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Home Atualidades

‘É pouco provável eu estar vivo em 5 anos. A vida precisa valer agora’

Redação por Redação
27/07/2024
in Atualidades
‘É pouco provável eu estar vivo em 5 anos. A vida precisa valer agora’

Vítima de doença rara e autoimune, o professor e filósofo de 57 anos lança novo livro e fala ao ‘Estadão’ sobre finitude, educação, ansiedade, críticas à autoajuda e a importância do conhecimento: ‘A filosofia te dá vários instrumentos. Ainda assim, é preciso viver’, diz. Foto/Youtube

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Vítima de doença rara e autoimune, o professor e filósofo de 57 anos lança novo livro e fala ao ‘Estadão’ sobre finitude, educação, ansiedade, críticas à autoajuda e a importância do conhecimento: ‘A filosofia te dá vários instrumentos. Ainda assim, é preciso viver’, diz. Uma entrevista que vale a pena ser lida por quem ainda pensa neste país. Leia abaixo:

“Eu parto da premissa de que a vida já poderia ter acabado. E, portanto, parto também da certeza de que ela pode acabar a qualquer momento.” É com esse pensamento que o professor, escritor e filósofo Clóvis de Barros Filho, de 57 anos, vive há mais de dois anos.

Claro, ele sabe que a vida de qualquer pessoa pode acabar a qualquer momento. É assim que funciona o mundo. Mas, desde que foi diagnosticado com a síndrome de Behçet, uma doença rara e autoimune, essa verdade guia o seu dia a dia, sabendo que não faz sentido pensar muito à frente. É preciso viver o agora.

A doença causa feridas recorrentes nos olhos, na boca e nos órgãos genitais, fez com que ele perdesse grande parte da visão e exige que tome medicamentos que suprimem o sistema imunológico. “É muito pouco provável que eu esteja vivo daqui cinco anos. Se o ‘bem bom’ vem daqui cinco anos, não serve para mim. A vida precisa valer agora”, diz ele em conversa com o Estadão.

É curioso, então, que o livro mais recente de Barros Filho trate justamente de pensar no futuro. Projeto de Vida: Caminhos Para Uma Vida Que Valha a Pena, publicado pela Citadel no início de julho, apresenta ao leitor reflexões que o ajudarão a pensar melhor na própria vida e, com isso, tomar decisões mais sensatas durante sua jornada.

Por que dedicar tempo ao tema? Ele explica: “A primeira motivação foi a notícia de que o currículo do Ensino Médio ia mudar, e que esse tema, Projeto de Vida, faria parte do novo Ensino Médio, como de fato veio acontecer. Entendi que era o momento de propor algum material de reflexão sobre o tema e que, de certo modo, marcasse posição em relação a outras perspectivas da mesma temática.”

É um livro pensado para um adolescente na fase final da vida escolar, apesar de estar chegando com mais facilidade ao público adulto, como admite o autor. Os capítulos são pensados como aulas – eram, na verdade, palestras, que foram convertidas em texto.

“Não são lições de vida”, garante Barros Filho. “Pelo contrário, são reflexões emancipadoras que sugerem que uma das condições para a vida valer a pena é, justamente, ela ser decidida por quem a vive e não em cima de um modelo pré-estabelecido.”

Nesta entrevista, editada para melhor compreensão, o filósofo opina sobre o currículo escolar, a ansiedade do nosso tempo, conflitos geracionais, as críticas aos livros de autoajuda, conta como as redes sociais influenciam seu trabalho e explica como sua doença mudou sua perspectiva de vida.

Quando falamos de alunos de Ensino Médio e a ideia de projetar a vida, muitas vezes vem à tona a ideia de que esse aluno é muito jovem para tomar decisões que vão influenciar a vida inteira dele. O senhor concorda com isso? Acha que devemos repensar a forma como esse modelo funciona?

As nossas escolhas fazem parte da vida desde sempre. Talvez não na primeiríssima idade, mas mesmo na idade infantil já há escolhas e elas vão se sofisticando ao longo da adolescência. Portanto, não há o que esperar para começar a tomar decisões, dado que é preciso decidir para viver. O grande problema não é a idade, mas sim o preparo. Haverá quem não fique preparado nunca. Haverá quem não tenha repertório e maturidade nunca para fazer suas escolhas. Ora, se a idade prevista para terminar o ensino médio é a idade que é e a entrada no ensino superior está prevista para a idade que está, cabe ao próprio sistema de educação preparar o aluno para realizar essa escolha.

