Comerciante ora acusa Gaspar de estupro, ora diz ter participado de armação; nenhuma prova foi apresentada
Brasília – O homem apontado como estopim da acusação de estupro de vulnerável contra o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), candidato a vice-presidente na chapa do senador Flávio Bolsonaro (PL), apresentou versões opostas nos últimos cinco meses em contatos com congressistas, com a Polícia Legislativa Federal da Câmara e com a imprensa, ora sustentando a acusação, ora afirmando ter participado de uma armação contra o parlamentar. Luiz Antônio Lopes, comerciante que teria procurado o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) e a senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) durante a CPI Mista do INSS, mudou de relato ao menos três vezes, sem apresentar provas em nenhuma das versões, enquanto o caso tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) e alimenta o embate político numa prévia entre a campanha do PL e o governo.
O estopim da acusação
A história começou em março de 2026, no auge dos trabalhos da CPI Mista do INSS, da qual Gaspar era relator. Segundo o relatório entregue ao Supremo, Luiz Antônio Lopes procurou Lindbergh Farias e Soraya Thronicke com a versão de que Gaspar teria estuprado e engravidado uma adolescente, dizendo ter provas e contatos da vítima.
A acusação foi explorada politicamente na ocasião pelos parlamentares governistas, que encaminharam à Polícia Federal uma notícia-crime em 27 de março, no mesmo dia em que Gaspar lia seu relatório final com a proposta de indiciamento de mais de 200 pessoas, entre elas o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula (PT).
A virada de versão em abril
Pouco depois, em abril, Luiz Antônio procurou o gabinete de Gaspar e adotou relato oposto. Em depoimento à Polícia Legislativa Federal da Câmara dos Deputados, afirmou ter havido uma armação de Lindbergh, dizendo que uma mulher teria sido paga para contar a uma repórter que havia sido estuprada pelo deputado quando tinha 13 anos, com uma criança nascida do suposto crime, hoje com 8 anos. No depoimento, o comerciante disse que havia empregado a mulher no quiosque que mantinha em um shopping no Rio de Janeiro e acusou Lindbergh, por meio de pessoas supostamente ligadas a ele, de bancar a farsa para prejudicar Gaspar. Uma semana depois do depoimento, Luiz Antônio se filiou ao PL.

As contradições à imprensa
Em conversa com a Folha na semana passada, quando Gaspar foi anunciado candidato a vice de Flávio, Luiz Antônio mudou de versão mais de uma vez, retomando a acusação feita em março contra o deputado e prometendo provas, sem, no entanto, apresentá-las. Na ocasião, manteve a acusação, mas disse ter dificuldades para falar com a alegada vítima, inclusive por falta de dinheiro para ir até a casa dela, no interior do Rio. Afirmou manter contato com a suposta vítima, hoje uma mulher de 22 anos, mas forneceu apenas os primeiros nomes dela e da suposta criança, Jailma e Eloá, sem qualquer indício da existência das duas. Nesta terça-feira (11), adotou relato divergente do da semana anterior, dizendo que “a moça contratada fará um vídeo falando a verdade” e que houve uma armação contra Gaspar, mas negando ter mudado de versão.
O trâmite no STF
O depoimento de Luiz Antônio à Polícia Legislativa foi enviado ao STF em maio, de acordo com a Câmara dos Deputados, sem que o caso fosse efetivamente investigado devido à citação a Lindbergh, que tem foro especial.
A PF pediu a abertura de investigação sobre o suposto crime de estupro de vulnerável ao STF em 15 de abril. O ministro relator, Gilmar Mendes, solicitou uma posição da Procuradoria-Geral da República (PGR), a quem cabe definir se chancela o requerimento da corporação.
A Câmara informou que o boletim de ocorrência foi feito a pedido de Gaspar e que, “diante da citação de titular de prerrogativa de foro no curso da apuração, encaminhou o caso ao Supremo Tribunal Federal em maio de 2026, não tendo realizado novas diligências desde então”.
A reação de Gaspar
Quando foi anunciado candidato a vice de Flávio, na semana passada, Gaspar pediu à PGR e ao STF que acelerem o exame de DNA que afastaria, segundo ele, a acusação, e disse que vai até o fim no processo contra Lindbergh e Soraya sob acusação de calúnia, denunciação caluniosa, injúria e coação no curso do processo.
