Caso envolve negócios de canabidiol, mesadas do Careca do INSS e já soma três inquéritos às vésperas das eleições; lobista abre processo contra presidente da CPMI do INSS
Brasília – Um informante da Polícia Federal apontou Swedenberger Barbosa, atual assessor do Palácio do Planalto, como um dos canais que teriam aberto as portas do Ministério da Saúde ao empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A revelação, publicada pela CNN Brasil na segunda-feira (10), insere mais um personagem no centro de uma investigação que já acumula três inquéritos e ocorre às vésperas da campanha eleitoral de 2026.
Paralelamente, o presidente da CPMI do INSS, Carlos Viana , afirmou na segunda-feira, que está sendo processado pela lobista Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha.
“A mesma que, segundo as investigações, recebeu R$ 1,5 milhão do Careca do INSS e fez pagamentos ao ex-chefe de Gabinete de Lula. Agora ela me processa. Acham que processo me cala.
Acham que blindagem calava a CPMI. Acham que liminar escondia o que o Brasil já viu”, escreveu no X.
“Não recuei. E não vou recuar. O dinheiro que sumiu dos aposentados não tem direito a silêncio. Quem se meteu nisso não tem direito a blindagem. Vou continuar mostrando cada desdobramento”, acrescentou.
O dono da ante-sala de Lula está na berlinda
Na última semana, Roberta voltou ao centro do noticiário após Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-Chefe de Gabinete do presidente Lula (PT), admitir ter contraído um empréstimo com a lobista, numa história que precisa de esclarecimentos após duas notas lacônicas publicadas pelo “dono da agenda do Presidente da República”.
Marcola se defendeu: “Em primeiro lugar, meus sigilos bancário e fiscal estão integralmente à disposição da Justiça. Faço isso para deixar claro e público que jamais houve nada além do empréstimo pessoal que obtive junto a ela, pago com a transferência bancária de R$ 249 mil — uma movimentação de natureza estritamente privada“, afirmou.
Permeia a suspeita de que o empréstimo tenha sido uma maneira de o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, exercer influência dentro do Palácio do Planalto, seja para agendar encontros ou para obter contratos.
E o pior: o dinheiro do empréstimo ainda pode ter sido resultado dos valores surrupiados dos aposentados e pensionistas do INSS.

Informante abre o bico e amplia escopo das investigações
Segundo o relato prestado à PF pelo informante cuja identidade está guardada a sete chaves, Swedenberger Barbosa ocupava o cargo de secretário-executivo da pasta quando teria ajudado a facilitar contatos do filho do presidente no Ministério da Saúde. Atualmente, ele chefia o Gabinete Adjunto de Gestão Interna do Gabinete Pessoal da Presidência da República, função confirmada na estrutura oficial do governo. O informante, também citou Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, como outro canal de acesso.
A menção a Swedenberger Barbosa ocorre em um momento de escalada das apurações contra Lulinha. Em 30 de julho, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a abertura de inquérito para investigar suspeitas de tráfico de influência e corrupção, a pedido da PF, que enviou o requerimento à Corte em 25 de julho. Dias depois, em 4 de agosto, a corporação pediu um terceiro inquérito, que envolve apurações sobre a atuação do filho do presidente dentro do Planalto.
O caso tem como pano de fundo a Operação Sem Desconto, conduzida pela PF em parceria com a Controladoria-Geral da União, que investiga um esquema de fraudes que teria desviado cerca de R$ 6,3 bilhões de beneficiários do INSS entre 2019 e 2024. Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, preso em setembro de 2025, é apontado como um dos operadores centrais do esquema e figura como peça-chave na relação atribuída a Lulinha.
Barbosa é figura histórica do petismo e exerceu a Secretaria-Executiva do Ministério da Saúde — o número dois da pasta — entre janeiro de 2023 e março de 2025, período em que, segundo o informante, teria atuado para viabilizar o acesso do filho do presidente à pasta. Depois, migrou para a estrutura do Gabinete Pessoal da Presidência, onde permanece até hoje, o que aproxima a investigação do núcleo mais próximo do mandatário.
O que está sendo investigado
Os investigadores buscam apurar se Lulinha exerceu influência indevida junto ao Ministério da Saúde e ao gabinete da Presidência para favorecer a liberação e a comercialização de canabidiol medicinal em programas governamentais. A suspeita é que o filho do presidente tenha atuado em parceria com a empresária Roberta Luchsinger em favor da World Cannabis, empresa ligada ao Careca do INSS.

O lobista tentou fechar um contrato milionário com o Ministério da Saúde em 2024 e 2025 para vender medicamentos de canabidiol ao governo, negócio que não chegou a ser assinado. Em depoimentos prestados à PF em 2025, o informante afirmou que Camilo pagava mesadas a Lulinha em troca de acesso a órgãos da área da saúde. A PF também identificou pagamentos do lobista à RL Consultoria, empresa de Roberta Luchsinger, que teria recebido, em parcelas, R$ 1,5 milhão.
