Levantamento do Ver-o-Fato analisou 15 emendas entre 2023 e 2026 e detalhou R$ 72,6 milhões em transferências especiais, com recursos para estradas vicinais, pavimentação, saúde, educação, máquinas e equipamentos
A deputada federal Elcione Barbalho (MDB-PA) teve R$ 149,34 milhões empenhados em 15 emendas individuais entre 2023 e 2026. O levantamento do Ver-o-Fato feitos em fontes oficias com o VOF Intelligence* mostra que a saúde e as transferências especiais concentram praticamente todos esses recursos. A análise dos Planos de Ação registrados no Transferegov também permitiu identificar as finalidades apresentadas pelo governo do Estado e pelos municípios para a aplicação de dezenas de milhões de reais repassados por meio das chamadas emendas PIX.
As quatro transferências especiais analisadas somam R$ 72,56 milhões. Nos documentos associados a elas aparecem projetos de pavimentação de estradas vicinais e vias urbanas, construção de Centro de Eventos, aquisição de mobiliário escolar, ambulância, máquinas pesadas, equipamentos públicos e ações de assistência social.
As outras 11 emendas, de finalidade definida, representam R$ 76,78 milhões. Desse montante, R$ 76,68 milhões estão vinculados à saúde.
No recorte territorial, a investigação conseguiu associar R$ 62,76 milhões a 50 municípios paraenses. Marituba lidera a lista, seguida por Benevides, Moju, Mocajuba e Cametá.
| Indicador | Resultado |
|---|---|
| Emendas analisadas | 15 |
| Valor empenhado | R$ 149,34 milhões |
| Transferências especiais (PIX) | 4 |
| Valor empenhado em PIX | R$ 72,56 milhões |
| Emendas de finalidade definida | 11 |
| Valor das emendas de finalidade definida | R$ 76,78 milhões |
| Recursos associados a municípios | R$ 62,76 milhões |
| Municípios identificados | 50 |
| Planos de Ação PIX encontrados | 60 |
O que existe dentro das emendas PIX
A análise do Ver-o-Fato foi além dos registros financeiros das transferências especiais.
No Transferegov, foram localizados 60 Planos de Ação relacionados às quatro emendas PIX de Elcione. Esses documentos são importantes porque permitem identificar beneficiários, objetos e metas apresentados para a utilização dos recursos.
É nessa documentação que aparecem projetos que não são perceptíveis quando se observam apenas o código e o valor de uma emenda.
Em 2023, por exemplo, R$ 5 milhões destinados ao Estado do Pará foram vinculados a um Plano de Ação para a construção de um Centro de Eventos.
No mesmo ano, Marituba aparece com R$ 3 milhões para pavimentação de vias; Moju, com R$ 2 milhões para aquisição de máquinas; Mocajuba, com R$ 1 milhão para revitalização de praças; e Benevides, com R$ 1 milhão relacionado à revitalização e à ampliação de prédio público.
Outros planos preveem ponte em Colares, ambulância em Bragança, veículo para a Defesa Civil de Nova Ipixuna, infraestrutura de assistência social em Gurupá e unidade de saúde rural em Bagre.
O conjunto revela que as transferências especiais da deputada contemplam projetos de naturezas bastante distintas.
Mobiliário escolar e 35 quilômetros de vicinais
Em 2024, uma transferência de aproximadamente R$ 2,34 milhões ao Estado do Pará aparece vinculada à aquisição de mobiliário escolar.
Nos municípios, os objetos registrados mostram novamente forte presença de investimentos em infraestrutura.
Em Moju, R$ 2 milhões foram associados a serviços de engenharia em 35 quilômetros de estradas vicinais. Marituba aparece com outros R$ 2 milhões para pavimentação. Em Breves, R$ 2 milhões foram destinados ao Mirante de Sant’Ana.
Cametá recebeu um plano de R$ 1,5 milhão relacionado a serviços de terraplenagem e acessos; Tomé-Açu, R$ 1 milhão para pavimentação urbana; e Tailândia, R$ 1 milhão relacionado à saúde.
Também há projetos envolvendo praças, pavimentação, equipamentos para a assistência social, reforma de centro cultural, reforma de CRAS e intervenções em escolas.
O conjunto começa a revelar um padrão que se torna ainda mais evidente nos anos seguintes: a infraestrutura urbana e rural ocupa espaço relevante entre os objetos das transferências especiais.
Quase R$ 18 milhões para estradas vicinais
A maior destinação estadual identificada nos Planos de Ação aparece em 2025.
