Inversão
Flávio Bolsonaro (PL) aparece pela primeira vez numericamente à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em uma simulação de segundo turno da pesquisa BTG/Nexus, divulgada nesta terça-feira (8). O senador marca 46% das intenções de voto, contra 45% do presidente, diferença de um ponto percentual dentro da margem de erro, o que configura empate técnico. Na rodada anterior, o placar era o inverso: Lula 46%, Flávio 45%. A menos de um mês do primeiro turno, é o dado mais eloquente da série do instituto.
Crise
O levantamento foi a campo entre 4 e 7 de setembro, em meio a quase uma semana de turbulência no Supremo Tribunal Federal. A divulgação de conversas entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e a retirada de sigilo de um relatório da Polícia Federal pelo ministro André Mendonça escancararam divisões na Corte, com a PGR chegando a pedir a nulidade do documento. O instituto não atribui a oscilação ao episódio, mas a crise atravessou o período da coleta e contamina a reta final da campanha.
Liderança
No primeiro turno, Lula mantém a liderança com 39%, mesmo percentual da rodada anterior. Flávio avançou de 33% para 35%, reduzindo de 6 para 4 pontos a distância para o presidente. Augusto Cury, que havia saltado para 11%, recuou para 9%. Ronaldo Caiado marca 4%, ante 5%, enquanto Renan Santos subiu de 3% para 4%. Romeu Zema, Samara e Rui Costa Pimenta têm 1% cada. Brancos e nulos somam 3%, e 2% não souberam ou não responderam.
Espontânea
O único dado inequivocamente favorável ao presidente está na pesquisa espontânea, em que o eleitor cita o nome sem receber lista. Lula avançou de 37% para 39%, seu melhor resultado na série, enquanto Flávio oscilou de 30% para 31% e Cury recuou de 8% para 6%. O avanço sugere que a lembrança do nome do presidente permanece forte, ainda que a vantagem no confronto direto tenha se invertido numericamente.
Cenários
Pela primeira vez, a Nexus testou um segundo turno entre Lula e Augusto Cury, do Avante: o escritor aparece com 45%, ante 43% do presidente, também em empate técnico. Contra os demais adversários, Lula segue numericamente à frente: 46% a 43% diante de Caiado, 47% a 40% contra Zema e 47% a 39% frente a Renan Santos. O dado revela um eleitorado de centro em movimento, disposto a migrar para nomes fora da polarização clássica.
Rejeição
Os dois principais candidatos permanecem em patamares elevados e praticamente idênticos de rejeição: Flávio é rejeitado por 50% e Lula, por 49%. O perfil, porém, é distinto. Lula enfrenta os maiores índices no Sul, com 70%, entre evangélicos, 62%, e entre quem ganha mais de cinco salários mínimos, 59%. Flávio é mais rejeitado no Nordeste, 64%, entre pessoas sem religião, 67%, e entre eleitores de até um salário mínimo, 59%.
Potencial
No potencial de voto, Lula e Flávio aparecem empatados em 47% cada, mas a composição difere. O presidente tem 35% de voto exclusivo e 12% de potencial adicional; o senador, 26% de voto exclusivo e 21% de eleitores que poderiam escolhê-lo ou outro nome. Cury exibe potencial de 42%, Caiado, de 39%, Zema, de 33%, e Renan Santos, de 24%. O dado sugere que há mais espaço de crescimento na periferia do que no centro da disputa.
Consolidação
O eleitorado está mais decidido do que na rodada anterior: 81% afirmam que a decisão já está tomada, ante 78%, enquanto os que admitem trocar caíram de 21% para 17%. A base de Lula é a mais consolidada, com 90% de fidelidade, seguida pela de Flávio, com 84%. A rigidez do voto reduz a margem de manobra das campanhas e eleva o peso dos indecisos e dos que ainda podem migrar.
Segunda opção
Entre os 17% que ainda admitem mudar de voto, Augusto Cury é a principal segunda opção, com 20%, seguido por Flávio, com 17%, Caiado, com 12%, Lula, com 10%, Renan Santos, com 7%, e Zema, com 6%. Os pisos e tetos calculados pela Nexus reforçam a leitura: Lula varia de 35% a 41%, Flávio, de 29% a 38%, e Cury, de 5% a 12%. O escritor concentra o voto de protesto e o eleitorado flutuante.
Governo
A avaliação do governo segue desfavorável ao presidente. A aprovação oscilou de 46% para 45%, enquanto a desaprovação passou de 51% para 50%, mantendo a diferença de 5 pontos. O levantamento indica ainda que 45% dos eleitores afirmam ter acompanhado algum programa ou propaganda do horário eleitoral gratuito no rádio ou na televisão — sinal de que a reta final ainda pode movimentar os números.
Polarização
A percepção de polarização cresceu: 71% concordam que a eleição de 2026 está sendo impactada por ela, ante 65% em agosto. Entre o total de entrevistados, 43% dizem concordar com a existência do fenômeno e estar cansados ou desconfortáveis com ele. O cansaço é maior entre eleitores de outros candidatos, 72%, do que entre os de Lula, 34%, e os de Flávio, 42%. O desgaste com o embate abre espaço para alternativas.
PT
O aumento da desaprovação, que varia de 3 a 7 pontos conforme o levantamento, provocou incômodo dentro do PT e abriu nova rodada de críticas à condução da campanha. Dirigentes ouvidos reservadamente atribuem parte da piora a erros na coordenação política e na comunicação, atingindo o núcleo próximo ao presidente, que inclui Sidônio Palmeira e a primeira-dama Janja da Silva. Há queixas sobre a divisão de funções e o peso de decisões tomadas por um grupo considerado restrito.
Ataques
Para arguto conhecedor de marketing político, a campanha de Lula apostou alto e errou ao atacar Flávio Bolsonaro na estréia da campanha na TV e no Rádio com a peça que rotula o adversário Flávio: O pior dos Bolsonaros. “Erro infantil de quem faz campanha com o fígado”, disse a fonte à Coluna.
Implicações
A menos de um mês do primeiro turno, o cenário desenhado pela BTG/Nexus impõe leituras incômodas ao Palácio do Planalto. A inversão numérica no segundo turno, ainda que dentro do empate técnico, reforça a percepção de desgaste do governo e alimenta a cobrança interna por ajustes. A crise no STF, ao atravessar a coleta dos dados, adiciona incerteza a uma disputa já marcada pela polarização e pelo eleitorado cansado. A reta final será decidida menos pela fidelidade das bases e mais pela capacidade de cada campanha de capturar o eleitorado flutuante.
Val-André Mutran é repórter especial do Portal Ver-o-Fato e está sediado em Brasília.
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