Em mensagens apreendidas, Antunes teria pedido a transferência de R$ 300 mil a uma empresa em nome de Luchsinger. Ao ser questionado sobre o destinatário final do dinheiro, respondeu que seria “o filho do rapaz”. Em outras conversas, a empresária orientou o lobista a descartar telefones após uma busca e apreensão. A PF descreveu a atuação de Luchsinger como “essencial para a ocultação de patrimônio, movimentação de valores e gestão de contas bancárias e estruturas empresariais utilizadas como instrumentos da lavagem de capitais”.
Posições das defesas e do governo
As defesas de Lulinha, de Antonio Camilo e de Roberta Luchsinger negam as acusações. O advogado Guilherme Suguimori, que atua na equipe de defesa do filho do presidente, afirmou ao Poder360 que não teve acesso ao pedido da PF e declarou que a nova investigação “demonstra uma falha da PF” em encontrar provas contra o empresário. A advogada de Camilo, Danyelle Galvão, disse não ter conhecimento sobre o tema, e o advogado Bruno Salles, que defende Luchsinger, classificou a abertura de novo inquérito como uma tentativa de “explorar politicamente” o caso às vésperas do processo eleitoral.
Em depoimento à PF em maio de 2026, Luchsinger afirmou ter prestado serviços ao lobista relacionados à regulação do mercado de canabidiol no Brasil, mas disse reconhecê-lo como empresário do ramo farmacêutico. Declarou ainda ter apresentado Lulinha ao Careca do INSS antes da deflagração da Operação Sem Desconto e sustentou que o filho do presidente não prestou serviços ligados à regulação de canabidiol nem foi remunerado por isso.
O presidente Lula, por sua vez, adotou um discurso de distanciamento. Em 30 de julho, afirmou que o filho “não vai ter ajuda minha se estiver errado”. Em fevereiro, já havia dito que Lulinha “vai pagar o preço” caso se comprove envolvimento. Na semana passada, após o pedido do terceiro inquérito, a CNN reportou que Lula tem um discurso pronto de que “não poupa ninguém”. A Secretaria de Comunicação da Presidência e o Ministério da Saúde não comentaram os pedidos de esclarecimentos.
Investigação pode arruinar planos de reeleição
A investigação, porém, ainda está em fase de apuração, e os relatos do informante não representam conclusão da Polícia Federal sobre eventual responsabilidade criminal, mas emparedou o governo. O próprio histórico do caso mostra idas e vindas: a CPI do INSS chegou a aprovar quebras de sigilo de Lulinha, mas o Supremo barrou a comissão em março e mandou o Congresso encerrar a investigação, em uma vitória do governo. Em dezembro de 2025, o Planalto derrotou a oposição por 19 a 12 e a CPI rejeitou convocar o filho do presidente.
Há ainda uma disputa narrativa sobre a oportunidade das apurações. Enquanto a defesa de Luchsinger fala em “melhor de três” e acusa a PF de tentar “encontrar algo que possa ser explorado politicamente”, governistas questionam a investigação contra Lulinha e apontam suposta “blindagem” ao senador Flávio Bolsonaro, em um movimento que politiza o embate. O senador Flávio Bolsonaro reagiu publicamente, ironizando: “Já imaginaram se fosse filho do Bolsonaro?”.
A CGU, por sua vez, chamou o informante para depor em maio, dentro de uma investigação interna relacionada à atuação da World Cannabis, o que indica que o tema extrapola a esfera policial e alcança órgãos de controle.
Implicações políticas
O caso atinge o Planalto em um momento sensível do calendário eleitoral. A menção a um assessor que despacha no Gabinete Pessoal da Presidência aproxima a investigação do núcleo íntimo do governo e pode ampliar o desgaste político, ainda que a repercussão dependa da evolução das provas. A oposição tem explorado o tema como símbolo de suposto tráfico de influência, enquanto o governo busca enquadrar as apurações como movimentação política da PF.
A defesa de Lulinha, por outro lado, aposta na ausência de provas conclusivas e no histórico de arquivamentos e suspensões para conter os efeitos. A movimentação de R$ 19,5 milhões em quatro anos, revelada por extratos citados em março, e a confirmação de que o Careca do INSS financiou uma viagem do filho do presidente a Portugal mantêm o caso vivo na agenda pública, mas não configuram, por si só, ilícito comprovado.
Pedra no sapato
A revelação de que um informante da PF apontou Swedenberger Barbosa como elo entre Lulinha e o Ministério da Saúde adiciona um novo capítulo a uma investigação que se arrasta há meses e ganha contornos eleitorais — uma pedra no sapato do governo. Os depoimentos descrevem um suposto caminho de influência que envolveria o atual assessor do Planalto, o ex-chefe de gabinete Marcola, a empresária Roberta Luchsinger e o lobista Careca do INSS, em torno de negócios de canabidiol com a pasta da Saúde.
Os fatos, porém, ainda carecem de comprovação judicial. As defesas negam as acusações, o governo não se manifestou oficialmente sobre o conteúdo dos depoimentos e a PF segue colhendo provas sob supervisão do STF. O desfecho dependerá da consistência das evidências e da capacidade de os envolvidos sustentarem suas versões, em um cenário em que cada passo da investigação tende a ser lido pelo prisma da disputa política de 2026.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















