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Home Cultura

Encanto e maldição do âmbar do Gram-Pará, no ano de 1757

Oswaldo Coimbra por Oswaldo Coimbra
11/08/2026
in Cultura
Encanto e maldição do âmbar do Gram-Pará, no ano de 1757
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Era muito delicada a situação dos construtores religiosos do Gram-Pará quando o âmbar surgiu, na carta de 23 de maio de 1757, escrita por Francisco Xavier Mendonça Furtado, governador do Gram-Pará, e, endereçada a Thomé Joaquim da Costa, ministro da Marinha, de Portugal.  

Havia décadas que jesuítas, franciscanos, mercedários e carmelitas do Gram-Pará vinham contrariando determinações do Rei de Portugal e da própria Igreja Católica. 

Eles tinham transformado o poder espiritual sobre as aldeias que lhes fora dado pela Corte Portuguesa em poder econômico, através do monopólio da mão-de-obra escrava indígena. 

Este poder econômico levava-os a atuarem no Estado como grandes fazendeiros, comerciantes e exportadores de produtos da floresta amazônica. 

Foi com este poder que os religiosos puderam reunir os recursos materiais aplicados na construção de seus gigantescos e belos conjuntos arquitetônicos, em Belém. 

Os das igrejas de Santo Alexandre, Mercês, Carmo, e, da capela e convento franciscanos.  

O preço que pagaram pela ousadia, no entanto, estava naquela carta: o desgaste em conflitos permanentes com colonos portugueses, com o governo do Gram-Pará, com a Corte, na Metrópole, e, com a Igreja Católica.

Porque, como religiosos, eles não podiam acumular bens de raiz.

Desde 1704, a Câmara Municipal de Belém se queixava ao rei de que os missionários estavam renunciando às suas obrigações espirituais e eram responsáveis pelo empobrecimento dos súditos de Portugal, no Gram-Pará.

Estas queixas estão registradas por Dauril Alden em “O significado da produção de cacau na região amazônica do fim do período colonial”: 

Quando o âmbar foi mencionado na carta de Mendonça Furtado, como um dos itens comercializados no Exterior pelos jesuítas, este produto tinha amplas possibilidades de comercialização, em várias partes do mundo. 

Por esta razão, a beleza da sua cor amarelo-dourado, com diferentes matizes, já havia gerado conflitos em muitas circunstâncias anteriores, em diversos países, como registram Luciane Garcez, e, Sandra Makowiecky, no estudo “Hubert Duprat: uma poética entre territórios”. 

Pois, o âmbar era encarado como um elemento fundamental nos ornamentos pessoais, como pulseiras e colares, e nos projetosarquitetônicos, durante um período que se estendeu, desde antes do ano zero de nossa civilização, até muito depois. 

E ficou ligado à construção de uma estrada conhecida como Rota do Âmbar, pertencente ao Império Romano, então, sob regência César Augusto, no século I, que mais tarde adquiriu enorme extensão.

Fazendo com que a Rota do Âmbar ligasse o sítio romano de Carnuntum, perto da atual cidade de Viena, na Áustria, à comunidade de Aquiléia, na Província de Unide, na Itália.

A rota se integrou, assim, à fabulosa rede de estradas construídas pelos romanos, com seus 85 mil quilômetos, segundo Valter Pitta em “O fascinante universo da História”, ampliando a presença do âmbar pelo mundo. 

Por isto, não surpreende que, no mesmo período, o âmbar pudesseajudar a embelezar a história de construções tão distantes uma da outra. 

Como em Berlim, na Alemanha, onde o âmbar era o elemento essencial do trabalho de decoração de um quarto considerado como a 8ª Maravilha do Mundo, dentro do Palácio Real, em 1705.

Tragédias ligadas ao âmbar

Enquanto isto, em Belém, o âmbar ajudava os jesuítas a obterem recursos, com a sua inclusão entre os produtos exportados ilegalmente,para sustentar a produção de beleza na construção da Igreja de Santo Alexandre. 

Uma vez que, na igreja, naquele ano, o entalhador alemão Johann Treyer, tinha iniciado seu excepcional trabalho de decoração,esculpindo, com ajuda de índios, nos altares e nos púlpitos, em madeira, inúmeros cachos de uva, hastes, folhas de parreira, pelicanos, flores, margaridas, flores.

