Saída ocorre após operação da PF apontar aplicação irregular de R$ 400 milhões em Letras Financeiras; indicado por Davi Alcolumbre, Jocildo Lemos nega ilegalidades e diz que fundo cresceu 41% entre 2023 e 2025
Brasília – O presidente da Amapá Previdência (Amprev), Jocildo Lemos, pediu exoneração do cargo nesta quarta-feira (11), em meio ao avanço das investigações sobre supostas irregularidades em aportes do Regime Próprio de Previdência Social do Amapá (RPPS/AP) no Banco Master (veja mais aqui), instituição que foi liquidada extrajudicialmente pelo Banco Central.
A saída acontece dias após Lemos ser alvo da Operação Zona Cinzenta, desdobramento da Operação Compliance Zero, que mira um suposto esquema de fraudes financeiras ligado ao banco.
Segundo a Polícia Federal, Lemos e outros dois integrantes do comitê de investimentos teriam aplicado, de forma irregular, cerca de R$ 400 milhões do RPPS/AP em Letras Financeiras do Master.
Em nota, o ex-dirigente afirmou que deixa o cargo para “permitir que a Justiça atue com total independência” e para comprovar que “todos os procedimentos adotados sob [sua] gestão observaram rigorosamente a legalidade”.
“Apresento meu pedido de exoneração do cargo de Diretor-Presidente da Amprev. Faço isso para que a Justiça atue com total independência e para que fique plenamente comprovado que todos os procedimentos adotados sob minha gestão observaram rigorosamente a legalidade”, disse Lemos.
Lemos acrescentou confiar “na Justiça e na força dos fatos” e afirmou que, sob sua administração, o patrimônio da Amprev cresceu 41% entre 2023 e 2025, assegurando o pagamento de aposentados e pensionistas até 2059.
Repercussão política
Jocildo Lemos foi indicado ao comando da Amprev pelo presidente do Congresso Nacional, senador Davi Alcolumbre (União-AP). O parlamentar, porém, não é investigado pela Polícia Federal no caso.
A Operação Zona Cinzenta, da Polícia Federal, apura se as aplicações do RPPS/AP em Letras Financeiras do Banco Master descumpriram normas e parâmetros de segurança exigidos para regimes próprios de previdência.
Paralelamente, o Ministério Público do Estado do Amapá conduz apuração para avaliar:
- a compatibilidade dos aportes com a política de investimentos do RPPS;
- se houve alertas formais sobre riscos;
- e se existiram pareceres contrários às aplicações no Master.
O posicionamento da Amprev
A autarquia sustenta que os investimentos observaram as regras vigentes à época: Em nota divulgada em 2025, a Amprev afirmou que:
- todas as aplicações seguiram as normas do Sistema Financeiro Nacional e a política de investimentos do RPPS;
- o Banco Master estava autorizado a operar com regimes próprios de previdência quando os aportes foram realizados;
- após a liquidação extrajudicial, adotou medidas para resguardar os recursos.
- A entidade diz ter obtido decisões judiciais que:
- preservaram os valores necessários ao pagamento de aposentados e pensionistas;
- determinaram que os recursos fossem mantidos em conta específica no Banco do Brasil, sob controle judicial.
- Em novo comunicado, publicado no site da Amprev em 6 de janeiro de 2026, a autarquia informou ter conseguido decisão favorável para garantir a segurança dos recursos relacionados aos empréstimos consignados. Segundo o texto:
- os contratos permanecem válidos;
- os descontos em folha seguem normalmente;
- não há prejuízo financeiro aos segurados;
- a única mudança foi o depósito dos valores descontados em conta específica no Banco do Brasil, sob supervisão judicial, como medida de transparência e proteção até a decisão final do processo.
A Amprev figura entre os maiores fundos de regimes próprios que investiram em títulos de maior risco ligados ao Banco Master.
A renúncia de Jocildo Lemos à presidência da Amprev ocorre sob forte pressão investigativa sobre aportes milionários do RPPS/AP no Banco Master. Enquanto a PF e o MP-AP apuram possíveis irregularidades e falhas de governança, a autarquia afirma ter seguido a legislação e diz ter obtido decisões judiciais para resguardar o dinheiro dos segurados, mantendo o pagamento de benefícios sem prejuízo. Politicamente, o caso respinga no entorno de Davi Alcolumbre, que indicou Lemos ao cargo, embora o senador não seja alvo das investigações.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.