São R$ 17,91 milhões destinados ao Estado do Pará para pavimentação de estradas vicinais.
O valor representa a maior parte da transferência especial daquele ano e chama atenção não apenas pelo montante, mas também pela abrangência potencial de um investimento dessa natureza.
Os dados consultados pelo Ver-o-Fato permitem identificar a finalidade geral registrada no Plano de Ação, mas não oferecem elementos suficientes para atribuir o montante a municípios ou estradas específicos sem documentação oficial que faça essa individualização.
Por essa razão, os R$ 17,91 milhões permanecem classificados no levantamento como recurso estadual e não foram distribuídos artificialmente entre municípios.
A deputada foi questionada sobre quais estradas, localidades ou regiões deveriam ser alcançadas pelo investimento, mas não respondeu até o fechamento da reportagem.
Dois planos relacionados à aquisição de ambulância
A investigação sobre os recursos de 2025 também encontrou uma situação que demonstra a necessidade de verificar o status dos Planos de Ação antes de somar seus valores.
Em Cachoeira do Piriá aparecem dois planos de R$ 297 mil, ambos relacionados à aquisição de ambulância.
Um deles está aprovado. O outro consta como impedido e aguarda envio para análise.
Isso significa que os dois registros não podem ser simplesmente somados e apresentados como R$ 594 mil em destinações vigentes.
Depois de separado o plano impedido e realizada a conciliação com os demais registros financeiros da emenda, os valores coincidem com o montante oficial correspondente.
O plano impedido permanece documentado na apuração, mas não é tratado como uma segunda destinação vigente.
Máquinas e pavimentação ganham espaço em 2026
Os Planos de Ação de 2026 reforçam a presença de investimentos em infraestrutura.
Cachoeira do Piriá, Cametá e Benevides aparecem com projetos de aproximadamente R$ 1,99 milhão cada.
Em Cametá, o objeto prevê cerca de 1.780 metros de pavimentação urbana. Em Benevides, o recurso está relacionado à revitalização e à urbanização de uma área pública.
Bragança tem projeto de recapeamento; Oeiras do Pará e Mocajuba aparecem com pavimentação; e Rondon do Pará, com aquisição de caminhão compactador de lixo.
Há também um conjunto de planos voltados à aquisição de máquinas destinadas principalmente à infraestrutura rural.
Colares aparece com caminhão basculante e carregadeira; Nova Ipixuna, com caminhões basculantes; Cumaru do Norte, com motoniveladora; Rio Maria, com retroescavadeira; e Pau D’Arco, com carregadeira.
Em Conceição do Araguaia, o Plano de Ação menciona a aquisição de equipamentos e a complementação de outro plano associado a uma emenda do senador Jader Barbalho para a aquisição de uma motoniveladora.
O registro mostra como recursos indicados por parlamentares diferentes podem participar do financiamento de um mesmo investimento municipal.
- Centro de Eventos
- Pavimentação de estradas vicinais
- Pavimentação urbana
- Mobiliário escolar
- Ambulância
- Motoniveladora
- Retroescavadeira
- Caminhões basculantes
- Caminhão compactador de lixo
- Revitalização de praças e espaços públicos
- Equipamentos para assistência social
Plano de R$ 995 mil para Tailândia está impedido
Outro caso que exigiu depuração aparece na emenda PIX de 2026.
Entre os 19 Planos de Ação localizados, havia um de R$ 995 mil para pavimentação urbana em Tailândia, atualmente registrado como impedido, com o Plano de Trabalho em complementação.
A soma indiscriminada de todos os registros chegaria a R$ 20,03 milhões, valor superior ao montante da própria emenda.
Quando o plano impedido é separado, os demais registros somam R$ 19.030.370, exatamente o valor empenhado da transferência especial.
O caso reforça uma cautela adotada em todo o levantamento: a existência de um registro no Transferegov não significa, necessariamente, que ele deva ser contabilizado como destinação vigente.
A assessoria de Elcione foi questionada sobre a situação do projeto de Tailândia e sobre a permanência da destinação. Não houve resposta.
Marituba encabeça os destinos municipais
Quando os recursos são organizados territorialmente, 50 municípios aparecem associados a R$ 62,76 milhões.
Marituba ocupa a primeira posição, com R$ 8,42 milhões, seguida por Benevides, com R$ 5,39 milhões; Moju, com R$ 4,3 milhões; Mocajuba, com R$ 3,995 milhões; e Cametá, com R$ 3,99 milhões.
