Maior ícone do teatro paraense, Cláudio Barradas morreu há um ano, aos 95 anos de idade. Grande parte de sua vida ele ocupou com seus trabalhos nos palcos, em filmes, nas rádios, na televisão, e no ensino de Teatro.
Homem de múltiplos talentos, Barradas também escreveu livro premiado pela Academia Paraense de Letras.
Sua figura se agigantou na cena da cultura do Pará, ao longo das suas décadas de atividades.
Por isto, seu nome foi dado ao teatro da Escola de Teatro e Dança da UFPa.
Ali, ele foi homenageado, no dia posterior à sua morte por Marton Maués, ator, diretor, e, professor daquela escola.
Maués foi aplaudido pelos alunos que assistiam à homenagem, quando, no meio de um monólogo, cantou:
– Um grande mestre se vai para os braços do Criador. Mas ele habita em nós, para sempre. Sempre com muito amor.
Após o espetáculo, Maués declarou:
– Barradas tem uma importância enorme, imensurável, para o teatro paraense, como um grande mestre. Muita gente passou pelas mãos dele, e, continua fazendo teatro até hoje. Ele é a base de tudo o que aprendi em teatro. A base do meu fazer teatral.
Paralelamente a todas estas atividades no âmbito da cultura, Barradas desenvolveu também uma carreira dentro do âmbito da Igreja Católica.
Ingressou muito jovem no seminário, e, dele se afastou, quando tinha 20 anos. Depois, retornou, para concluir sua formação de padre.
Mais tarde, foi promovido a monsenhor.
Em 2004, Barradas concedeu longa entrevista para contribuir com uma pesquisa que vinha sendo realizada na UFPa, sobre a História do Cinema na Amazônia.
Pela sua abrangência e profundidade, a entrevista se constitui, hoje, num precioso registro da sua rica carreira
Àquela altura, como religioso, ele era responsável pela paróquia de Jesus Ressuscitado, no conjunto Médice, do bairro da Marambaia.
Foi na casa paroquial deste bairro que, naquele ano, Barradas respondeu a uma longa lista de perguntas.
Apresentadas a ele, em várias sessões da entrevista, que terminou tendo duração total de 10 horas.
À certa altura, foi indagado a Barraedas sobre quais grupos de teatro ele havia criado.
Este valioso trecho de sua entrevista histórica, publicamos a seguir.
Poderíamos tentar fazer um levantamento dos grupos de teatro que você criou?
Meu irmão, em matéria de teatro, mal comparando, eu fui como estes sujeitos tarados que fazem filho numa mulher, depois vão fazer filho em outra. Eu fundei “n” grupos de teatro. De um modo geral, me cercava de gente que me procurava, mas que não tinha a minha visão de teatro. E, por isto, não levava a sério nosso trabalho. Então, eu largava aquilo que já tinha, em busca de outra coisa.
Sabemos que após sua saída do seminário, com 20 anos de idade, você teve de criar, em pouco tempo, dois grupos de teatro. Um na igreja de São José de Queluz, em Canudos. E, outro, para montar a peça “Auto da Compadecida”
O primeiro grupo que eu fundei foi mesmo o Amigos do Teatro, na igreja de Canudos. Montamos, com ele uma única peça, “Gota d´agua” de Hermógenes Viana. Depois o grupo se dissolveu.
E eu me transferi para a igreja de São Francisco, no Guamá, onde montei outro grupo de teatro ligado à Juventude Franciscana. Me senti como o pai que faz o seu primeiro filho e o deixa morrer.
Pela igreja do Guamá, andavam dois irmãos do Oziel Carneiro. Com um deles, o Raimundo Carneiro, fundei o grupo de teatro Os Doze. Na verdade, o grupo não tinha doze integrantes. Naquela igreja, montamos “Os inimigos não mandam flores” de Pedro Bloch, e, depois, do mesmo autor, “As mãos de Eurídice”.
Em que local Os Doze apresentavam seus espetáculos?
Nós conseguimos com o Edgar Proença, quando eu já o conhecia bem, o auditório, gostosinho, da Rádio PRC-5, no Jurunas, na chamada Aldeia do Rádio, para uma temporada do nosso grupo. Levamos para lá “Os inimigos não mandam flores”, de Pedro Bloch, um espetáculo de apenas dois personagens – um masculino, outro feminino.
O auditório da rádio PRC-5 servia para montagem de peça de teatro?
Servia, mas nós não pudemos tirar do palco o piano que era usado nos programas da rádio. Por isto, ele foi mantido nas cenas da peça.