“Ah, mas o número de pessoas que mudam de curso é muito grande, então isso mostra que as pessoas se arrependem”. Este é o tipo de constatação que não ajuda muito, por que o que nós vamos fazer? Terminar o ensino médio e esperar dez anos sabáticos para haver amadurecimento e aí, então, vamos colocar as pessoas para escolherem o curso superior que querem fazer? O que há é através do próprio sistema escolar preparar essa maturidade. Não é uma questão de idade. É que o aluno faz a escolha no escuro porque não tem a menor noção do que são os cursos que estão sendo oferecidos, já que ninguém nunca permitiu que ele tivesse essa noção. Portanto, o que tem que mudar é o preparo, é a formação.

“Se a idade prevista para terminar o ensino médio é a idade que é e a entrada no ensino superior está prevista para a idade que está, cabe ao próprio sistema de educação preparar o aluno para realizar essa escolha”, diz Clóvis de Barros Filho.

Isso não significa que, mesmo assim, não haja erros, porque não acertaremos sempre, mas penso que uma das condições para que essa escolha seja boa é um bom conhecimento sobre si mesmo. Você escolherá melhor se você tiver uma ideia de quem você é. E saber quem se é não de maneira cabal, mas pelo menos ter uma ideia do que apetece e do que não apetece de jeito nenhum.

O senhor menciona no livro que projetar a vida pode ser viver duas vezes: primeiro na mente e, depois, no acontecimento. Isso me fez pensar em como muitos dizem que ‘a ansiedade é o mal do nosso tempo’. Concorda com essa frase? E por quê?

Eu não gosto muito dessas frases muito cheias de verdade. Essa, em especial, poderia nos levar a acreditar que, resolvida a ansiedade, estaria tudo perfeito. Isso teria virado um paraíso. Portanto, a ansiedade, eu diria, é um mal a mais do nosso tempo. E ela se deve, em grande medida, ao fato de que a realidade se acelera na nossa percepção e, de maneira muito paradoxal, vamos sendo afogados por ela. Ao mesmo tempo, vamos ansiando para que ela acelere ainda mais. Ou seja, a ansiedade tem muito a ver com a desarmonia entre o tempo do mundo e o tempo da alma. Não suportamos os ritmos que o mundo nos impõe, seja porque são rápidos demais, seja porque são lentos demais. Isso, de novo, é uma questão de preparo.

“A ansiedade tem muito a ver com a desarmonia entre o tempo do mundo e o tempo da alma”, destaca Clóvis.

O que é muito interessante é perceber o quanto isso gera frustração e o quanto as novas gerações, de maneira muito assumida, não suportam as frustrações. E é interessante como isso é dito de maneira cabal: “esses são da geração X, esses são da geração Y, esses são da geração K, e esses então não suportam isso”. É como se o mero fato de ter nascido em tal ano determinasse um perfil psicológico ou uma dificuldade psicológica. Fica evidente que o problema é menos um problema de que ano você nasceu e mais um problema do tipo de educação que você teve.

O que podemos constatar é que o mundo da educação se vê perplexo diante da necessidade de educar para um mundo que ele não conhece bem. E é cada vez mais difícil conhecer porque, quando você mapeia, ele já não é mais o que era. Então, cada vez mais, é preciso dar instrumentos para que os nossos educandos possam pensar por conta própria. É preciso estar preparado para enfrentar o inédito da realidade a cada segundo e, por isso, as respostas prontas não dão nunca conta. É preciso saber encontrar respostas sempre novas para mundos nunca encontrados e problemas nunca antes vividos. E tudo isso é muito desagradável de ouvir. Tudo o que as pessoas querem é sombra e água fresca. Tudo o que as pessoas querem é a certeza, a segurança e a tranquilidade de que dará tudo certo.

Por que temos tanta dificuldade em lidar com o acaso? Por que o ser humano sente necessidade de estar em controle de tudo?

A pergunta já vem com a resposta que importa: há uma necessidade psicológica de ter algumas certezas sobre o mundo. É o que Nietzsche [filósofo alemão, 1844-1900] chama de “vontade de verdade”. Na hora em que você leva a sério que tudo é fluxo, trânsito, líquido, impermanente, fugaz, você já precisa se despir das suas muletas metafísicas e, a partir daí, viver de peito aberto para o inesperado.

