Direita em turbulência, Lula em contradição e petróleo desperdiçado: os três dilemas da semana
POLÍTICA
Disputa interna no bolsonarismo
Críticas públicas contra a campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) reacendem disputa sobre influência estratégica. Aliados questionam a concentração de poder do coordenador Rogério Marinho (PL-RN), indicado por Jair Bolsonaro. Há movimento de “fritura” nas redes sociais para enfraquecer Marinho, com apoio de Eduardo Bolsonaro e influenciadores. A campanha nega crise, afirmando que críticas partem de pessoas excluídas da estrutura. Fábio Wajngarten propôs alternativas: Marcello Lopes na coordenação, Duda Lima na comunicação, Walter Longo no planejamento e Antônio Costa Neto na criação. Porém, nenhum deles integra formalmente a campanha. Líderes do PL como Sóstenes Cavalcante e Carlos Portinho defendem Marinho. Valdemar Costa Neto busca pacificação, priorizando unidade da direita. ——
— Lula, agradece.
E por falar em Lula…
O presidente Lula critica como “papagaiada desgraçada” a norma que proíbe candidatos em inaugurações de obras públicas nos três meses antes do pleito (artigo 77 da lei 9.504/1997). Embora reconheça base empírica na crítica à legislação eleitoral brasileira, o Planalto monitora rigorosamente atos de governo: a AGU verifica postagens de ministros em redes sociais e removeu anúncios antigos de páginas digitais de pastas e da EBC.
…Guerra nos tribunais
PT e PL já preenchem o TSE com representações. A judicialização ocorre com hipocrisia: tanto Lula em desfile de escola de samba (fevereiro) quanto Flávio em ato na avenida Paulista (1º de março) têm pretensões óbvias. Lula dispõe de mais recursos da máquina federal. A propaganda eleitoral oficial começa em 16 de agosto. A lei pode ser revista, mas candidatos devem agir com autocontenção, mas, ninguém obedece porque a “Lei é Potoca”.

Dois deputados federais paraenses na lista de recorde em gastança
A Câmara registrou R$ 121,5 milhões em despesas reembolsadas pela Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (Ceap) entre janeiro e julho de 2026. Carlos Veras (PT-PE) lidera com R$ 371.292,30, seguido por Átila Lins (PSD-AM) com R$ 368.197,90 e Albuquerque (Republicanos-RR) com R$ 364.694,73. Os vinte maiores gastos somam R$ 6,79 milhões (5,6% do total), distribuídos entre 13 Estados e 8 partidos. O PP lidera entre legendas com 5 representantes. Principais despesas: divulgação da atividade parlamentar, locação de veículos, manutenção de escritórios, combustíveis e passagens aéreas. Limites variam por Estado para compensar custos de deslocamento; Roraima, Acre, Amazonas e Rondônia têm maiores cotas; Distrito Federal tem a menor.

