A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou no sábado (16) que o surto de Ebola registrado na República Democrática do Congo (RDC) e em Uganda representa uma “emergência de saúde pública de preocupação internacional”. A epidemia é causada pelo vírus Bundibugyo, uma das espécies conhecidas do Ebola, e já provoca preocupação global devido ao aumento no número de casos, mortes suspeitas e à ausência de vacinas aprovadas para essa variante.
Apesar da gravidade da situação, a OMS afirmou que o surto ainda não atende aos critérios para ser classificado como uma “emergência pandêmica”. Ainda assim, autoridades sanitárias internacionais acompanham com atenção a disseminação da doença, principalmente por envolver áreas de fronteira entre países africanos.
O que é o Ebola
O Ebola é uma doença grave e frequentemente fatal transmitida pelo contato direto com fluidos corporais de pessoas infectadas, segundo o Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças (CDC África). A transmissão também pode ocorrer pelo contato com materiais contaminados ou com pessoas que morreram em decorrência da doença.
Os sintomas iniciais geralmente incluem febre, fadiga, dores musculares, dor de cabeça e dor de garganta. Com a progressão da enfermidade, podem surgir vômitos, diarreia, dores abdominais e, em casos mais graves, sangramentos internos e externos.
De acordo com a OMS, existem seis espécies conhecidas do vírus relacionadas ao Ebola. No entanto, apenas três são responsáveis pela maioria dos grandes surtos: o vírus Ebola, o vírus do Sudão e o vírus Bundibugyo, identificado como responsável pela atual epidemia.
Mortes e casos confirmados
Na República Democrática do Congo, o surto já contabiliza pelo menos 80 mortes suspeitas, além de oito casos confirmados laboratorialmente e 246 casos suspeitos notificados até sábado (16). Os registros se concentram na província de Ituri, região remota localizada no nordeste do país, próxima à fronteira com Uganda.
A OMS chegou a informar no domingo que um novo caso havia sido confirmado na capital congolesa, Kinshasa. Posteriormente, a organização esclareceu que o indivíduo “testou negativo para o vírus Bundibugyo em testes de confirmação”.
Na cidade de Goma, localizada no leste da RDC, ao menos um caso de Ebola foi identificado, segundo um porta-voz da coligação rebelde AFC/M23, apoiada por Ruanda, que tomou a cidade durante uma ofensiva realizada no ano passado.
Em Uganda, até o momento, foram registrados dois casos confirmados laboratorialmente, incluindo uma morte, na capital Kampala. Segundo a OMS, os dois pacientes não apresentavam ligação aparente entre si, mas ambos haviam viajado para a República Democrática do Congo.
O gabinete de comunicação social de Uganda informou no sábado que o corpo de um homem congolês que morreu em Kampala foi devolvido à RDC. O segundo paciente permanece internado em tratamento. Em publicação na rede X, o órgão afirmou: “Não há motivo para alarme”.
Taxa de mortalidade preocupa especialistas
A OMS informou que as taxas de mortalidade do Ebola variaram entre 25% e 90% em surtos anteriores. A média geral gira em torno de 50%.
No caso específico da cepa Bundibugyo, a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) estima que a taxa de mortalidade esteja entre 25% e 40%.
Diante da rápida evolução do surto, a MSF anunciou que está se preparando para ampliar sua atuação na província de Ituri.
“O número de casos e mortes que estamos vendo em um período de tempo tão curto, combinado com a propagação por diversas áreas e agora além da fronteira, é extremamente preocupante”, declarou Trish Newport, gerente do programa de emergência da MSF.
Ela também destacou as dificuldades enfrentadas pela população local. “Em Ituri, muitas pessoas já lutam para ter acesso aos cuidados de saúde e vivem com uma insegurança contínua, tornando crítica uma ação rápida para evitar que o surto se agrave ainda mais”, afirmou em comunicado.
No ano passado, outro surto de Ebola matou 45 pessoas em uma região remota da província de Kasai, na RDC, segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos.
Ausência de vacina e temor de propagação internacional
Especialistas em saúde alertam que ainda não existem tratamentos aprovados nem vacinas específicas contra o vírus Bundibugyo, fator que amplia a preocupação das autoridades sanitárias.
Outra preocupação central é o risco de disseminação internacional da doença. Países que fazem fronteira com a República Democrática do Congo são considerados de “alto risco de propagação adicional”.
Ações para conter a epidemia
Organizações humanitárias, como a Médicos Sem Fronteiras, estão mobilizando respostas em grande escala para tentar conter a epidemia o mais rapidamente possível.
Paralelamente, a coordenação internacional vem sendo reforçada para evitar a propagação do vírus para outros países. O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, elogiou a República Democrática do Congo e Uganda pela “franqueza” na avaliação do risco que o surto representa para outras nações.
Segundo a OMS, Tedros pretende convocar “o mais rapidamente possível” um comitê de emergência para discutir a situação e definir orientações internacionais sobre a resposta à crise sanitária.
Reunião de emergência da OMS
A Organização Mundial da Saúde confirmou ainda que realizará nesta terça-feira uma reunião do comitê de emergência para discutir o avanço do surto na República Democrática do Congo.
Segundo a agência, o encontro abordará o cenário da doença, que já matou cerca de 131 pessoas.
“Uma reunião do Comitê de Emergência está agendada para hoje”, afirmou um porta-voz da OMS à AFP, dois dias após o chefe da agência declarar o surto uma emergência de saúde pública internacional.