Esse é o grande traço distintivo do tal do “super-homem” do Nietzsche também: é um indivíduo que está, eu diria, desprotegido de verdades e, portanto, apto a encarar o inédito e o insólito da realidade a cada segundo. Não só a realidade do mundo afora como a realidade dele próprio. Mostra muito bem o quanto isso não é nada simples – o que nós gostaríamos mesmo é que tudo ficasse mais ou menos do jeito que já conhecemos para que não haja sobressaltos.

Então, você me pergunta: por quê? Porque existe uma imensa fragilidade cognitiva e afetiva. O fato de não entendermos, de não conhecermos o mundo sempre novo, determina em nós o medo, o temor. E o temor é desagradável de sentir. Então, gostaríamos de diminuí-lo. Como é que você diminui o medo? Acreditando num certo controle sobre as coisas, mesmo que seja falacioso, mesmo que seja um controle ignorante da vida.

O senhor falou bastante dessa coisa do preparo e me chama a atenção como o senhor faz essa interlocução com outros filósofos e pensadores contemporâneos e antigos. Essa interlocução tem a ver com esse preparo? O conhecimento e a leitura nos ajudam a pensar e entender o mundo?

A palavra ‘ajuda’ é boa, mas não basta. O conhecimento da história do pensamento, das ideias filosóficas principais, que caracteriza o estudo da filosofia na Europa continental e no Brasil, pode ser muito contributivo de uma certa lucidez diante do mundo. Mas não basta. A filosofia pode explicar o que significa deliberar, escolher, decidir e o que são valores. A filosofia te dá vários instrumentos. Ainda assim, é preciso viver. É preciso sair do campo do conhecimento para o campo propriamente prático da vida. E isso são outros 500.

“A filosofia te dá vários instrumentos. Ainda assim, é preciso viver. É preciso sair do campo do conhecimento para o campo propriamente prático da vida.” Clóvis de Barros Filho

O senhor é conhecido por ser um filósofo que consegue se comunicar com as massas e usar uma linguagem acessível. Acha que parte dos intelectuais tem um perfil contrário? A linguagem acadêmica é excludente?

Acho que sim, mas isso não significa uma crítica. O trabalho acadêmico é extremamente necessário. É o trabalho de gestão de ideias propriamente dito e o meu é complementar, periférico e vinculado ao deles. Eles pensam as novas ideias e eu dou um jeito de empacotar de um jeito compreensível. Se eles não fizerem o trabalho deles, eu também não tenho o que fazer.

Sou muito, primeiro, muito agradecido porque fui ensinado por eles, e segundo, muito admirador do que fazem na universidade. Acho que o que eles fazem na universidade requer, muitas vezes, por conta do rigor, o uso de um jargão inacessível. E aí, claro, haverá pessoas que, talvez com um pouco menos de rigor, mas com um pouco mais de exemplos e aproximação com o repertório mais amplo e menos especializado, que consiga aproximar dessas pessoas as ideias filosóficas.

Claro, podemos dizer que se não tivesse isso que eu faço, aquilo ficaria na mão de dois ou três. É possível. Mas também é verdade que, se os filósofos não tivessem pensado do jeito que pensaram e produzido do jeito que produziram, eu não teria o que explicar.

O senhor tem se comunicado bastante com a sua audiência pelas redes sociais. Acha que elas são importantes para ser um comunicador hoje em dia? Isso é positivo ou negativo?

São coisas muito diferentes. Tenho dois podcasts que vão ao ar nas terças e quintas. Tenho lá as pessoas que me ouvem. Alguns episódios mais, outros menos. O modo como o conteúdo se dissemina na internet é um enigma, acho que, para todos. Mas, de qualquer maneira, é um número expressivo de pessoas que ouvem filosofia todo dia. E tenho reflexões matinais por WhatsApp de segunda, quarta, sexta, sábado, domingo. A rigor, eu me manifesto todos os dias. Isso é um trabalho e ele é consumido por um nicho muito específico de pessoas.

Agora, há também as redes sociais propriamente ditas. Tudo ganha uma mobilidade muito maior e, muitas vezes, você propõe mensagens que nada têm a ver com filosofia. Como, por exemplo, eu andando de patinete em Portugal. E por que isso? Por que um vídeo de dois minutos de um patinete tem mais visualização do que uma live de uma hora sobre Schopenhauer [filósofo alemão, 1788-1860]. A nossa sociedade é assim. Então, você usa como isca.

Se isso é positivo ou negativo? Eu diria que isso é o que é: uma realidade que se impõe e que só pode ser identificada como boa ou má em função do uso que efetivamente se faz. Penso que, na maioria das vezes, eu dignifiquei a técnica. E fiz dela algo com um propósito que eu acho que foi bom para as pessoas que consumiram aquilo.