Juntos, esses cinco municípios concentram cerca de 41,6% do montante municipal identificado.
A presença deles também não é apenas episódica.
Marituba, Benevides, Cachoeira do Arari, Bom Jesus do Tocantins e Nova Ipixuna aparecem como destinos de recursos nos quatro anos analisados.
Outros dez municípios aparecem em três anos: Mocajuba, Colares, Rondon do Pará, Moju, Cametá, Tailândia, Augusto Corrêa, Santa Cruz do Arari, Gurupá e Santarém Novo.
| Pos. | Município | Valor |
|---|---|---|
| 1 | Marituba | R$ 8.420.993 |
| 2 | Benevides | R$ 5.390.000 |
| 3 | Moju | R$ 4.300.000 |
| 4 | Mocajuba | R$ 3.995.000 |
| 5 | Cametá | R$ 3.990.000 |
| 6 | Breves | R$ 2.400.000 |
| 7 | Tailândia | R$ 2.300.000 |
| 8 | Cachoeira do Piriá | R$ 2.287.000 |
| 9 | Cachoeira do Arari | R$ 2.100.000 |
| 10 | Bom Jesus do Tocantins | R$ 2.095.000 |
| 11 | Almeirim | R$ 2.000.000 |
| 12 | Colares | R$ 1.999.431,21 |
| 13 | Rondon do Pará | R$ 1.994.275 |
| 14 | Santo Antônio do Tauá | R$ 1.867.870 |
| 15 | Nova Ipixuna | R$ 1.795.000 |
| 16 | Tomé-Açu | R$ 1.400.000 |
| 17 | Augusto Corrêa | R$ 1.300.000 |
| 18 | Oeiras do Pará | R$ 1.295.000 |
| 19 | Ponta de Pedras | R$ 1.200.000 |
| 20 | Bragança | R$ 1.146.699 |
| 21 | Santa Cruz do Arari | R$ 1.087.993 |
| 22 | Gurupá | R$ 1.047.500 |
| 23 | Xinguara | R$ 1.000.000 |
| 24 | Conceição do Araguaia | R$ 995.000 |
| 25 | Santarém Novo | R$ 900.000 |
Votos e emendas desenham mapas diferentes
Elcione recebeu 175.498 votos no Pará nas eleições de 2022.
O cruzamento entre a votação e os recursos territorializados mostra que o mapa eleitoral e o mapa das emendas apresentam algumas coincidências, mas também diferenças relevantes.
Marituba é um exemplo de convergência: Elcione recebeu 10.160 votos no município, que aparece com R$ 8,42 milhões em recursos rastreados. Em Moju, foram 6.801 votos e R$ 4,3 milhões; em Cametá, 6.213 votos e R$ 3,99 milhões; e, em Benevides, 5.700 votos e R$ 5,39 milhões.
Em outros casos, os dois indicadores estão distantes.
Almeirim aparece com R$ 2 milhões e apenas 59 votos para Elcione em 2022. Xinguara registrou 33 votos e R$ 1 milhão em recursos rastreados. Em Conceição do Araguaia, foram 192 votos e R$ 995 mil.
Na outra ponta está Belém, maior base eleitoral da parlamentar naquele pleito, com 37.425 votos, mas sem recursos classificados como destinação municipal no recorte adotado pelo levantamento.
Ananindeua, onde Elcione recebeu 8.035 votos, também não aparece entre os destinos municipais rastreados.
Esses dados não demonstram relação de causa e efeito entre votação e distribuição de emendas. A comparação serve para observar duas geografias distintas — a eleitoral e a orçamentária — e mostra, inclusive, que recursos chegaram a municípios nos quais a votação da parlamentar foi reduzida.
Por que os milhões do Estado não foram atribuídos a Belém
A ausência de Belém no ranking municipal exige uma explicação.
O levantamento encontrou recursos destinados ao Estado do Pará e ao Fundo Estadual de Saúde, cujas estruturas administrativas estão localizadas na capital.
Esses valores não foram contabilizados como recursos destinados ao município de Belém.
A mesma regra foi aplicada aos intermediários financeiros e a uma entidade específica sediada na cidade.
A razão é simples: o endereço administrativo do beneficiário não comprova o território no qual o dinheiro será aplicado.
O aprofundamento nos Planos de Ação demonstra a importância dessa distinção. Os R$ 17,91 milhões registrados para o Estado em 2025, por exemplo, estão associados à pavimentação de estradas vicinais. Portanto, não podem ser classificados como investimento municipal em Belém apenas porque a administração estadual está sediada na capital.
