Com 151 lojas próprias e quase 40 anos de atuação, rede de alimentação recorre à Justiça em meio a recorde de pedidos, juros altos e endividamento das famílias
Brasília – O Grupo Gennius, controlador das marcas Habib’s, Ragazzo e Tendall, entrou com pedido de recuperação judicial declarando à Justiça uma dívida de R$ 265,2 milhões. O processamento do pedido foi deferido nesta terça-feira (25), pela 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, em decisão do juiz Jomar Juarez Amorim, que nomeou a KPMG Corporate Finance como administradora judicial.
A medida ocorre cerca de dois meses depois de o grupo obter uma tutela cautelar de 60 dias que o protegia contra protestos e cobranças, enquanto tentava negociar com os credores fora da Justiça uma dívida que, à época, era estimada em R$ 312 milhões.
O conglomerado reúne dez franqueadoras e holdings de participação, 17 sociedades operacionais, seis churrascarias Tendall, 119 lojas próprias do Habib’s e 26 unidades do Ragazzo, em uma estrutura que distribui produção de alimentos, serviços, participações e pontos de venda entre diferentes empresas.
A rede atua no Brasil há quase 40 anos e também opera por meio de franquias, que representam parcela relevante das unidades, embora as lojas franqueadas não estejam incluídas no processo de recuperação judicial. Em nota, a empresa afirmou que a medida integra seu processo de reestruturação financeira, “com o objetivo de preservar a sustentabilidade e a evolução do negócio no longo prazo”, e garantiu que “as operações do Grupo seguem funcionando normalmente, mantendo o atendimento aos clientes, a rotina e a qualidade de suas unidades”.
No pedido apresentado à Justiça, o grupo atribuiu parte da crise aos efeitos da pandemia de Covid-19, que reduziu o movimento em shoppings e centros urbanos onde se concentravam muitas de suas lojas, e à expansão do delivery, que mudou os hábitos dos consumidores e esvaziou os restaurantes. A empresa citou ainda a alta dos juros, que encareceu suas dívidas enquanto o caixa era pressionado pela queda no movimento, cenário que dificultou o pagamento de fornecedores. Segundo o UOL, o grupo só recorreu à Justiça após não fechar um acordo com os credores fora do processo.
Na decisão que deferiu o processamento, o juiz Jomar Juarez Amorim suspendeu as ações e execuções contra as empresas, com as exceções previstas em lei, e determinou que o processo permaneça público, ressalvando apenas documentos com informações sensíveis, como a relação completa dos empregados, com funções e salários, e os bens dos controladores. O magistrado também afastou a aplicação automática das cláusulas de vencimento antecipado de dívidas por ingresso em recuperação judicial, conhecidas como “ipso facto”, por entender que podem contrariar o princípio de preservação da empresa. Pela decisão, os credores sujeitos ao processo não poderão interromper contratos apenas em razão do ajuizamento nem deixar de fornecer insumos ou serviços essenciais, desde que recebam pagamento à vista.
Houve, porém, uma derrota relevante para o grupo. A Justiça negou o pedido de “quebra das travas bancárias”, que liberaria recebíveis e investimentos cedidos fiduciariamente aos bancos para ampliar o caixa. Na avaliação do juiz, os recebíveis dados em cessão fiduciária não ficam sujeitos aos efeitos da recuperação judicial, de modo que as instituições financeiras poderão continuar retendo esses recursos para amortizar os créditos garantidos, mesmo durante o processo.
Os próximos passos seguem o rito previsto em lei. A KPMG Corporate Finance terá 15 dias para apresentar um relatório sobre a situação das companhias e avaliar o pedido para que o grupo seja tratado de forma consolidada no processo. Em seguida, será publicado um edital com a relação de credores, que terão 15 dias para contestar valores ou pedir habilitação. O grupo terá prazo improrrogável de 60 dias, a partir da publicação da decisão, para apresentar o plano de recuperação com a proposta de pagamento das dívidas; se o prazo não for cumprido, o processo poderá ser convertido em falência. Depois da entrega do plano, haverá prazo de 30 dias para objeções, que podem levar à convocação de uma assembleia de credores para negociar e votar a proposta de reestruturação.