“Um vídeo de dois minutos de um patinete tem mais visualização do que uma live de uma hora sobre Schopenhauer. A nossa sociedade é assim”. Clóvis de Barros Filho

Por outro lado, claro, isso permite às pessoas manifestarem tudo que elas têm dentro de si. Algumas agridem, outras xingam, outras defendem, outras mentem, outras caluniam. E isso faz parte. Mesmo um trabalho completamente nichado como é o meu é espaço para que muita gente ataque pelos motivos mais variados, o que é muito entristecedor. Eu nunca tive preparo para isso, não. Sobretudo quando você é atacado em cima de coisas que realmente não fazem parte da sua vida de jeito nenhum. São loucuras mesmo.

Como costuma acontecer na vida, o trabalho na internet tem muitas coisas legais e muitas coisas horríveis. Elas vêm todas agarradas, juntas e misturadas. É preciso ter consciência de até onde e até quando vale a pena. Quando não valer mais a pena, a gente pega e simplesmente se retira, como tantos já fizeram. Mas, por enquanto, eu preciso disso para trabalhar. Até porque eu vivo de palestras. De tudo o que eu faço, a única coisa propriamente rentável são as palestras. E se eu sou chamado para as palestras, é também por conta da minha presença nas redes sociais. Se eu tivesse completamente ausente das redes sociais, provavelmente eu não teria os convites que tenho. Então, é o que temos.

A autoajuda carrega um estigma hoje em dia, seja porque há quem venda falsas promessas, seja porque há quem considere que é uma literatura menor. O seu livro é um livro de autoajuda? O que o senhor pensa sobre esse estigma que o título carrega?

Eu acho que nessa categoria tem produção de qualidades muito diferentes. É claro que eu espero que a leitura do meu livro ajude as pessoas que estão lendo. O que não é cabível é a formatação de protocolos existenciais a serem seguidos, práticas a serem reproduzidas. Isso eu nunca fiz, e sempre debochei. A título de exemplo: “como ficar rico”. Eu sempre brinquei: como é que eu poderia ensinar como ficar rico, se eu mesmo nunca fiquei?

Claro, você tem todos aqueles que afirmam ter prosperado e eles contam como fizeram isso. É uma atividade, entre outras. Ela não serve para mim, porque eu sempre levei uma vida de professor, e mesmo como palestrante, que é mais bem remunerado, isso nunca foi suficiente para enriquecer. De qualquer maneira, tudo o que eu gostaria é que as pessoas pensassem melhor e decidissem soberanamente. Quem sabe até que decidissem que não querem enriquecer, que isso não é necessário para terem uma vida boa. Isso já seria um ganho enorme.

Como a sua doença mudou a forma como o senhor pensa a sua vida hoje?

Mudou muito. De certo modo, eu parto da premissa que a vida já podia ter acabado. E, portanto, parto também da certeza de que ela pode acabar a qualquer momento. Mas é um pouco diferente. É claro que a vida de qualquer um pode acabar a qualquer momento. O problema é que isso não passa pela consciência das pessoas. No meu caso, não. Estou vivendo hoje e amanhã não sei.

Muda muito porque as coisas têm que valer em um curtíssimo espaço de tempo. Não adianta nada você me dizer: “olha professor, vamos fazer durante cinco anos um podcast e aí o senhor vai enriquecer”. Desculpe, mas a proposta não é tentadora no meu caso, porque é muito pouco provável que eu esteja vivo daqui cinco anos. Se o bem bom vem daqui cinco anos, não serve para mim. A vida precisa valer agora. De preferência, onde ela está acontecendo.

De certo modo, esse novo jeito de viver me aproxima muito de certas sabedorias antigas, de uma vida que tem que valer aonde ela está. Você se vê obrigado a encontrar graça nos prazeres do espírito, não é? Ontem mesmo eu estava lendo um texto do Eça de Queiroz que eu não conhecia, Alves & Companhia. Alguém me perguntará: “e você está lendo o Eça de Queiroz para quê?” Eu fico muito feliz de responder que eu estou lendo o Eça de Queiroz para ser feliz, para viver bem, para ter um prazer que a imaginação despertada a partir da trama lida me encante. A leitura vale pela leitura, assim como a vida vale pela vida.

Tags: "estar vivo em 5 anos""pouco provável""vida precisa valer agora"Clóvis Barros FilhoDestaque
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