👉🏻 Enquanto democracias avançadas adotam sistemas que fortalecem a representação, Brasil mantém regras que perpetuam o poder dos “coronéis da política”
A eleição presidencial de 2026 aproxima-se com seus 95 dias de contagem regressiva, marcada para 4 de outubro, com possível segundo turno em 25 de outubro. Neste pleito, os brasileiros escolherão presidente, governadores, senadores e deputados federais, estaduais (no Distrito Federal).
Contudo, enquanto a disputa presidencial monopoliza as atenções e energias do eleitorado, um fenômeno preocupante revela-se: a maioria dos eleitores não consegue sequer recordar em quem votou para os cargos das eleições gerais há apenas quatro anos.
Segundo dados do instituto Ideia Big Data, citados pelo colunista Marcus Pestana, mais de 75% do eleitorado não lembram de seus votos para a Câmara em 2022. Essa amnésia democrática não é trivial; ela expõe uma fissura fundamental no sistema representativo brasileiro.
A Câmara que ninguém conhece
A Câmara dos Deputados é, teoricamente, o espelho da diversidade, pluralidade e identidade do povo brasileiro. É nela que se decide o orçamento nacional, que se formatam as políticas públicas, que se aprovam as leis que regem nossas vidas, que se fiscaliza o Poder Executivo e que se alocam expressivos valores de emendas parlamentares. Sua importância institucional cresceu significativamente nos últimos anos, à medida que recuperou suas prerrogativas constitucionais. Paradoxalmente, porém, a maioria dos eleitores desconhece o nome do presidente da Câmara e não consegue identificar seu próprio representante. Essa desconexão revela uma contradição gritante: a instituição que mais diretamente representa a sociedade é aquela sobre a qual menos se exerce controle democrático efetivo.
O déficit de accountability
Um princípio clássico e essencial na democracia moderna é o da accountability — a responsabilização pelas ações, decisões e resultados, acompanhada de transparência nas informações e prestação de contas. Esse mecanismo permitiria um processo contínuo de avaliação que orientaria as escolhas dos eleitores, reconduzindo ou não determinado parlamentar a um novo mandato. Mas quando o eleitor não sabe sequer o nome de seu representante, esse controle social desaparece. O deputado, livre de qualquer vigilância efetiva, toma suas decisões descolado, frequentemente, da visão de seu eleitor. Embora existam controles difusos através da imprensa e das redes sociais, eles carecem de uma conexão direta com o processo de avaliação e formação da intenção de voto. O resultado é uma distância abissal entre representantes e representados.
O sistema eleitoral como raiz do problema
Nas democracias avançadas — Inglaterra, França e Estados Unidos — adota-se o voto distrital puro. Nesse sistema, em um território reduzido, realiza-se uma escolha entre no máximo dez candidatos, apenas um por partido, pelo voto majoritário. Para ilustrar: se aplicado ao Brasil, cada um dos 53 deputados de Minas Gerais seria escolhido em um distrito com aproximadamente 306 mil eleitores; em São Paulo, cada uma das 70 cadeiras seria preenchida em um espaço com cerca de 491 mil eleitores. Nesse modelo, o eleitor não esquece o nome de seu representante e exerce controle efetivo sobre o exercício do mandato. A democracia ganha em qualidade.
As regras eleitorais brasileiras, porém, são caóticas — mas milimetricamente pensadas para garantir a continuidade do poder dos “coronéis da política” e das “felpudas raposas” que habitam seu entorno. Nelas, um voto vale um saco de cimento, uma cesta-básica ou, na feira da infâmia, R$ 50,00. Há séculos é assim no Brasil, e não há sinais de que isso mudará.
O peso estratégico das mulheres na disputa
Definitivamente, as brasileiras terão um papel estratégico na disputa presidencial de 2026. Os fatos registrados nas últimas semanas não deixam dúvida disso. O vídeo da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, expondo como teria sido “maltratada, humilhada e desrespeitada” após discordância sobre a aliança do PL com Ciro Gomes no Ceará, acendeu o alerta amarelo na campanha bolsonarista — como admitiu o presidente do PL, Valdemar Costa Neto. Esse episódio pode ter inspirado o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a indicar a senadora Teresa Leitão (PT-PE) para substituir Jaques Wagner (PT-BA) na liderança do governo no Senado. A escolha marca a primeira mulher nesse cargo desde a redemocratização brasileira, que completou 41 anos em 2026.
A indicação de Leitão funcionou também como resposta ao desgaste provocado pela Operação da Polícia Federal que expôs a relação próxima do ex-líder do governo no Senado com Augusto Lima, sócio do banqueiro Daniel Vorcaro — uma amizade que incluía caronas em jatinhos, compra de apartamento de R$ 2,5 milhões para a filha e ingressos para show da Taylor Swift nos Estados Unidos.
O voto feminino como fator decisivo
Tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro conhecem bem o peso que as eleitoras brasileiras exercem no resultado final da disputa presidencial. Em 2022, elas foram essenciais para a vitória de Lula: 54% dos votos femininos foram para o petista, enquanto Bolsonaro ficou com apenas 46%. Considerando que a vitória de Lula foi apertada, com 50,9% dos votos válidos, a diferença que o voto feminino fez torna-se ainda mais evidente. Esse peso já se faz presente na pré-campanha, oferecendo uma oportunidade de ouro para que as mulheres se mobilizem e cobrem de todos os presidenciáveis compromissos com suas prioridades e demandas — especialmente diante das situações inacreditáveis, perigosas e, não raramente, fatais que enfrentam.
Um levantamento do Datafolha em parceria com o Movimento Mulher 360, divulgado no início de julho, registra que seis em cada dez brasileiros veem as agressões contra as mulheres como a violência mais grave do país atualmente. Esse dado sinaliza que a sociedade como um todo está preocupada com a situação e abre espaço para reivindicações mais amplas: a indicação de uma mulher para a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal, uma composição mais equilibrada em gênero na Esplanada dos Ministérios e o apoio à discussão no Congresso Nacional sobre a adoção da paridade entre deputados e deputadas na Câmara, como já ocorre em vários lugares do mundo.
Movimentações em curso no Pará
Um acerto político de bastidor está em curso no Pará, com potencial de uma pororoca amazônica, capaz de desarranjar o atual quadro de candidatos aos cargos majoritários desta eleição. Assim que o movimento começar a desbarrancar as estruturas políticas estabelecidas, os detalhes virão à tona, com nomes e responsabilidades claramente identificados.
Val-André Mutran é repórter especial para o Portal Ver-o-Fato e está sediado em Brasília.
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