☞ Do luxo exibido nas redes sociais à investigação: Nelson Wilians pode experimentar o banco dos réus após operação conjunta
☞ Advogado é investigado simultaneamente por fraudes no INSS e ICMS
☞ Escritórios de advocacia ligados ao Grupo Wilians comercializaram créditos tributários falsos junto a 752 empresas, movimentando R$ 4,3 bilhões em operações suspeitas entre 2019 e 2024
Brasília – O Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos de São Paulo (Cira/SP) deflagrou, na manhã desta quarta-feira (15), a “Operação Distrato” contra um esquema estruturado de sonegação de impostos que causou prejuízo superior a R$ 3,8 bilhões aos cofres estaduais. A operação cumpriu 38 mandados de busca e apreensão em São Paulo e Paraná, tendo como principal alvo o advogado Nelson Wilians Fratoni Rodrigues, fundador de um dos maiores escritórios de advocacia do país e já investigado por envolvimento em fraudes no INSS.
O Cira é formado pela Secretaria da Fazenda e Planejamento do Estado de São Paulo (Sefaz-SP), pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) e pela Procuradoria-Geral do Estado (PGE/SP), contando com apoio das polícias Civil e Militar. O objetivo da operação é reunir novos elementos probatórios, identificar beneficiários econômicos e responsabilizar os envolvidos nas esferas administrativa, cível e penal.
A investigação revela um esquema sofisticado de fraude tributária em que escritórios de advocacia e consultorias jurídicas ofereciam a empresários paulistas a possibilidade de reduzir o pagamento do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) mediante a compra de supostos créditos tributários vendidos com desconto. Os intermediários afirmavam que esses créditos eram legais e haviam sido autorizados pela Secretaria da Fazenda, apresentando a operação como forma legítima de planejamento tributário. Essa autorização, no entanto, nunca existiu.
Segundo as investigações do Ministério Público de São Paulo (MPSP), após aderir ao esquema, as empresas deixavam de pagar integralmente o ICMS devido ao Estado e repassavam aos intermediários comissões que podiam chegar a 70% do valor do imposto economizado. Dessa forma, recursos que deveriam ser destinados aos cofres públicos eram desviados para os estelionatários. O Cira identificou infrações em 752 empresas, consolidando um dos maiores esquemas de fraude fiscal investigados no estado.
Os créditos tributários negociados estavam vinculados a empresas sem condições de operar, massas falidas ou operações comerciais consideradas fictícias. Para criar aparência de legalidade, os investigados utilizaram contratos, procurações, apólices de seguro e até documentos falsos atribuídos à própria administração tributária. O esquema operava sob três grupos econômicos distintos: o Grupo NW (Nelson Wilians), o Grupo Alpha e o Grupo DMC, cada um com características próprias e fundamentos diferentes para a alegada origem dos créditos.
No caso do Grupo Alpha, os créditos comercializados eram apresentados como derivados da massa falida da empresa Nortel Networks Telecomunicações do Brasil Ltda, com o objetivo de sustentar a alegada disponibilidade e segurança das compensações tributárias. Já o Grupo DMC alegava a existência de direitos creditórios decorrentes de uma ação judicial de desapropriação relacionada à Usina Santa Rita, datada da década de 1970. Embora os agrupamentos apresentassem características próprias, todos estavam associados a operações que resultaram na inserção de créditos de ICMS posteriormente considerados irregulares pela Administração Tributária.

Nelson Wilians: investigações múltiplas e ostentação nas redes sociais
Nelson Wilians, bacharel em direito desde 1999, transformou seu escritório de advocacia tributária em uma das maiores estruturas jurídicas brasileiras. Porém, sua trajetória profissional é marcada por uma contradição reveladora: enquanto constrói uma imagem pública de ostentação nas redes sociais — exibindo mansões, jatos particulares, helicópteros, iates e viagens internacionais para locais paradisíacos para seus 1,5 milhão de seguidores — enfrenta investigações por esquemas de fraude que movimentaram bilhões. A persona do “Advogado Ostentação” mascara um padrão de comportamento que levanta questões sobre a origem da riqueza exibida.
Em setembro de 2025, durante a Operação Cambota (segunda fase da Operação Sem Desconto), a casa e o escritório de Nelson Wilians foram alvo de mandados de busca e apreensão cumpridos pela Polícia Federal no âmbito da investigação sobre o esquema de descontos indevidos em aposentadorias do INSS. Na ocasião, foram encontradas esculturas e obras de arte nos endereços. Seu ex-sócio, Fernando dos Santos Andrade Cavalcanti, também foi alvo da operação.