Uma das 15 emendas permanece em revisão
Há uma ressalva financeira no conjunto analisado.
Uma emenda de 2025 destinada à atenção primária à saúde, com R$ 11,28 milhões empenhados, apresenta diferenças entre as camadas oficiais consultadas.
A base consolidada registra aproximadamente R$ 9,24 milhões liquidados. Já a documentação financeira permitiu rastrear cerca de R$ 8,09 milhões em pagamentos associados aos fundos municipais identificados.
Por essa razão, o Ver-o-Fato não distribuiu a diferença entre os municípios nem presumiu que os valores ausentes em uma das camadas tenham sido destinados aos mesmos beneficiários.
A divergência permanece registrada para revisão e não é apresentada como indício de irregularidade.
A deputada foi questionada sobre os municípios previstos, os respectivos valores e a situação atual da execução dessa emenda, mas não respondeu.
Sete mandatos na Câmara e uma nova disputa no Pará
Elcione está no sétimo mandato como deputada federal. Sua trajetória na Câmara inclui atuação destacada em políticas voltadas às mulheres. Ela foi a primeira Procuradora da Mulher eleita pela bancada feminina e também presidiu a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher.
Em 2025, assumiu a presidência da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.
Agora, a parlamentar se prepara para disputar uma vaga de deputada estadual no Pará nas eleições de 2026, encerrando, caso seja eleita, uma longa sequência de mandatos na Câmara dos Deputados.
O Ver-o-Fato perguntou como a experiência acumulada na destinação de recursos federais para municípios paraenses deverá influenciar suas prioridades em uma eventual atuação na Assembleia Legislativa. A reportagem também questionou de que forma sua histórica agenda de defesa dos direitos das mulheres se reflete nas escolhas orçamentárias do atual mandato.
Deputada não respondeu
O Ver-o-Fato encaminhou ao email funcional da Câmara federal e à assessoria de Elcione Barbalho 20 perguntas antes da publicação.
Além dos critérios gerais adotados para a distribuição e o acompanhamento das emendas, a reportagem solicitou esclarecimentos sobre os principais achados da apuração: os recursos para estradas vicinais, o Centro de Eventos, o mobiliário escolar, os registros de Cachoeira do Piriá, o plano impedido de Tailândia, a emenda de saúde que permanece sob revisão e a distribuição territorial dos recursos.
Também foram encaminhadas perguntas sobre a trajetória política da deputada e sua próxima disputa eleitoral.
Até o fechamento desta reportagem, Elcione Barbalho e sua assessoria não haviam enviado respostas.
O espaço permanece aberto para manifestação. Caso a parlamentar encaminhe respostas posteriormente, elas poderão ser incorporadas à reportagem.
COMO O VER-O-FATO FEZ O LEVANTAMENTO
A análise abrange as emendas individuais de Elcione Barbalho entre 2023 e 2026 e utiliza bases oficiais de execução orçamentária, beneficiários, dados do Transferegov e informações eleitorais.
No caso das transferências especiais, a reportagem examinou também os Planos de Ação e as informações neles disponíveis sobre beneficiários, objetos, metas e situação dos registros.
Planos impedidos não foram somados às destinações consideradas vigentes. Recursos destinados ao Estado do Pará, ao Fundo Estadual de Saúde, a intermediários financeiros ou a entidades específicas não foram automaticamente atribuídos ao município onde está localizada a sede administrativa.
Na comparação eleitoral, os 175.498 votos obtidos por Elcione em 2022 foram conferidos a partir dos resultados dos 144 municípios paraenses e por meio de uma segunda agregação independente dos dados por município e zona eleitoral, com coincidência integral dos totais.
A comparação entre votação e distribuição de recursos tem caráter exclusivamente descritivo e não estabelece relação de causa e efeito.
* VOF Intelligence é uma ferramenta de investigação e análise de dados desenvolvida pelo Ver-o-Fato para organizar, cruzar e conferir informações de diferentes bases públicas oficiais. Seu objetivo é ampliar a transparência e o controle social sobre o uso do dinheiro público, permitindo acompanhar o caminho dos recursos desde a origem até seus destinos e identificar relações, concentrações, divergências e outros elementos de interesse jornalístico. Entre suas aplicações está o rastreamento de emendas parlamentares, valores, municípios beneficiados, destinatários e demais informações relacionadas à aplicação de recursos públicos, sempre preservando a origem e a natureza de cada dado.














