Antes de assumir a pasta, ministro teve envolvimento com faculdades descredenciadas, suspensas do Fies e uma construtora na lista de devedores da PGFN
Brasília – Empresas anteriormente geridas ou com vínculos diretos com o atual Ministro do Turismo, Gustavo Feliciano, acumulam uma série de crises financeiras e sanções aplicadas pelo governo federal, totalizando dívidas de cerca de R$ 3 milhões com o poder público. Embora o nome do indicado ter sido submetido ao escrutínio do Palácio do Planalto para garantir que sua indicação pelo partido União Brasil não trouxesse desgastes jurídicos ou éticos ao governo, as “capivaras” de um passado empresarial em crise, não foram suficientes para impedir sua nomeação, considerada estratégica para assegurar a governabilidade e confirmada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que curiosamente é só elogios ao ex-ministro Celso Sabino (sem partido).
E o que não falta ao novo ministro são “capivaras”. Faculdades e uma construtora, ligadas ao número um do Turismo, enfrentaram descredenciamento, suspensão de programas de financiamento estudantil e um volume expressivo de ações trabalhistas, conforme informações reveladas pelo jornal O Globo.
A trajetória empresarial do ministro, membro de uma dinastia política da Paraíba, ele é filho do deputado federal Damião Feliciano (União-PB), ex-PDT, e da ex-vice-governadora Lígia Feliciano, vem à tona no contexto de sua indicação ao cargo pelo presidente Lula, com o aval do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), num movimento de aproximação mal contada, com o Centrão.
A crise empresarial de Gustavo Feliciano atinge principalmente o setor educacional, com duas instituições de ensino superior diretamente ligadas ao ministro em situações delicadas. A Faculdade de Ciências e Tecnologias de Natal (Faciten), da qual o ministro foi sócio, foi descredenciada pelo Ministério da Educação (MEC) em novembro de 2025.
O descredenciamento, considerado a sanção mais severa aplicada a uma instituição de ensino superior, ocorreu por “falhas na prestação de serviços educacionais”, após um processo administrativo instaurado em 2024.
A instituição, que oferecia cursos de Administração, Direito e Enfermagem, teve sua mantenedora, a União de Ensino Superior da Paraíba (Unipb), proibida de apresentar novos pedidos de credenciamento por dois anos.
A Unipb, por sua vez, está inscrita na dívida ativa da União, registrando débitos de R$ 334 mil, majoritariamente relacionados a questões trabalhistas. Embora o ministro tenha sido sócio e presidente da firma, e seu irmão Renato Feliciano apareça como atual representante legal no cadastro do MEC, a empresa está, atualmente, em nome de Soraya Rouse Santos Araújo, secretária parlamentar do pai do ministro desde 2023.
A transferência da titularidade ocorreu quando as faculdades já se encontravam inoperantes, e a nova sócia não respondeu sobre se tratava-se de uma aquisição.
Paralelamente, a Faculdade de Campina Grande, outra instituição de ensino com a qual o ministro mantém vínculos, foi suspensa do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) em julho de 2025.
A suspensão se deu pela falta de envio de informações para o Censo da Educação Superior. A faculdade encontra-se inoperante desde, pelo menos, 2024. Sua mantenedora, a União de Ensino Superior de Campina Grande (Unesc-PB), da qual Gustavo Feliciano ainda figura como diretor-presidente na plataforma e-MEC e seu irmão Renato é sócio, apresenta um histórico prolongado de dificuldades financeiras e problemas trabalhistas.
Ex-professores ouvidos pelo Globo relatam que a Unesc-PB, credenciada em 2003, não funciona, no mínimo, desde 2024, apesar de ainda constar como ativa nos sistemas do MEC e habilitada a ofertar oito cursos de graduação.
As dificuldades operacionais da Unesc-PB se arrastam há anos. Ex-funcionários relatam atrasos no pagamento de salários e no recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) em diversas ocasiões, com a instituição respondendo a um total de 313 ações trabalhistas no Tribunal Regional do Trabalho da 13ª Região.
Um ex-funcionário, que lecionou por mais de uma década, afirma que os atrasos salariais datam de pelo menos 2012. Esse período de crise foi marcado, segundo relatos, por indignação entre os funcionários diante de publicações de Gustavo Feliciano no Instagram sobre uma viagem ao Japão para assistir à final do Mundial de Clubes em uma época de dificuldades financeiras da faculdade.