Como transcorreu esta temporada de uma peça de teatro no bairro do Jurunas, daquela época?
Com a preparação desta temporada, eu gastei todo o dinheiro do prêmio que havia recebido da Academia Paraense de Letras. O Raimundo Carneiro também investiu dinheiro seu.
No primeiro dia da nossa temporada, nós distribuímos convites. Tivemos casa cheia e lá ainda apareceu aquele padre salesiano, o Belchior Maia de Ataíde, que tinha elogiado minha peça “O trovador de Deus”.
O dia seguinte, um sábado, foi o primeiro da temporada com ingressos pagos. Ninguém apareceu para assistir nossa peça.
Por coincidência, naquele dia, tinha ido me ver em atuação na peça, um amigo meu, o Francisco, que havia chegado do Rio de Janeiro. Como nós não pudemos apresentar o espetáculo, me escondi dele.
Naquela peça, havia uma cena na qual usávamos uma garrafa de champanhe. Nós, portanto, tínhamos empregado dinheiro também na compra da bebida. Angustiados com a nossa situação, a atriz da peça e o Raimundo Carneiro começaram a chorar.
E você, como se sentiu?
Eu tentei animá-los. Disse: – Nada de choro. A frustração já passou. Vamos beber o champanhe. Mas eles não se animaram, e, nosso grupo morreu ali, mesmo.
Como você prosseguiu, no teatro, depois disto?
Aos sábados eu passei a reunir na sala da minha casa na Rua Tiradentes, um grupo de jovens. A estas reuniões iam o Acyr Castro, o Amílcar Tupiassu, que já morreu, o Rafael Costa. Discutíamos questões como “O que é arte”.
As pessoas que passavam pela minha rua paravam para nos ouvir. Nós formamos um grupo de teatro patrocinado pelo Movimento Deontológico Universitário.
Foi quando o Edgar Proença nos convidou para participar do primeiro festival de teatro amador, no Rio de Janeiro. Preparamos o espetáculo “Brinquedos sabidos”, de Taís Bianchi. Com o objetivo de conseguir dinheiro para a viagem para o Rio de Janeiro, nós apresentamos nosso espetáculo no prédio da SAI e no auditório da PRC-5, no Jurunas.
Até aquele momento, nosso grupo ainda não tinha um nome. Sugeri, então, que ele se chamasse Os Novos. E o nome foi aprovado pelo grupo. O sucesso que obtivemos no Rio de Janeiro entusiasmou o Rui Barata, o Benedito Nunes e outros intelectuais que se dedicaram a elaborar o estatuto de um novo grupo, o Norte Teatro Escola. Com a nossa chegada a Belém, eu me tornei um dos fundadores deste novo grupo.
O teatro escola
O Norte Teatro Escola ficou sediado onde?
Ele foi fundado no prédio da SAI e, já com esta denominação, apresentou, no Teatro da Paz, o espetáculo, no estilo Nô, do teatro clássico japonês, “O poço do falcão”, de Yeats, um autor irlandês.
Por que o grupo se chamava “teatro escola”?
Porque ele proporcionava um aprendizado para o ator. O grupo começou a atuar oferecendo um curso no prédio da SAI. Neste curso, eu me responsabilizei pelas aulas de Interpretação. E a Margarida Schiwazappa, pelas aulas de Voz. Depois, me desiludi com o grupo e saí dele à francesa.
Fui para Macapá. Lá, fundei o Teatro do Estudante. Com este grupo cheguei a montar, também, “Pluft, o fantasminha”, peça clássica infantil de Maria Clara Machado.
Quando eu vim de Macapá, fundei, com o Adelino Simão, aqui em Belém, o Teatro de Equipe do Pará, no ano de 1961. Do grupo participava, também, um rapaz, o Nelson Figueiredo, que, mais tarde, foi para o seminário, mas não ficou lá, por muito tempo. O Adelino, depois, elegeu-se vereador.
Onde o Teatro de Equipe do Pará se apresentou?
Como o Adelino Simão era muito ligado à Basílica de Nazaré, nosso primeiro espetáculo – a peça infantil “O rapto das cebolinhas”, também da Maria Clara Machado – foi montado numa sala da igreja, onde hoje servem refeições. Ali havia um palco bonito.
Depois, o Nelson Figueiredo, que era muito querido pelos irmãos maristas, nos levou para o Colégio Nazaré. Num teatrinho instalado numa sala do prédio do colégio, nós começamos a ensaiar o segundo espetáculo do Teatro de Equipe do Pará, o “Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna. Lá mesmo, fizemos uma temporada com esta peça.