Os quais compõem, ainda hoje, um dos mais belos conjuntos de esculturas em madeira de Belém, como assinala Leandro Tocantins em “Santa Maria de Belém do Grão-Pará”

Entre as duas construções terminou surgindo outra identificação.

Isto ocorreu na natureza trágica do destino que ambas tiveram, a partir do ano de 1757, quando o contrabando de âmbar pelos jesuítas foi denunciado à corte portuguesa

Naquele ano, os painéis com âmbar da decoração do quarto do palácio de Berlim já tinham sido desmontados, acomodados em 18 caixas grandes, e, enviados para Leningrado, na Rússia. 

Porque Frederico Guilherme I, rei da Prússia, atual Alemanha, usou os painéis para presentear o Czar da Rússia, Pedro, o Grande, seu aliado nos confrontos contra a Suécia. 

Também já tinham sido montados na Casa de Inverno do czar, em Leningrado. 

E a Cezarina Elizabeth tinha-os transferido para um cômodo do seu palácio, em Tsarskoye Selo, perto de Leningrado.

Em 1941, os painéis foram roubados pelos nazistas, quando as tropas deles invadiram a Rússia, durante a 2ª Guerra Mundial. 

E, foram remetidos para a Alemanha. La, desapareceram. 

Mais de 3 décadas depois, em 1997, foram reencontrados, ainda na Alemanha, uma cômoda e um mosaico do quarto original âmbar do Palácio Real. 

A partir destas duas peças, teve início um paciente trabalho de recuperação da 8ª Maravilha do Mundo, no Palácio de Catarina, na Rússia. 

Em 2003, finalmente, o novo quarto de âmbar foi reinaugurado, lá. 

No Gram-Pará, em 1757, a carta do governador do Gram-Pará, Francisco Mendonça Furtado, com a acusação aos jesuístas, levou mais rancor contra a Companhia de Jesus, à corte portuguesa.

Três anos depois, os jesuítas foram expulsos do Gram-Pará, sob a acusação de terem provocado a ruína da administração do Estado. 

A punição foi ampliada, mais tarde, com a expulsão da ordem de Portugal e da França. 

E, em 1773, ela foi extinta pelo papa Clemente XIV. 

Somente 1817, a Companhia de Jesus foi restaurada por Pio VII.  

Hoje, os jesuítas são quase 20 mil, atuando em 112 países. 

Uma resina endurecida

O âmbar se origina na resina que as árvores produziam para se protegerem das perfurações de bactérias e insetos.

E que era transformada em âmbar quando perdia a água do seu interior, e, endurecia, com o passar de milhões de anos.

Ao se transformar num tipo de mineraloide de cor amarelada a resina endurecida aprisionava em seu interior  minúsculos organismos como os de insetos e aranhas, cujas formas davam-lhe ainda maior beleza, ao serlapidada e embutida em joias.

Sua aparência, além de esteticamente atraente, era, assim, também cercada de atraente mistério por causa desta sua formação demorada e estranha.

Não surpreende que, ao longo dos séculos, o âmbar tenha despertado o interesse de estudiosos do campo das ciências e de artistas. 

Um dos sábios da Antiguidade, Thales de Mileto, considerado o primeiro matemático grego, nascido por volta de 640, antes de Cristo, observou que o âmbar tem a propriedade de adquirir carga elétrica quando friccionado.

Mas, os joalheiros, no mundo todo, sempre associaram esta resina petrificada à proteção, sorte, força, cura, beleza e amor.

Hoje, o âmbar continua fascinando artistas e cientistas no mundo inteiro, inclusive, no Brasil.  

Em 1993, a indústria de cinema dos Estados Unidos lançaou um filme, dirigido por Steven Spielberg, no qual um milionário excêntrico monta um parque habitado por dinossauros, criados com o DNA de insetos extraídos de âmbar pré-histórico. 

Àquela altura, as rádios do Brasil tocavam músicas estrangeiras e nacionais cujas letras mencionavam o âmbar. 