A situação se agravou com a pandemia, que comprometeu ainda mais a infraestrutura para o ensino remoto, levando a uma queda drástica no número de alunos, de cerca de 2.600 em seu auge no início dos anos 2010 para aproximadamente 300 em 2022, resultando na demissão de grande parte do corpo funcional.
Entre os processos trabalhistas, um dos casos culminou em vitória em primeira instância para o autor, que alegava falta de pagamento de salários, da rescisão e ausência de recolhimento de FGTS de 2018 até 2022.
Em outro processo, uma ex-professora revelou ter trabalhado na faculdade por mais de um ano, entre 2016 e 2017, sem registro em carteira, resultando em um acordo judicial de R$ 24 mil em 2023.
A Unesc-PB também foi alvo de novas ações judiciais em 2022 e 2023 por atrasar o pagamento de parcelas de acordos judiciais firmados para encerrar reclamações trabalhistas anteriores.
A gravidade da situação financeira da Unesc-PB é evidenciada por sua inclusão no rol de devedores da União, com um débito de R$ 2,59 milhões, de acordo com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN). Desse montante, R$ 1,6 milhão corresponde a dívidas previdenciárias, R$ 338,8 mil a multas trabalhistas e R$ 603 mil a passivos relacionados ao FGTS.
Construtora figura na lista de devedores da PGFN
Além do ramo educacional, o ministro Gustavo Feliciano também possui vínculos no setor imobiliário. Ele é sócio da GCF Construções e Empreendimentos Imobiliários, empresa sediada em Campina Grande.
Esta construtora também figura na lista de devedores da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), que lista os contribuintes que estão inscritos em dívida ativa da União e do FGTS. OS registros apontam um passivo de cerca de R$ 200 mil, dos quais R$ 184 mil são referentes a débitos previdenciários. Assim como no caso da Unipb, a GCF Construções também foi transferida para o nome de Soraya Rouse Santos Araújo.
A trajetória política de Gustavo Feliciano se entrelaça com sua história empresarial. Antes de assumir o Ministério do Turismo, ele atuou como secretário estadual de Turismo e Desenvolvimento Econômico da Paraíba entre 2019 e 2021, durante o governo de João Azevedo (PSB).
Sua indicação ao ministério foi articulada para fortalecer a relação do governo federal com o Centrão, destacando-se como um aliado de Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados.
O ministro substituiu Celso Sabino, que reassumiu seu mandato de deputado federal após ser expulso pelo União Brasil por recusar-se a deixar o cargo quando o partido sinalizou uma ruptura com o presidente Lula.
Procurado pelo jornal carioca para comentar as alegações e os débitos das empresas, o ministro Gustavo Feliciano não se manifestou. Seu irmão, Renato Feliciano, sócio-administrador da mantenedora da Faculdade de Campina Grande, afirmou que o ministro “não é mais sócio, nem representante legal, das empresas” e que “as dívidas trabalhistas estão sendo todas negociadas caso a caso”.
Soraya Rouse Santos Araújo, atualmente responsável pelas empresas, também não respondeu às tentativas de contato.
Em síntese, a análise do histórico das empresas ligadas ao ministro do Turismo, Gustavo Feliciano, revela um padrão de dificuldades financeiras, falhas na gestão e acúmulo de débitos significativos junto a órgãos federais.
O descredenciamento de uma faculdade, a suspensão de outra do Fies, e a vasta quantidade de processos trabalhistas e dívidas previdenciárias e de FGTS levantam questões substanciais sobre a gestão empresarial que precedeu a atual função ministerial de Feliciano, cujas implicações políticas e administrativas permanecem como um ponto de atenção.
A controversa substituição, intriga observadores do cenário político, que não conseguem entender os motivos reais que imprimiram a velocidade com que se deu a crise que atingiu o ex-ministro Celso Sabino, que ressignificou a importância do estratégico Ministério do Turismo, e a rápida substituição por um indicado do mesmo partido que gerou a turbulência, cujas credenciais administrativas são questionáveis.
O espaço está aberto e será atualizado caso haja manifestação dos citados.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