Foi neste momento que os grupos de teatro de Belém começaram a se reunir no Colégio Nazaré?
Foi. Nós reunimos no colégio os poucos grupos de teatro em atividade em Belém, naquela ocasião, para discutirmos o que cada um estava fazendo. E foi numa destas reuniões que surgiu a idéia de criarmos uma Escola de Teatro.
A escola foi fundada, eu me matriculei nela, e não tive mais tempo para permanecer no Teatro de Equipe do Pará. Depois de formado, eu com alguns colegas da Escola de Teatro, como o Nazareno, que agora é um grande advogado em Brasília, fundamos o grupo Teatro de Arte do Pará. Encenamos um espetáculo do vaudeville francês, dirigido por mim: o “Senhoras da alta” de Feydeau. Depois, montamos uma farsa medieval, o “Advogado Patelin”, de um autor desconhecido. Esta peça se tornou um fracasso financeiro. Com isto, meus colegas debandaram do grupo.
Este Nazareno a que você se referiu era o Nazareno Tourinho, autor de teatro?
Não. Com o Nazareno Tourinho, nesta época, em que eu já estava formado pela Escola de Teatro, nós fundamos o grupo Taba, nome que por extenso significava Teatro Adulto de Belém Adulta. Eu, por brincadeira, dizia que o nosso grupo se chamava Teatro Adulto de Belém Adúltera. A primeira peça montada pelo Taba foi “Lei é lei e está acabado”, do próprio Nazareno Tourinho.
Você chegou, depois, a montar alguma outra peça dele?
Montei a peça dele “Herói do seringal”, quando fundei uma segunda federação de grupos de teatro do Pará.
Você fundou duas federações de teatro?
Fundei. A primeira nem chegou a ter estatuto. Surgiu apenas para criarmos, através dela, a Escola de Teatro. Depois, os atores, inclusive eu, entramos para a escola e não tivemos mais tempo para nossos grupos de teatro. Mas, após a nossa formatura, nós nos reuníamos, em todo final de semana, no auditório do Colégio Paulo Maranhão, no Guamá. Lá, fundamos a Federação do Teatro Amador do Pará.
Ficou estabelecido que, no final de cada ano, montaríamos um espetáculo com textos paraenses. Para estes espetáculos, cada grupo cederia dois atores seus. O primeiro texto escolhido foi o “Herói do seringal”, do Nazareno. Eu dirigi o espetáculo.
O segundo texto paraense que nós montamos foi “Maiandeua”, do Levy Hall de Moura, que naquela ocasião, já havia perdido uma perna. Maiandeua é uma lenda paraense segundo a qual há uma terra – com este nome – debaixo do mar, em Marapanim, onde as pessoas tem tudo o que querem, onde os infelizes se tornam felizes.
Quer dizer que o juiz de Direito Levy Hall de Moura, era, também, um autor de teatro?
O Levy Hall de Moura escreveu várias peças. Eu ia montar uma segunda peça dele, mas, infelizmente, não consegui encontrar o texto dela. Esta outra peça dele se chama “O Lobisomem”.
Do que trata esta peça aquela peça dele?
O seu cenário é o quarto de uma casa. À noite, a luz da lua entra pela janela do quarto onde há uma rede armada. O quarto está vazio. Não aparece nenhum ator em cena, apenas a rede balançando. Do lado de fora da casa, ouvem-se vozes de pessoas que conversam. Estas pessoas estão mortas de medo porque acham que há um lobisomem na cidade. Elas dizem que, numa noite de lua cheia como aquela, o lobisomem, certamente, iria atacá-las.
Ainda do lado de fora da casa, e, sem ser vista, uma destas pessoas fala: – Vamos chamar o fulano, que está no quarto, para ele se prevenir contra o lobisomem.
Ouve-se, então, em seguida, o barulho daquelas pessoas batendo na porta do quarto.
Na cena final, elas batem, batem, batem na porta. E vão, por fim, arrombá-la, quando a peça acaba.
Conclusão: o lobisomem que elas procuram era o rapaz que morava naquele quarto.
Considerei aquele texto uma obra de vanguarda porque durante a peça inteira não aparece nenhum ator e quando os atores vão aparecer o espetáculo acaba.
Depois do Taba, você ainda fundou mais algum grupo de teatro?