“Ámbar”, do conjunto mexicano Plastiko, neste trecho: “

“Ámbar su color, todavia no sé que trae en su interior”. 

“El Amor Después del Amor”, do argentino Fito Paez, nestes versos: 

“Nada está aquí ni mejor ni peor solamente sus ojos cambian de color a una hora del día, si tíñen de un ámbar violeta”. 

E, “Âmbar”, da baiana Maria Betânia, no início da letra da música: 

“Está tudo aceso em mim, está tudo brilhando em mim, tudo ligado, como se eu fosse um morro iluminado, por um âmbar elétrico”.

Na área científica, a Fundação Oswaldo Cruz, do Ministério da Saúde, divulgou, em 2008, a pesquisa de José Dilermando Andrade, na qual ele conseguiu descrever 7 espécies de insetos encontrados em 93 amostras de âmbar, de 20 milhões de anos. 

(Ilustração: Joia russa renascentista com âmbar)

The Enchantment and Curse of Amber
in Gram-Pará, in the Year 1757

The situation of the religious builders of Gram-Pará was very delicate when amber appeared in the letter of May 23, 1757, written by Francisco Xavier Mendonça Furtado, governor of Gram-Pará, and addressed to Thomé Joaquim da Costa, Portugal’s Minister of the Navy.

For decades, the Jesuits, Franciscans, Mercedarians, and Carmelites of Gram-Pará had been acting contrary to the orders of the King of Portugal and of the Catholic Church itself.

They had transformed the spiritual authority over the villages granted to them by the Portuguese Crown into economic power through their monopoly over Indigenous slave labor.

This economic power enabled them to operate in the State as large landowners, merchants, and exporters of products from the Amazon rainforest.

It was through this power that the religious orders were able to gather the material resources invested in the construction of their gigantic and beautiful architectural complexes in Belém.

Those of the churches of Santo Alexandre, Mercês, and Carmo, as well as the Franciscan chapel and convent.

The price they paid for their boldness, however, was revealed in that letter: the strain caused by permanent conflicts with Portuguese settlers, with the government of Gram-Pará, with the Court in the Metropolis, and with the Catholic Church.

Because, as religious men, they were not allowed to accumulate landed property.

Since 1704, the Municipal Council of Belém had been complaining to the king that the missionaries were renouncing their spiritual obligations and were responsible for the impoverishment of Portugal’s subjects in Gram-Pará.

These complaints are recorded by Dauril Alden in “The Significance of Cocoa Production in the Amazonian Region at the End of the Colonial Period”:

When amber was mentioned in Mendonça Furtado’s letter as one of the items marketed abroad by the Jesuits, this product had considerable commercial potential in various parts of the world.

For this reason, the beauty of its golden-yellow color, with its different shades, had already generated conflicts on many previous occasions in various countries, as Luciane Garcez and Sandra Makowiecky record in the study “Hubert Duprat: A Poetics Between Territories.”

Amber was regarded as a fundamental element in personal ornaments, such as bracelets and necklaces, as well as in architectural projects, over a period extending from before the beginning of our civilization to long afterward.

It also became associated with the construction of a road known as the Amber Road, belonging to the Roman Empire, then under the rule of Caesar Augustus in the first century, which later acquired enormous length.

Thus, the Amber Road came to connect the Roman site of Carnuntum, near the present-day city of Vienna, Austria, with the community of Aquileia, in the Province of Unide, Italy.

The route thus became part of the fabulous network of roads built by the Romans, extending for 85,000 kilometers, according to Valter Pitta in “The Fascinating Universe of History,” thereby expanding the presence of amber throughout the world.

For this reason, it is not surprising that, during the same period, amber could help embellish the history of buildings so far apart from one another.
As in Berlin, Germany, where amber was the essential element in the decorative work of a room considered the Eighth Wonder of the World, inside the Royal Palace, in 1705

Tragedies Associated with Amber


Meanwhile, in Belém, amber was helping the Jesuits obtain resources through its inclusion among the products illegally exported to finance the creation of the artistic beauty of the Church of Santo Alexandre.


At the church, that same year, the German woodcarver Johann Treyer had begun his exceptional decorative work, carving, with the help of Indigenous people, numerous bunches of grapes, stems, vine leaves, pelicans, flowers, daisies, and blossoms in wood on the altars and pulpits.


