A retórica da “herança maldita” voltou a ecoar com força na transição de 2022. O PT, então prestes a reassumir o comando do País, descrevia um cenário de terra arrasada: economia destruída, povo passando fome, famílias atoladas em dívidas, crédito caro, cartão de crédito no limite, consignados e empréstimos pessoais virando regra. A mensagem era clara, ainda que não declarada: bastaria a volta de Lula ao Planalto para que a renda crescesse, o aperto diminuísse e a normalidade econômica fosse restaurada. é disso que trata o editorial deste domingo, 8, do jornal O Estado de São Paulo.
Passados quase três anos, a realidade se impõe com a frieza dos números. A renda média até avançou, é verdade, mas o sufoco financeiro permanece — e, em muitos lares, se agravou. Dados do Banco Central mostram que o endividamento das famílias atingiu 49,8% da renda anual, índice perigosamente próximo do recorde histórico observado em julho de 2022, ainda no governo Bolsonaro. O indicador é amplo: inclui financiamento imobiliário, compra de veículos, crédito consignado, empréstimos pessoais e o sempre explosivo cartão de crédito. Não se trata de um desvio ocasional, mas da consolidação de um padrão de pressão contínua sobre os orçamentos domésticos.
O discurso oficial, porém, insiste em um tom triunfalista. O governo celebra a queda do desemprego e a recuperação da renda como se esses dados, isoladamente, resolvessem o problema. Não resolvem. Dívidas elevadas, juros persistentes e crédito caro drenam qualquer ganho adicional e alimentam a sensação generalizada de que a vida segue difícil — quando não mais dura. A renda cresce num bolso já furado.
As pesquisas de opinião ajudam a traduzir esse mal-estar difuso. Levantamentos do Ideia e da Quaest indicam que parcela expressiva dos brasileiros percebe a economia como estagnada ou em piora, apesar da propaganda oficial. O custo de vida e a insegurança financeira aparecem reiteradamente como focos centrais de insatisfação. Não surpreende que a aprovação do governo oscile em nível morno, longe do entusiasmo necessário para sustentar projetos de continuidade no poder.
Esse quadro também escancara os limites de uma velha estratégia petista: terceirizar indefinidamente a responsabilidade pelos problemas econômicos. Lula já recorreu a esse expediente no início de seu primeiro mandato, em 2003, ao atribuir dificuldades à suposta “herança maldita” deixada por Fernando Henrique Cardoso — ignorando que foi justamente a estabilidade construída nos anos tucanos que permitiu o crescimento posterior. A repetição da fórmula, duas décadas depois, soa menos como explicação e mais como álibi.
Há um ponto em que a narrativa se esgota. Lula governa tempo suficiente para que os resultados — bons ou ruins — sejam creditados majoritariamente às decisões de sua própria administração. Insistir na lógica da herança eterna não convence mais; apenas reforça a impressão de fuga de responsabilidade. Os números do Banco Central, frios e objetivos, reiteram isso diariamente.
O endividamento elevado não é apenas uma estatística técnica. Ele limita o consumo, aumenta a vulnerabilidade das famílias a qualquer choque econômico e reduz a eficácia de políticas ancoradas quase exclusivamente em transferências de renda. Para milhões de brasileiros, a conta não fecha antes do fim do mês — e fecha menos ainda quando o cartão vence.
E há um agravante político pouco discutido: o eleitor brasileiro, cada vez mais endividado, segue com a corda no pescoço e, ainda assim, é legalmente obrigado a comparecer às urnas em outubro próximo para escolher tudo — de presidente da República a deputado estadual. Vai votar pressionado por boletos, juros, renegociações e pela sensação de que trabalha para pagar dívidas, não para melhorar de vida.
Em ano pré-eleitoral, isso se converte em risco político real. A economia tende a ser o eixo central da disputa de 2026 não por ideologia, mas por experiência concreta. O eleitor decide menos pelo discurso e mais pelo que sente no bolso — e no extrato bancário. Se quiser evitar que o endividamento das famílias se transforme em símbolo de frustração eleitoral, o Planalto precisará abandonar slogans, reconhecer o problema e enfrentá-lo com seriedade.
Até lá, os números continuarão a falar mais alto do que qualquer propaganda. A economia real não se dobra à retórica — e a política da negação costuma cobrar seu preço, cedo ou tarde, nas urnas.