Fundei o Teatro Operário, no SESI. Depois, este nome foi mudado para Teatro Stúdio-Sesi porque a palavra operário, nele, afastava espectadores. A palavra estúdio foi, então, incluída no nome do grupo, como uma homenagem minha ao grande diretor russo Meyerhold, que eu admirava, e, cujo grupo de teatro se chamava “stúdio”. Mas não revelei para ninguém a razão da minha escolha deste nome.
Com este grupo montei uma porção de peças.
Depois fundei o Tecnartes, na Escola Técnica.
E fundei, ainda, antes de voltar para o seminário, o Teatro Cabano Vai ou Racha.
E, o Tecoara.
No Teatro Gabriel Hermes
Qual foi o último grupo que você fundou, antes de retornar ao seminário e se tornar padre, em 1992?
Quando o teatro do SESI – o Gabriel Hermes – foi construído, na Avenida Almirante Barroso, acabei sendo chamado para dirigir os espetáculos dele e, ali, montei mais um grupo de teatro. Portanto, as mesmas pessoas que me puseram para fora do SESI tiveram de me engolir mais uma vez. Nada como um dia atrás do outro.
Conte como aconteceu isto, por favor.
Depois da inauguração do teatro, montavam-se espetáculos, nele, durante o ano inteiro, nos finais de semana. O SESI pagava todo mundo, inclusive os atores – um salário mínimo para cada um. No entanto, surgiu uma confusão com o pagamento dos atores do grupo de teatro infantil. O SESI teve de pagá-los na Justiça do Trabalho. E, em seguida, acabou com o seu teatro infantil.
Depois disto, fui chamado pelo SESI. Lá, me comunicaram que havia interesse em continuar a experiência de montar espetáculos. O SESI, porém, não queria mais pagar diretamente os atores. Eu deveria atuar como uma espécie de empresário. Diria quanto queria receber para manter os espetáculos. O SESI faria os pagamentos a mim. E, eu me entenderia com os atores.
Não concordei com aquilo porque, imaginei o que poderia acontecer comigo, uma simples pessoa física, numa situação que já tinha levado o SESI, que era uma instituição, até a Justiça de Trabalho. Mas achei que era uma grande tentação a possibilidade de continuar com aqueles espetáculos. A experiência de montá-los valia a pena ser levada adiante.
Por que?
Em primeiro lugar porque o SESI estava disposto a ceder o Teatro Gabriel Hermes, aquele que, para mim, era – e ainda é – o melhor teatro de Belém. Além disto, o SESI ainda estava disposto a fornecer funcionários, a pagar direitos autorais, e, a se responsabilizar pelas despesas das montagens.
O que você fez, então?
Fundamos um grupo e ele passou a fazer convênios com o SESI. Sugeri para o grupo um nome indígena que significava “vivo”: Tecoara. E o nome foi aceito pelo elenco. Portanto, nós nos denominamos, literalmente, “Teatro
Que espetáculos você montou no Teatro Gabriel Hermes?
Montamos quatro peças. A primeira foi uma peça curta do compositor Waldemar Henrique, “Prelúdio”. A direção deu uma outra dimensão ao texto da peça que ficou genial após o trabalho de sua montagem. Era gostosíssimo assisti-la.
Depois, nós montamos um outro texto paraense, sobre a Cabanagem, de que eu gosto muito, escrito pelo Marco Antônio Oliveira: “A ameaça”.
Montamos, ainda, de um autor do Sul do país, Mário Brazini, “Nadim Nadinha contra o Rei de Fuleró”, uma peça – reconheço, aqui entre nós – meio subversiva. Nadim Nadinha era o povo que vencia o poder instituído.
Por fim, o último texto que nós encenamos – “A construção” – era de um autor da Paraíba, Altimar Pimentel, um amigo meu. Nele, discutia-se a manipulação da crendice popular.
Você não fundou mais nenhum grupo de teatro, desde que se ordenou padre, em 1992?
Nas paróquias em que estive, também fundei grupos de teatro. Na, da Sé, dirigi um grupo que se chamou Teóforos – nome que significa, Portadores de Deus. Montamos várias peças que ensaiávamos em todos os Natais e Semanas Santas.
Quando fui para Santa Izabel, fundei outro grupo, o Teofania, que quer dizer Manifestação de Deus.
E aqui, no Médice, estou começando uma oficina de teatro para criar um novo grupo.
O que você sente hoje em relação a todos estes grupos de teatro que criou?
Eu fiz “filhos” que depois largava por aí. Fui o povoador do teatro paraense.
