Enquanto aliadas exaltam “vitória do século XXI”, oposição e comentaristas reagem à indicação da parlamentar, acirrando o debate sobre gênero e liberdade de expressão em Brasília
Brasília – A eleição histórica da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados (CMULHER), ocorrida na última quarta-feira (11), deflagrou uma intensa crise política, jurídica e midiática no cenário nacional. Sendo a primeira mulher transsexual a assumir o colegiado, sua posse gerou reações polarizadas que extrapolaram o Congresso, transformando a comissão no palco do principal embate ideológico do país.
Após o resultado da eleição na CMULHER, um turbilhão se formou: desde acusações de transfobia contra o apresentador Ratinho e o jornalista Demétrio Magnoli até uma representação formal movida pelo Partido Novo no Conselho de Ética, que acusa Erika Hilton de quebra de decoro e tentativa de censura à liberdade de expressão e de imprensa.
A escalada das tensões institucionais e narrativas seguiu uma cronologia rápida e incisiva, refletindo as divisões políticas acerca das políticas de identidade e gênero.
A eleição e o estopim midiático teve início na quarta-feira (11). O embate começou logo após a eleição de Erika Hilton para o comando da Comissão.
À noite, durante a exibição de seu programa no SBT, o apresentador Carlos Roberto Massa, conhecido como Ratinho, criticou asperamente a escolha do colegiado, argumentando que o resultado “não foi justo”, Ratinho declarou: “Para ser mulher tem que ter útero, menstruar, tem que ficar chata três, quatro dias”, sugerindo que a vaga deveria ser ocupada por “uma mulher mesmo”.
A fala gerou repúdio imediato nos chamados setores Woke e especialistas em cancelamento nas redes sociais, entrincheirados em organizações autodenomidadas progressistas, sob a acusação de discriminação transfóbica.
Para melhor entendimento, é substancial explicar o que significa o termo”woke” no Brasil, um anglicismo importado do debate político americano, derivado do verbo inglês “wake” (acordar/despertar). Ele é utilizado para descrever indivíduos ou movimentos que se dizem “despertos” ou “alerta” para questões de justiça social, racismo estrutural, sexismo, homofobia e desigualdade econômica, cuja aplicação do termo no Brasil é polarizada, funcionando como um divisor nas guerras culturais, notadamente entre segmentos políticos de pólos opostos (esquerda e direita).
Na mesma semana após Ratinho, Demétrio Magnoli, comentarista da GloboNews, ousou expressar sua opinião sobre o caso, durante a exibição do programa Estúdio I na sexta-feira (13). Ele afirmou que a parlamentar é “biologicamente um homem” e que está ajudando na campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
“Erika Hilton é um cabo eleitoral extremamente eficiente de Flávio Bolsonaro”, começou Demétrio. “Involuntário, mas extremamente eficiente.”
Em seguida, Demétrio disse que “ginecologistas” afirmam que a deputada “é um homem”: “Várias mulheres, inclusive que se apresentam como feministas, ginecologistas, usaram a frase que Erika Hilton, biologicamente, é um homem. Isso é fato”, afirmou.
O comentarista seguiu, afirmando que a parlamentar é “autoritária”: “Ela processa. Do ponto de vista dela, não há debate, mas ela exige a repressão estatal. Ela é extremamente autoritária, nesse ponto de vista. Ela é uma identitária fanática. E isso é campanha eleitoral para Flávio Bolsonaro (…) É por isso que o Governo não apoiará Erika na campanha e não se alinhará às suas manifestações”, encerrou.
A reação jurídica da parlamentar veio em seguida. Diante do episódio televisivo, Erika Hilton contra-atacou mobilizando órgãos estatais. A deputada argumentou que sua identidade de gênero estava sendo usada como “elemento central” de desqualificação e solicitou a investigação de Ratinho por transfobia junto ao Grupo Especial de Combate aos Crimes Raciais e de Intolerância do Ministério Público de São Paulo (MPSP).
Adicionalmente, acionou o Ministério das Comunicações para pedir a suspensão do programa por 30 dias e requisitou ao Ministério Público Federal (MPF) a avaliação de uma ação civil pública, exigindo R$ 10 milhões em indenizações. O endosso da crítica na imprensa, na sexta-feira, segundo fontes próximas da deputada paulistas confirmaram: “Ela teve um surto de ódio e raiva…”.
O debate ganhou novos contornos. Em seguida, a reação à postura combativa da deputada chegou ao campo legislativo no final de semana. O Partido Novo, liderado por Eduardo Ribeiro, enviou à Mesa Diretora da Câmara uma representação ao Conselho de Ética pedindo a apuração da conduta de Hilton, com o risco de perda do mandato por quebra de decoro.
O texto protocolado acusa a deputada de tentar restringir opiniões e perseguir “quem se vale do direito fundamental de liberdade de expressão acerca da distinção entre sexo e identidade de gênero”, argumentando que a manifestação do pensamento não deve sofrer restrições constitucionais.
A polarização parlamentar entrou em cena em pleno domingo (15). As divergências ganharam a voz das próprias congressistas. A deputada Any Ortiz (Cidadania-RS) classificou a ascensão de Hilton como “uma derrota” para as mulheres. Afirmando ter assinado a ação na Comissão de Ética, Ortiz declarou que “ser mulher é sim uma realidade biológica e isso não pode ser negado”, justificando que críticas não equivalem a homofobia.
Em diametral oposição, Jandira Feghali (PCdoB-RJ) celebrou a eleição como “uma vitória do século XXI”, ao detalhar o que isso significa, a comunista fluminense jogou gasolina no debate. Rebatendo Ratinho ao associar sua fala ao “Brasil colônia”, Feghali argumentou que a biologia não pode ser “absolutizada“, e desacreditou a denúncia do Novo, pontuando que “não é possível querer cassar um mandato de uma parlamentar […] porque ela representou contra um comunicador que a agrediu”.
A sequência de desdobramentos iniciada com a posse de Erika Hilton evidencia como a temática da identidade de gênero transcendeu as pautas de comportamento para converter-se no epicentro das disputas institucionais e ideológicas brasileiras.
O choque revela implicações severas para a dinâmica democrática: o Legislativo, o Judiciário e a Imprensa estão sendo simultaneamente testados em seus limites entre o combate à discriminação e a preservação da liberdade de expressão.
A mobilização de ferramentas punitivas — sejam os R$ 10 milhões pleiteados pela deputada, seja o processo de cassação articulado pela oposição partidária — sublinha um cenário onde o debate político foi integralmente judicializado.
Este episódio não apenas reflete a cristalização da polarização narrativa entre frentes identitárias e conservadoras, mas também antecipa o tom dos embates eleitorais vindouros, moldando como a representatividade e a biologia serão politicamente instrumentalizadas.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