Conforme relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), Nelson Wilians movimentou R$ 4,3 bilhões em operações financeiras consideradas suspeitas entre 2019 e 2024. A maior movimentação suspeita ocorreu entre setembro de 2021 e abril de 2022, totalizando R$ 1 bilhão, sendo R$ 529,8 milhões em créditos e R$ 522,8 milhões em débitos. Entre outubro de 2023 e julho de 2024, período que compreende o auge da chamada “Farra dos Descontos” do INSS, a banca de Nelson Wilians movimentou R$ 883 milhões.
Um relatório do Coaf revelou pagamentos no valor de R$ 15,5 milhões feitos por Nelson Wilians a Maurício Camisotti, investigado como possível “beneficiário final” da fraude de descontos sobre aposentadorias. Além das transações milionárias, outro negócio envolvendo mansões em uma das regiões com o metro quadrado mais caro de São Paulo une Camisotti e Wilians.
Em novembro de 2020, o empresário adquiriu, por R$ 22 milhões, uma mansão no Jardim Europa, bairro nobre paulistano, que posteriormente se tornaria jardim da mansão de Nelson Wilians. A defesa do advogado afirmou que a relação com Camisotti é “estritamente profissional e legal”, referindo-se à aquisição como “transação lícita e de fácil comprovação”.

Segundo publicação semanal especializada, o iate Singular, de 103 pés construído pelo estaleiro italiano Azimut, é uma obra de luxo: quatro cabines, proa com sofás e almofadas em tons variados de azul, capacidade para dez hóspedes. A embarcação repousa ancorada em Angra dos Reis, em frente a uma mansão de dois andares e seis suítes projetada pelo arquiteto Claudio Bernardes, localizada na exclusiva Ilha do Cavaco — acessível apenas por helicóptero ou barco. Tudo pertence a Nelson Wilians. “No céu, no mar, na terra”, o advogado cultiva uma imagem de homem de bom gosto e sucesso. “A pobreza é coisa do passado”, costuma proclamar em palestras, oferecendo a platéias ávidas a fórmula para enriquecer — uma fórmula que, conforme investigações apontam, pode ter sido construída sobre fraudes bilionárias.
Alvos da operação
A “Operação Distrato” cumpriu mandados em São Paulo, Campinas, Jundiaí e Ribeirão Preto, além das cidades paranaenses de Londrina e Cambé. Entre os principais alvos estão integrantes do Grupo Econômico NW, incluindo a advogada Mayra Fahur de Paula, cujo escritório é localizado em Londrina, no Paraná, apontada como integrante do núcleo principal do esquema. A esposa de Nelson, Anne Wilians, também está entre os alvos de mandados de busca e apreensão.
Outro alvo da operação foi o empresário Fernando dos Santos Andrade Cavalcanti ligado ao Grupo Econômico NW (Nelson Wilians). Cavalcanti também foi alvo de operação anterior — em setembro de 2025, durante a “Operação Cambota” (segunda fase da Operação Sem Desconto), quando a Polícia Federal cumpriu mandados contra Nelson Wilians no âmbito da investigação sobre fraudes no INSS.
O Grupo Econômico NW é composto por pessoas jurídicas como DPAW Assessoria em Cobrança Ltda., Strategi Intermediação Corporativa Ltda., Valestra Assessoria, Auditoria e Gestão Ltda. e Valestra Negócios e Investimentos Ltda. Entre as pessoas físicas investigadas estão Aiche Ibrahim Abou Nassif, Fernando dos Santos Andrade Cavalcanti, Leticia Anastacio Céu e diversos advogados associados ao escritório.
Figurinhas carimbadas da CPMI do INSS
A Operação Distrato insere-se em um contexto mais amplo de investigações contra fraudes fiscais e esquemas de lavagem de dinheiro que envolvem profissionais do direito. Em março de 2026, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS pediu o indiciamento de Nelson Wilians e Anne Wilians por crimes de lavagem de dinheiro e organização criminosa, conforme relatório do deputado Alfredo Gaspar (PL-AL). O casal é citado por suspeita de envolvimento em fraudes que causaram prejuízos significativos ao instituto previdenciário.
A investigação evidencia como profissionais do direito, que deveriam atuar como guardiões da legalidade, tornaram-se protagonistas de esquemas de fraude tributária e previdenciária de grande envergadura. A sofisticação dos mecanismos utilizados, incluindo a falsificação de documentos e a criação de estruturas empresariais fictícias, demonstra o caráter organizado e premeditado das atividades investigadas.
Após essa fase, as provas serão analisadas pelo Ministério Público que pode enviar uma denúncia à Justiça.
Os milhares de seguidores do “advogado ostentação” podem perder acesso ao seu feed diário de ostentação enquanto as autoridades investigam a origem questionável de uma fortuna que movimentou R$ 4,3 bilhões em operações suspeitas. A pergunta que fica é: por quanto tempo as investigações levarão para responsabilizar os envolvidos?
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