Mistério
Não é plausível, no entendimento do eleitor, que a maioria dos deputados fazem até muito mais que os gastadores — basta acompanhar os números de perto da performance de cada um —, com muito menos gastos da cota da Ceap.
Keniston Braga e Antônio Doido, ambos do MDB, gastam como se não houvesse amanhã, tadinhos.
O levantamento foi publicado pelo Site Congresso em Foco.
LEGISLATIVO
Proteção ampliada a trabalhadoras domésticas
A lei 15.455/2026, em vigor desde julho, amplia proteção a trabalhadoras domésticas resgatadas de condições análogas à escravidão. Benefícios: prioridade no Bolsa Família, reinserção no mercado de trabalho, seguro-desemprego estendido de 3 para 6 parcelas, medidas protetivas similares à Lei Maria da Penha (proibição de contato, assistência psicossocial, acolhimento emergencial e inclusão no CadÚnico). Lula vetou apenas a determinação judicial de inclusão no seguro-desemprego, para evitar atrasos. O Ministério do Trabalho resgatou 2.772 pessoas em 2023. Denúncias podem ser feitas no sistema Ipê (ipe.sit.trabalho.gov.br), com apoio da Organização Internacional do Trabalho OIT.
Tudo isso em pleno 2026 do Século XXI.
Debate sobre educação a distância pegou fogo
Audiência pública na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados pegou fogo. O ponto central divergiu sobre o fim de licenciaturas exclusivamente a distância. Defensores da modalidade apontam que 73% dos municípios carecem de ensino superior presencial (4 mil localidades), prejudicando populações vulneráveis.
Os números falam por si
A deputada Greyce Elias (PL-MG) alerta para déficit de professores na educação básica. O MEC editou resolução (2024) e decreto (2025) exigindo 30% de atividades presenciais em cursos de licenciatura a distância e proibiu cursos a distância em saúde e Direito. Leonardo Pascoal, do Conselho Nacional de Secretários de Educação (CONSED) defende a mudança: 53% dos alunos de educação a distância não atingiram nota mínima no ENADE, contra 74% na modalidade presencial. Maria Júlia Lima (Movimento Profissão Docente) cita estudo da FGV mostrando que 60% da aprendizagem dependem do professor.
O problema vai longe —e, em se tratando do Brasil, os interessados que esperem sentados.
Redução de jornada para pais de pessoas com deficiência
A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara (CCJ) aprovou na quarta-feira (8), a proposta que reduz jornada de trabalho sem prejuízo salarial para pais de pessoas com deficiência (PL 2458/2025). Necessidade e percentual serão definidos por avaliação biopsicossocial a cada dois anos, podendo ser ampliado, mantido, reduzido ou suspenso. A deputada Soraya Santos (PL-RJ) defendeu critérios para evitar fraudes. O projeto segue para análise do Senado, a menos que haja recurso para votação no Plenário da Câmara.
Fiscalização aduaneira e comércio eletrônico
A Receita Federal implementará sistema que exclui do programa Remessa Conforme plataformas que permitam venda de produtos subfaturados ou falsificados. Fabrício Betto (Receita) anunciou uso de Inteligência Artificial para analisar conteúdo de pacotes via scanner, comparando imagens com descrições. Empresas com menos de 98% de conformidade serão excluídas.
Aperto na fiscalização
O novo Remessa Conforme 2.0 estabelecerá comunicação direta entre Receita e plataformas, permitindo avaliação prévia de anúncios. Após a volta da isenção tributária em maio, remessas aumentaram 30%. Encomendas cresceram de 30 milhões (2019) para 200 milhões (2023). Arrecadação esperada para 2026: R$ 5 bilhões (10% do volume importado). Edson Vismona, do Instituto Brasileiro de Engenharia de Custos (IBEC) aponta alta carga tributária como fator de comercialização ilegal.
ESPORTES
Isenção de ISS para Copa Feminina
Lula sancionou lei (LC 232/2026) autorizando isenção de ISS para empresas na organização da Copa do Mundo Feminina de Futebol 2027. Isenção depende de aprovação de leis locais nas cidades-sede: Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Salvador, Fortaleza e Porto Alegre. Belém está fora das cidades-sede em mais um cochilo de nossos prestimosos políticos. A deputada Laura Carneiro (PSD-RJ), relatora, destacou relevância do evento como primeiro na América do Sul e marco para valorização do futebol feminino. Competição ocorre entre 24 de junho e 25 de julho de 2027.
ECONOMIA
Petróleo: segunda oportunidade desperdiçada
Produção brasileira saltou de 1 milhão de barris/dia (anos 2000) para 4,7 milhões em 2026, atingirá pico de 5,3 milhões em 2030, segundo estimativas. Receitas petrolíferas (royalties, participações especiais, óleo-lucro) passaram de 0,2% do PIB (2000) para 1,3% (2022), situando-se em 1,1% (2025). Porém, país mergulhou em crise fiscal (2015-16) com desequilíbrio estrutural crônico, sob Taxad e Lula 3.0.
Governo torrou o dinheiro
A renda petrolífera foi consumida, não poupada nem investida estrategicamente. Brasil explora apenas 1/4 das reservas do pré-sal; Margem Equatorial pode estender receitas por décadas. Experiência internacional: Chile instituiu regra estrutural em 2001 (antes do boom do cobre); Noruega criou fundo soberano nos anos 1990 (antes do pico de 2000-01). No Chile, painéis técnicos estimam PIB potencial e preço tendencial do cobre; excedente cíclico é poupado em fundos soberanos. Na Noruega, fundo supera US$ 2,2 trilhões (3x o PIB) e investe 100% no exterior, mitigando doença holandesa. Brasil faz o oposto: royalties integram a Receita Corrente Líquida (RCL), indexando despesas permanentes e amplificando prociclicidade.
Agenda proposta: reformar LRF (retirando essas receitas de RCL), criar regras fiscais anticíclicas, constituir fundos soberanos com segregação real, corrigir partilha federativa injusta e destinar parcela a investimentos em capital físico, humano e adaptação climática. Oportunidade de estruturar política de longo prazo não é infinita, uma vez que estamos muito, mas muito distantes mesmo da propalada mudança energética sem hidrocarbonetos.
Por que será?
Mapa divulgado pelo empresário Luciano Hang.

Não é só no Futebol que o Brasil desce a ladeira. Na Economia, o desastre é iminente.
Val-André Mutran é repórter especial para o Portal Ver-o-Fato e está sediado em Brasília.
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