In a Historic Interview, Cláudio Barradas Said: “I Was the Settler of Pará Theater”
The greatest icon of theater in Pará, Cláudio Barradas, died a year ago at the age of 95. He devoted much of his life to work on stage, in films, on radio, on television, and to the teaching of theater.
A man of many talents, Barradas also wrote a book that received an award from the Academy of Letters of Pará.
Over the decades, his figure grew to monumental proportions within the cultural life of Pará.
For this reason, his name was given to the theater of the School of Theater and Dance of UFPA.
There, on the day after his death, he was honored by Marton Maués, actor, director, and professor at the school. Maués was applauded by the students attending the tribute when, in the middle of a monologue, he sang:
“A great master departs into the arms of the Creator. But he lives within us forever, always with great love.”
After the performance, Maués declared that Barradas possessed an immense and immeasurable importance for theater in Pará as a great master. Many people had learned under him and continued to make theater to this day. He was the foundation of everything Maués had learned about theater and of his entire theatrical practice.
Alongside all these cultural activities, Barradas also pursued a career within the Catholic Church.
He entered the seminary at a very young age and left it when he was twenty years old.
Later he returned to complete his training as a priest and was eventually promoted to monsignor.
In 2004, Barradas granted a long interview to contribute to research being conducted at UFPA on the History of Cinema in the Amazon.
Because of its breadth and depth, the interview has become a precious record of his rich career.
At the time, he was serving as pastor of the Jesus Ressuscitado parish in the Médice housing complex, in the Marambaia district.
It was in the parish house there that he answered a long list of questions over several sessions, resulting in a total of ten hours of recorded testimony.
At one point he was asked about the theater groups he had created. The following is a valuable excerpt from that historic interview.
“Could we try to make a survey of the theater groups you founded?”
“My friend, when it comes to theater, I was rather like those fellows who father a child with one woman and then go on to father another with someone else. I founded countless theater groups. Generally speaking, I surrounded myself with people who sought me out but who did not share my vision of theater. Because of that, they did not take our work seriously. So I would leave behind what I had already built and go in search of something else.”
“The first group I founded was Amigos do Teatro, at the church in Canudos. We staged only one play, Gota d’Água, by Hermógenes Viana. Then the group dissolved. I moved to the Church of Saint Francis in Guamá, where I formed another theater group linked to Franciscan Youth. I felt like a father who has his first child and lets it die.
Two brothers of Oziel Carneiro attended that church. With one of them, Raimundo Carneiro, I founded the theater group Os Doze. In fact, the group did not have twelve members. There we staged Os Inimigos Não Mandam Flores and later As Mãos de Eurídice, both by Pedro Bloch.”
Asked where the group performed, Barradas recalled that Edgar Proença secured for them the pleasant auditorium of Rádio PRC-5 in Jurunas, in the so-called Radio Village. They took there Os Inimigos Não Mandam Flores, a play with only two characters.
The radio auditorium could indeed be used for theater, although the piano used in radio programs had to remain on stage and therefore became part of the scenery.
Barradas recounted that he spent all the money from a literary prize awarded by the Academy of Letters of Pará to prepare the season, while Raimundo Carneiro also invested his own money. On opening night, invitations were distributed, the house was full, and Father Belchior Maia de Ataíde, who had previously praised Barradas’s play O Trovador de Deus, attended.
The following evening, however, which was the first performance with paid admission, no one came. By coincidence, a friend named Francisco, newly arrived from Rio de Janeiro, had gone to see him perform. Since the play could not be presented, Barradas hid from him out of embarrassment.
The production included a scene requiring a bottle of champagne, which they had purchased with their own money. Distressed by the situation, the actress and Raimundo Carneiro began to cry. Barradas tried to encourage them, saying there was no reason to cry because the disappointment had already happened and they should at least drink the champagne. Yet they remained discouraged, and the group effectively died there.
Afterward, Barradas began gathering young people every Saturday in the living room of his house on Tiradentes Street. Among those attending were Acyr Castro, Amílcar Tupiassu, and Rafael Costa. They discussed questions such as “What is art?” Passersby would stop in the street to listen.
The group eventually organized a theater company sponsored by the University Deontological Movement. Soon Edgar Proença invited them to participate in the first amateur theater festival in Rio de Janeiro. They prepared Brinquedos Sabidos, by Taís Bianchi, and staged it in Belém to raise money for the trip. At that time the group still had no name. Barradas suggested Os Novos, and the proposal was accepted.
The success achieved in Rio inspired Rui Barata, Benedito Nunes, and other intellectuals to draft the statutes of a new group, Norte Teatro Escola. Upon returning to Belém, Barradas became one of its founders.