O caso do Grupo Gennius não é isolado, mas integra uma onda de reestruturações que marcou o ano de 2026 no Brasil. Segundo o Monitor RGF-BizDoc, o país encerrou o primeiro semestre com 6.341 empresas em recuperação judicial ativa, crescimento de 6,2% em relação ao fim de 2025, em patamar recorde da série. O avanço, porém, foi puxado principalmente por micro e pequenas empresas, com alta de 133% e 69% desde 2023, respectivamente, enquanto as médias cresceram 31%, o que indica uma pulverização dos pedidos entre companhias de menor porte.
No varejo, setor epicentro da crise, o número de empresas em recuperação judicial chegou a 986 no fim do primeiro semestre, alta de 20,4% em 12 meses, e as grandes redes reestruturaram mais de R$ 68 bilhões em dívidas nos últimos dois anos e meio. Entre os casos mais emblemáticos de 2026 estão o Grupo Casas Bahia, que protocolou pedido em agosto com dívida de R$ 17,3 bilhões, fechou 298 lojas e demitiu cerca de 3 mil funcionários, e as Lojas Marabraz, que recorreram ao mesmo instrumento na mesma semana. Também entraram em recuperação judicial o Grupo Toky, dono de Tok&Stok e Mobly, com dívida de R$ 1,1 bilhão, e a Casa & Vídeo. No campo da recuperação extrajudicial, destacam-se a Raízen, com a maior dívida do período, de cerca de R$ 65 bilhões, a Braskem, com aproximadamente R$ 56 bilhões, o Grupo Pão de Açúcar (GPA), com R$ 4,5 bilhões, e a Oncoclínicas, com R$ 5,2 bilhões.
Os especialistas atribuem a onda a uma combinação de fatores estruturais, entre eles o ciclo de alta da Selic iniciado em setembro de 2024, que elevou a taxa de 10,5% para até 15% e encareceu o crédito, o endividamento recorde das famílias, que comprime o consumo, a concorrência do e-commerce e a mudança nos hábitos de compra, além de problemas de capital de giro e patrimônio líquido negativo em várias redes. A consultoria RGF aponta ainda que há pelo menos outras 70 companhias monitoradas com indicadores críticos, das quais 12 já estão em recuperação judicial e duas em extrajudicial, sinal de que a tendência de aumento nos pedidos pode continuar ao longo do ano.
O tema, em pleno ano eleitoral, também virou munição política, com a oposição usando o recorde de recuperações como crítica à gestão do governo Lula. Em resposta, o Ministério da Fazenda afirma que os pedidos caíram em 2026 e se concentram no agronegócio, em contraponto direto à leitura de que o número seria efeito da administração atual. O consenso técnico, porém, atribui a crise a causas macroeconômicas e estruturais anteriores ao mandato, como juros elevados, crédito escasso e a Lei 14.112/2020, que flexibilizou os mecanismos de recuperação, o que indica que o recorde é real, mas suas causas são estruturais e a atribuição a um governo específico permanece em debate.
Para o Grupo Gennius, o desfecho dependerá da capacidade de apresentar, nos próximos 60 dias, um plano viável de pagamento que convença os credores em assembleia, em um cenário de juros altos e consumo pressionado que já levou gigantes do varejo à mesma situação.
A recuperação judicial, nesse contexto, funciona como um fôlego legal para a reestruturação, mas não elimina os riscos de conversão em falência nem a disputa travada com os bancos pela retenção dos recebíveis, o que torna o futuro de uma das redes de alimentação mais tradicionais do país um teste decisivo para a resiliência do setor diante da crise que atravessa o mercado brasileiro.
Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