These still constitute one of the most beautiful ensembles of wooden sculptures in Belém, as Leandro Tocantins points out in “Santa Maria de Belém do Grão-Pará.”


Another connection eventually emerged between the two buildings.


It lay in the tragic nature of the fate that befell both of them beginning in 1757, when the Jesuits’ smuggling of amber was denounced to the Portuguese court.


That year, the amber panels from the decoration of the room in the Berlin palace had already been dismantled, packed into 18 large crates, and sent to Leningrad, Russia.


This was because Frederick William I, King of Prussia, in what is now Germany, used the panels as a gift to Peter the Great, Tsar of Russia, his ally in the conflicts against Sweden.


They had also already been installed in the Tsar’s Winter House in Leningrad.


Empress Elizabeth then transferred them to a room in her palace at Tsarskoye Selo, near Leningrad.


In 1941, the panels were stolen by the Nazis when their troops invaded Russia during the Second World War.


They were sent to Germany. There, they disappeared.


More than three decades later, in 1997, a chest of drawers and a mosaic from the original Amber Room of the Royal Palace were rediscovered, still in Germany.


These two pieces became the starting point for the painstaking restoration of the Eighth Wonder of the World at the Catherine Palace in Russia.


Finally, in 2003, the new Amber Room was reopened there.


In Gram-Pará, in 1757, the letter from the governor of Gram-Pará, Francisco Mendonça Furtado, accusing the Jesuits, intensified resentment against the Society of Jesus at the Portuguese court.


Three years later, the Jesuits were expelled from Gram-Pará on the grounds that they had caused the ruin of the administration of the State.


The punishment was later extended with the expulsion of the order from Portugal and France.


And, in 1773, it was suppressed by Pope Clement XIV.


It was only in 1817 that the Society of Jesus was restored by Pius VII.


Today, there are nearly 20,000 Jesuits working in 112 countries.

A hardened resin

Amber originates from the resin that trees produced to protect themselves from the perforations of bacteria and insects.

It was transformed into amber when it lost the water inside and hardened over millions of years.

As it transformed into a type of yellowish mineraloid, the hardened resin trapped tiny organisms inside, such as insects and spiders, whose shapes gave it even greater beauty when it was cut and embedded in jewelry.

Its appearance, besides being aesthetically attractive, was also surrounded by an alluring mystery because of its slow and strange formation.

It is not surprising that, throughout the centuries, amber has aroused the interest of scholars in the field of science and artists.

One of the wise men of Antiquity, Thales of Miletus, considered the first Greek mathematician, born around 640 BC, observed that amber has the property of acquiring an electrical charge when rubbed.

But jewelers around the world have always associated this petrified resin with protection, luck, strength, healing, beauty, and love.

Today, amber continues to fascinate artists and scientists worldwide, including in Brazil.

In 1993, the United States film industry released a movie, directed by Steven Spielberg, in which an eccentric millionaire builds a park inhabited by dinosaurs, created with the DNA of insects extracted from prehistoric amber.

At that time, Brazilian radio stations were playing foreign and national songs whose lyrics mentioned amber.

“Ámbar,” by the Mexican group Plastiko, in this excerpt: “

“Ámbar su color, todavia no sé que trae en su interior.”

“El Amor Después del Amor,” by the Argentinian Fito Paez, in these verses:

“Nothing is here, neither better nor worse, only her eyes change color at one hour of the day, if they turn violet amber.”

And, “Âmbar,” by Maria Betânia from Bahia, at the beginning of the song’s lyrics:

“Everything is lit up in me, everything is shining in me, everything is connected, as if I were a hill illuminated by an electric amber.”

In the scientific field, the Oswaldo Cruz Foundation, of the Ministry of Health, released, in 2008, the research of José Dilermando Andrade, in which he managed to describe 7 species of insects found in 93 samples of amber, 20 million years old.

(Illustration: Russian jewel Renaissance with amber)

Tags: culturaDestaqueGram-ParáHistóriaMaldição
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Oswaldo Coimbra

Oswaldo Coimbra

Oswaldo Coimbra é escritor, jornalista e pesquisador.

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