Asked why it was called a “theater school,” he explained that it offered training for actors. The group began by providing courses in the SAI building. Barradas taught Acting, while Margarida Schiwazappa taught Voice. Eventually he became disillusioned and quietly left the organization.
He moved to Macapá, where he founded Teatro do Estudante and staged, among other productions, Pluft, the Little Ghost, by Maria Clara Machado.
Returning to Belém in 1961, he founded Teatro de Equipe do Pará with Adelino Simão and Nelson Figueiredo. Their first production was the children’s play O Rapto das Cebolinhas, also by Maria Clara Machado, staged in a room of the Basilica of Nazaré. Later, with the support of the Marist Brothers, they rehearsed and presented Auto da Compadecida by Ariano Suassuna at Colégio Nazaré.
It was there that Belém’s few active theater groups began meeting regularly. During those gatherings the idea emerged of creating a School of Theater. Once the school was founded, Barradas enrolled and no longer had time to remain with Teatro de Equipe do Pará.
After graduating, together with colleagues, he founded Teatro de Arte do Pará. They staged Senhoras da Alta, by Georges Feydeau, and later the medieval farce Pathelin the Lawyer. The latter was a financial failure, and his colleagues abandoned the group.
Later, with playwright Nazareno Tourinho, Barradas founded TABA, whose initials stood for Teatro Adulto de Belém Adulta. Jokingly, he would say it meant “Adult Theater of Adulterous Belém.” The group’s first production was Lei é Lei e Está Acabado, written by Nazareno himself.
Barradas also founded two theater federations. The first existed mainly to create the School of Theater. The second, Federação do Teatro Amador do Pará, brought together groups that met every weekend at Colégio Paulo Maranhão in Guamá. They decided to stage Pará-authored plays annually. The first was Herói do Seringal by Nazareno Tourinho, directed by Barradas. The second was Maiandeua by Levy Hall de Moura, based on a Pará legend about a marvelous land beneath the sea near Marapanim where every desire is fulfilled and the unhappy become happy.
Barradas praised another play by Levy Hall de Moura, O Lobisomem, describing it as a work of avant-garde theater. Throughout the play, no actor appears on stage. The audience sees only an empty room with a hammock swaying in the moonlight while frightened voices outside speak of a werewolf. In the final moments, people break down the door in search of the creature, and the play ends. The implication is that the werewolf is the unseen man who lived in the room.
Later Barradas founded Teatro Operário at SESI, subsequently renamed Teatro Stúdio-Sesi. He explained that the term “worker” discouraged audiences, while the word “studio” was a tribute to the Russian director Meyerhold, whom he admired deeply. With this group he staged many productions. He also founded Tecnartes at the Technical School, Teatro Cabano Vai ou Racha, and Tecoara.
Asked about the last group he created before returning to the seminary and becoming a priest in 1992, Barradas recalled that after the construction of Teatro Gabriel Hermes on Avenida Almirante Barroso, he was invited to direct productions there and formed yet another company.]
After labor disputes involving actors in the children’s theater, SESI sought a new arrangement. Rather than hiring actors directly, it proposed paying Barradas to manage productions and deal with the performers himself. Though hesitant, he accepted because he believed the experience was worth continuing.
He considered Gabriel Hermes Theater the finest theater in Belém and appreciated that SESI provided the venue, staff, royalties, and production expenses. A new group was created and entered into agreements with SESI. Barradas suggested the Indigenous name Tecoara, meaning “alive,” and the ensemble adopted it.
At Teatro Gabriel Hermes, the group staged four productions: Prelúdio by Waldemar Henrique; A Ameaça, a Pará play about the Cabanagem by Marco Antônio Oliveira; Nadim Nadinha Contra o Rei de Fuleró by Mário Brazini; and A Construção by Altimar Pimentel, a playwright from Paraíba. The last dealt with the manipulation of popular superstition.
When asked whether he had founded any theater groups after becoming a priest, Barradas answered that he had. At the Cathedral parish he directed a group called Teóforos, meaning “Bearers of God,” which rehearsed productions for Christmas and Holy Week celebrations. In Santa Izabel he founded another group, Teofania, meaning “Manifestation of God.” In the Médice parish he was already beginning a theater workshop to create yet another company.
Finally, when asked what he felt about all the groups he had created throughout his life, Barradas replied with characteristic humor:
“I made children and then left them scattered around. I was the settler of Pará theater.”
(Ilustração: O ator Cláudio Barradas)















