fato, não creio que Marcola esteja envolvido com nenhuma ilicitude. Eu vi a nota que ele apresentou, diz que tem as comprovações de empréstimo e de pagamento, eu não vejo nenhuma ilicitude.”

A fala contrasta com a avaliação da própria equipe de Lula, que, segundo a imprensa, confia no ex-chefe de gabinete, mas reconhece que ele errou ao tomar o empréstimo. O presidente teria pedido a Marcola que explicasse a transação para evitar impacto na campanha. A Polícia Federal identificou o repasse da empresária a Marcola, que atuou como chefe de gabinete de janeiro de 2023 a 31 de julho de 2026, com a responsabilidade de organizar a agenda de compromissos do presidente.

Inquéritos contra Lulinha

Quaquá também foi provocado sobre os três inquéritos abertos pela Polícia Federal envolvendo Fábio Luiz da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente, que vive em Madri, na Espanha, por suposto tráfico de influência. O dirigente admitiu que “o ruído sempre cria” problemas, mas fez uma defesa enfática do primogênito de Lula, afirmando que ele vive “em condições espartanas, em condições precárias” na Espanha.

“Um presidente que está a três mandatos da presidência da República, se os filhos tivessem cometido ilicitudes… hoje era para eles estarem ricos, de fato ter uma Ferrari ou ser sócio de uma grande empresa. Então, o que vai ficar nessa história toda é que vai provar que ele não tem Ferrari, que ele não é sócio da JBS, que ele vive em condições de classe média e que não é um cara rico.”

A fala ocorre em meio à escalada do tema no debate eleitoral. O relatório da CPMI do INSS, divulgado em março, citou Lulinha, que responde a três inquéritos que tramitam no Supremo Tribunal Federal. A empresária Roberta Luchsinger, por sua vez, é apontada como amiga de Lulinha e também é alvo de investigações.

Escolha de Alfredo Gaspar como vice de Flávio Bolsonaro

A entrevista abordou ainda a decisão de Flávio Bolsonaro, principal adversário de Lula na disputa presidencial, de anunciar o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) como vice em sua chapa. Gaspar foi relator da CPMI do INSS e chegou a pedir o indiciamento de Lulinha. O anúncio foi feito em 5 de agosto, no último dia das convenções partidárias.

Quaquá ironizou a escolha, classificando Gaspar como um “estepe” diante da dificuldade de Flávio em atrair nomes de peso.

“Ninguém quer embarcar na canoa furada do Flávio Bolsonaro. Ele, na falta de um vice, de alguém que tenha peso político e eleitoral, resolveu escolher um estepe, alguém que não tinha condições de ser vice-presidente da República, assim como nem ele tem condições de ser presidente da República.”

O dirigente petista pregou que o PT “fuja desse tipo de debate, desse falso moralismo”, afirmando que “imagina se a família Bolsonaro vai falar de moralidade”. Para ele, o debate central da campanha deve ser o desenvolvimento econômico e a distribuição de renda.

Crítica à condução do PT e defesa do centro

Em um dos trechos mais críticos da entrevista, Quaquá avaliou a condução da campanha de Lula e apontou erros da direção do partido. Segundo ele, após o impeachment de Dilma Rousseff e a prisão de Lula, o PT “abandonou uma política que deu certo”, criada por José Dirceu e pela antiga direção, de ampliação de alianças ao centro e de relação com o empresariado.

“Nós demos passos para trás na política de alianças… fazendo um discurso muito esquerdista e um discurso muito voltado para os costumes. Eu acho que a direção tem errado nessa situação e, sendo refém de uma política de classe média. Nós temos que voltar a ter uma política ampla, ganhar o centro, trazer o centro para um projeto de desenvolvimento nacional.”

A declaração ecoa posições que Quaquá já havia defendido publicamente, inclusive em entrevista à revista Veja em fevereiro de 2026, quando afirmou que o PT precisa atrair o centro para vencer as eleições.

Disputa interna no PT do Rio

O vice-presidente também foi questionado sobre o atrito com o deputado Lindbergh Farias e o ex-presidente da Embratur Marcelo Freixo, que o criticaram por ter deixado o número de urna 1313 para o filho, Diego Quaquá, presidente do PT do Rio de Janeiro e candidato a deputado federal, usando o termo “capitania hereditária”.

Quaquá rebateu dizendo que “veio da Senzala, não da Casa Grande” e que a esquerda quer “tirar as pessoas da senzala”. Ele afirmou que o número 1313 é da base eleitoral do grupo e que é “mais do que natural” que o filho o utilize. Na sequência, partiu para o ataque ao afirmar que Lindbergh “monopolizou” emendas do governo federal no Rio, em razão de ser casado com a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann.

