Entidade pede arquivamento do pedido de nulidade do relatório que liga Moraes e o PGR a Vorcaro e denuncia efeito intimidatório sobre investigadores
Brasília – A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) pediu neste sábado (5) que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, declare-se impedido de conduzir a apuração aberta contra a própria Polícia Federal, no âmbito do caso Banco Master, após a PGR solicitar a nulidade de um relatório que aponta sinais de proximidade entre o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e o fundador da instituição financeira, Daniel Vorcaro.
Em nota pública, a entidade classifica a medida como “intimidatória” sobre os investigadores e pede que o pedido de anulação seja arquivado por ser “via inadequada ao questionamento de ato do STF”. O episódio, que envolve o presidente do Tribunal, Edson Fachin, e o ministro relator André Mendonça, recoloca no centro do debate político e jurídico a independência do Ministério Público e os limites da atuação da Polícia Federal diante de autoridades com foro privilegiado.
A controvérsia começou a ganhar corpo na terça-feira (1/9), quando Mendonça, relator dos processos da Operação Compliance Zero, retirou o sigilo de um relatório de 218 páginas elaborado pela Polícia Federal a partir da análise do celular de Vorcaro, apreendido durante a operação.
O documento, produzido a pedido do próprio ministro, reúne trocas de mensagens via WhatsApp que indicam reuniões, jantares e agendas compartilhadas entre o ex-banqueiro e Moraes em Brasília, São Paulo e Campos do Jordão, entre meados de 2024 e 2025.
No mesmo dia, Gonet pediu a anulação do material, sob o argumento de que Mendonça teria extrapolado suas funções ao direcionar as investigações e buscar fatos contra o colega de Corte, configurando, na avaliação do procurador-geral, abuso de autoridade.
A reação da ADPF veio três dias depois. Na nota, a associação sustenta que o relatório questionado “foi produzido por determinação do ministro então relator do feito no Supremo Tribunal Federal” e que “os delegados e servidores que dele participaram cumpriram ordem judicial, nos estritos limites nela fixados, sem margem para juízo próprio de conveniência sobre o que lhes foi determinado pelo juízo competente”.
Para a entidade, a abertura da apuração pela PGR tem “efeito objetivo intimidatório sobre os investigadores”, o que justificaria tanto o afastamento de Gonet quanto o arquivamento do pedido de nulidade. A associação também requer que os fatos investigados pela Compliance Zero “sejam apurados em toda a sua extensão, sem seletividade quanto às autoridades envolvidas”.
O pedido de impedimento ganha relevância porque o próprio Gonet é citado no relatório da PF, que aponta sinais de proximidade entre o procurador-geral e Vorcaro, além da relação do fundador do Master com Moraes.
A PGR, por sua vez, informou ao Supremo que abriu um procedimento para apurar possível interferência na produção do documento, alegando que não foi comunicada sobre a determinação de Mendonça.
Segundo a tese sustentada por Gonet, o procedimento de investigação sobre o celular de Vorcaro, que identificou as conversas com Moraes, foi determinado pelo ministro sem informar o Ministério Público, o que indicaria ausência de controle da atividade policial.
O desenrolar do caso também passa pelo presidente do STF. Na quinta-feira (3), Edson Fachin afirmou que, diante do pedido da PGR pela nulidade dos atos de Mendonça para investigar Moraes, seria necessário instaurar um procedimento de investigação para verificar se houve de fato ingerência do relator nas apurações da PF.
O procedimento de controle externo da atividade policial, conduzido pela Procuradoria-Geral, obedece, assim, a ordem expressa do presidente do Tribunal, o que confere contornos institucionais ao embate entre os dois poderes.
O caso Banco Master, pano de fundo da crise, tem origem em novembro de 2025, quando a Polícia Federal deflagrou a primeira fase da Operação Compliance Zero para investigar suspeitas de fraudes na venda de carteiras de crédito supostamente falsas ou sem lastro pelo Master ao Banco de Brasília (BRB), com prejuízos estimados em cerca de R$ 12 bilhões.
Vorcaro foi preso em 18 de novembro de 2025 e, desde então, a operação já alcançou dez fases, atingindo banqueiros, políticos e agentes de segurança. Em fevereiro de 2026, André Mendonça foi sorteado como novo relator do caso, e, em março, o STF formou maioria para manter a prisão do ex-banqueiro.
A revelação das conversas entre Vorcaro e Moraes, contudo, deslocou o foco da investigação para o comportamento de autoridades do próprio STF, gerando reação imediata de instituições como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que exigiu apuração rigorosa e isenta sobre a relação exposta pela PF.
As implicações do episódio transcendem o caso concreto. Ao mesmo tempo em que questiona a imparcialidade do procurador-geral, a ADPF coloca em xeque a legitimidade do controle externo da atividade policial exercido pela PGR, defendendo que os delegados que cumpriram determinação judicial não podem ser alvo de apuração por terem obedecido a ordem do relator.
A disputa expõe, ainda, a fragilidade dos mecanismos de fiscalização recíproca entre STF e Ministério Público, num cenário em que a recondução de Gonet ao cargo, aprovada pelo Senado em novembro de 2025, já era alvo de críticas por parte de setores que questionam sua independência.
Editoriais de grandes jornais chegaram a defender a saída do procurador-geral, sob o argumento de que o caso Master teria tornado insustentável a permanência de quem não cumpre os requisitos indispensáveis para fiscalizar o poder, a saber, imparcialidade e independência.
O desfecho da crise dependerá, em grande medida, da resposta do STF ao pedido da ADPF e da decisão de Gonet sobre o próprio afastamento, além do julgamento do mérito do pedido de nulidade do relatório.
O que já está posto, porém, é que a disputa em torno do caso Banco Master deixou de ser apenas uma investigação sobre fraudes financeiras e se transformou em um teste de limites para a relação entre a Polícia Federal, o Ministério Público e o Supremo Tribunal Federal, com potencial de repercussão direta sobre a credibilidade das instituições e sobre o tratamento dado a autoridades com foro por prerrogativa de função.
Val-André Mutran é repórter especial do Portal Ver-o-Fato e está sediado em Brasília.