O deputado, ex-promotor de Justiça e ex-secretário de Segurança Pública de Alagoas, nega as acusações e afirma que a história divulgada envolveria seu primo num relacionamento antigo, e não configuraria crime. O primo, hoje casado com outra mulher, assumiu a paternidade da garota que nasceu desse relacionamento, segundo a versão apresentada em sua defesa por Alfredo Gaspar.
A posição da campanha do PL
Em nova manifestação na terça-feira (11), a campanha do PL reafirmou que o caso é falso e disse que a denúncia surgiu por causa da atuação de Gaspar na CPI do INSS, em que pediu o indiciamento de Lulinha.
“O candidato à Vice-Presidência Alfredo Gaspar é um homem íntegro, com vida limpa, que passou a ser alvo dessa acusação falsa no dia em que ele pediu a prisão de Lulinha por seu envolvimento no roubo dos aposentados do INSS”, disse a campanha de Flávio, em nota. “Não iremos parar até Lulinha responder por todos os seus atos. E sobre as acusações mentirosas, como as feitas por Lindbergh do PT contra Gaspar ou as trazidas agora, lembramos: fake news é crime no Brasil e todos que colaborarem para difusão de notícias falsas serão chamados a responder criminalmente por isso”, completou.
A defesa de Lindbergh
Procurado pela imprensa na segunda-feira (10), Lindbergh apresentou vídeos antigos em que é atacado por Luiz Antônio. Em uma das gravações, o homem diz que o deputado seria um dos mandantes da facada contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em 2018, o que é falso.
O petista negou as acusações de armar a denúncia e acionou o STF na segunda-feira pedindo a anulação da investigação, classificando a acusação de “picaretagem”. A senadora Soraya Thronicke, também arrolada pela defesa de Gaspar, foi procurada na segunda-feira, mas não quis se manifestar; a assessoria de imprensa da senadora afirmou que o caso está em segredo de Justiça e que todos os esclarecimentos estão sendo dados às autoridades.
O caso parece antecipar uma prévia de como será o embate PL-PT nessa campanha
O caso ganha contornos de disputa eleitoral direta. Gaspar foi relator da CPI Mista do INSS, que investigou fraudes contra a Previdência, e seu relatório, rejeitado pelo colegiado por 19 votos a 12 na madrugada de 28 de março, pedia o indiciamento de 216 pessoas, entre elas Lulinha, parlamentares e ex-ministros.
A escolha de Gaspar para a vice de Flávio, anunciada em 5 de agosto, transformou o caso das fraudes no INSS em tema central da campanha e reacendeu a denúncia, explorada por adversários do deputado. Além do processo de estupro, Gaspar também é citado em relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre irregularidades em emendas Pix, o que amplia a pressão sobre a chapa.
A campanha de Flávio, por sua vez, mantém Gaspar como vice e classifica as acusações de “farsa”, enquanto o parlamentar rejeita qualquer acordo e promete levar o caso até o fim.
Exposta a teia de versões contraditórias de um mesmo personagem central, Luiz Antônio Lopes, cuja credibilidade é comprometida pelas sucessivas mudanças de relato, sem que nenhuma prova tenha sido apresentada em qualquer das versões complica a situação do denunciante e a quem levou em frente a denúncia.
A ausência de elementos concretos, somada à citação de parlamentares com foro privilegiado, mantém o processo parado no STF, aguardando manifestação da PGR sobre o pedido da PF. Politicamente, a denúncia se insere no confronto entre governo e oposição em torno da CPI do INSS e do indiciamento de Lulinha, transformando uma acusação criminal sem provas em mais um campo de batalha da campanha presidencial de 2026.
Enquanto o exame de DNA prometido por Gaspar não for realizado e as diligências não avançarem, o caso permanece como instrumento de disputa narrativa, com desdobramentos que podem influenciar a percepção pública sobre a chapa do PL e sobre a atuação dos parlamentares governistas, e o tratamento dado pelo justiça será crucial para a decisão de eleitores no campo de indecisos.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