“É só dar uma olhada na rede social deles que você vai ver o quanto eles entregaram de trator, de emenda, ficaram ali pendurados no governo federal… muitos deputados do PT reclamam e da base reclamam o fato de eles terem monopolizado o governo aqui no Rio de Janeiro.”

A declaração ganha relevância diante do cenário interno conturbado. Em junho, a direção nacional do PT interveio no diretório fluminense controlado por Quaquá, em uma derrota considerada acachapante para o prefeito de Maricá.

Polêmica sobre armas e operação policial

A entrevista também repercutiu declarações polêmicas de Quaquá sobre segurança pública. Ao ser questionado sobre a foto do filho Diego com um fuzil em um clube de tiro, o dirigente minimizou, dizendo que a imagem era antiga e que “foi errado” publicá-la naquele momento, mas defendeu o direito de gostar de atirar.

Sobre a operação policial que deixou mais de uma centena de mortos no Rio em 2025, Quaquá voltou a defender a ação do Estado e criticou o que chamou de “esquerda de condomínio“.

“Eu acho que aquela operação não deu em nada, foi uma operação que não construiu alternativas para o povo da favela, mas também não estou aqui para ficar defendendo bandido que foi morto numa operação policial.”

O dirigente, que já havia causado controvérsia ao afirmar que a Operação Contenção “só matou otário, vagabundo, bandido“, reforçou a posição e disse que, em Maricá, está “armando a guarda municipal” e que “traficante que portar fuzil e ameaçar um agente do Estado vai morrer“. Diante do questionamento sobre eventual expulsão do partido, Quaquá negou temor, afirmando que o PT é um partido democrático.

Maricá e a gestão dos royalties

O prefeito também defendeu a gestão de Maricá, cidade cuja arrecadação depende em parte dos royalties do petróleo, e a comparou a municípios do Norte Fluminense, como Campos dos Goytacazes. Ele atribuiu o atraso dessas cidades à “família Garotinho”, que, segundo ele, “destruiu Campos” e usou os royalties “para fazer politicagem ou roubalheiras”. Em contrapartida, destacou o programa de tarifa zero no transporte público e a intenção de “mudar a base econômica” da cidade no terceiro mandato.

Aposta no Rio e sucessão de Lula

Coordenador da campanha de Lula no Rio, Quaquá celebrou a aliança com o candidato a governador Eduardo Paes (PSD), que classificou como “progressista, desenvolvimentista, de centro”, e afirmou que o presidente já teria superado Flávio Bolsonaro em pesquisas no estado. Ele também revelou que pretendia se reunir com o ministro da Defesa, José Múcio, para tratar da internacionalização do aeroporto de Maricá e de um projeto de hub de satélites na cidade, em parceria com chineses e coreanos.

Por fim, ao ser perguntado sobre quem pode suceder Lula como liderança nacional do PT, Quaquá apontou o ministro Fernando Haddad, candidato ao governo de São Paulo, como o nome “mais preparado e mais qualificado” da legenda.

“Eu acho que o Haddad é o nome mais preparado, mais qualificado do PT para uma disputa depois do Lula… se ele ganhar o governo de São Paulo, ele também será um nome importante.”

O modo Quaquá de militar

A entrevista de Washington Quaquá revela um dirigente que atua em duas frentes simultâneas: externamente, busca blindar a campanha de Lula diante das crises que envolvem o entorno do presidente, minimizando os casos de Marcola e de Lulinha e tentando deslocar o debate eleitoral para a pauta econômica; internamente, porém, expõe as fraturas do PT fluminense, com críticas abertas a Lindbergh Farias, a Gleisi Hoffmann e à condução da direção nacional.

As declarações de Quaquá, no entanto, carregam ambiguidades que podem gerar novos ruídos. Ao mesmo tempo em que pede que o PT “fuja do falso moralismo”, o dirigente faz acusações de “monopólio” de emendas contra colegas de partido e mantém posições duras sobre segurança pública que já o colocaram em rota de colisão com setores da esquerda. A defesa enfática de Marcola e de Lulinha, por sua vez, contrasta com a avaliação mais cautelosa da própria equipe de campanha de Lula, que reconheceu o erro do ex-chefe de gabinete.

A aposta de Quaquá na aliança com Eduardo Paes e na guinada ao centro representa uma aposta estratégica de longo prazo, mas enfrenta resistência dentro de um partido historicamente dividido entre a defesa de um discurso mais à esquerda e a busca por ampliar o arco de alianças. Com a eleição marcada para outubro e a disputa no Rio considerada decisiva para o cenário nacional, as falas do vice-presidente nacional do PT tendem a seguir alimentando o debate tanto no campo adversário quanto dentro da própria legenda.

* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.

Tags: campanha eleitoralcrise no PTDestaqueeleições 2026Eleições 2026 tática eleitoralindícios de corrupçãoSegurança PúblicaWashington Quaquá
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